outubro 2016 – Widoctor

Archive outubro 2016

Cirurgia Oncológica

Cirurgia Oncológica

Pergunta : Giulia Monteiro
Olá, tudo bem?
Gostaria de saber como funciona a rotina de um cirurgião oncológico – a qualidade de vida, tempo pra passar com a família, isso é possível numa especialidade tão complexa? Tenho muito interesse na área, mas tenho medo em relação a esse quesito. Gostaria também da sua opinião em qual especialidade cirúrgica existe uma “melhor” qualidade de vida ( com cirurgias mais programadas). Obrigada.
Resposta :
A Oncologia e também a Cirurgia Oncológica são especialidades “tristes”, sendo importante que o profissional esteja bem preparado psicológicamente para lidar com esse tipo de paciente e com essas patologias.
De um modo geral esse tipo de cirurgião trabalha em equipe com oncologistas clínicos que lhe encaminham os pacientes e complementam os tratamentos com quimioterapia e radioterapia.
A maioria das cirurgias são eletivas e podem ser programadas não prejudicando a qualidade de vida do cirurgião, mas ele vai ter que estar ligado em pré e pós operatórios e às vezes terá que se deslocar de urgência para complicações dos pacientes operados.
Geralmente o cirurgião oncológico estará ligado a um hospital como staff e terá sua clínica particular paralelamente.
Com exceção dos cirurgiões gerais e cirurgiões pediátricos, os cirurgiões de outras especialidades embora tenham casos de urgência, na maioria das vezes, poderão marcar suas cirurgias eletivamente.
A especialidade cirurgia por si só já é estressante porque está comprometida com resultados e erros são claramente identificáveis.
Sucesso
Mário Novais

É possível diagnosticar febre somente com o toque?

É possível diagnosticar febre somente com o toque?

É muito comum na prática clínica descrevermos se o paciente está febril ou afebril ao toque ao exame físico. No entanto, é válido questionar a precisão deste método, já que obviamente trata-se de uma maneira grosseira de detectar alterações da temperatura corporal. Afinal, o que há de evidência neste assunto?
Um estudo publicado no British Medical Journal publicado em 1998 avaliou esta questão. A percepção de febre ao toque, segundo a percepção de mães e alunos de medicina, foi comparada com a temperatura axilar aferida por um termômetro de mercúrio. Embora a temperatura corporal seja mais precisamente mensurada no reto, e não na axila, é válido  considerar esta comparação, já que a temperatura axilar é o método usado na prática brasileira, ao contrário da temperatura retal, que é tipicamente aferida em países anglo-saxões.
O estudo revelou que, pelo toque, a sensibilidade e a especificidade foram 94% e e 44%, respectivamente, para o grupo das mães. Isto significa que o valor preditivo positivo (VPP) foi de 39%, enquanto o valor preditivo negativo (VPN) foi de 95%.
Já o grupo de estudantes apresentou números semelhantes, exceto pela especificidade, que foi um pouco mais elevada. O VPP e o VPN foram de 49% e 97%, respectivamente.
Em outras palavras, com o toque podemos afirmar com segurança na grande maioria dos casos de que o paciente não tem febre, mas caso a nossa impressão seja de que o paciente está febril, a conduta mais racional é mensurar a temperatura corporal, de preferência com um termômetro de mercúrio, pois os termômetros digitais não são tão precisos.
Fonte: Whybrew K, Murray M, Morley C. Diagnosing Fever by Touch: Observational Study. BMJ: British Medical Journal. 1998;317:321-321.

Critérios diagnósticos da esquizofrenia

Critérios diagnósticos da esquizofrenia

A esquizofrenia é um distúrbio psiquiátrico que acomete cerca de 4 pessoas para cada 1.000 indivíduos em todo o mundo. A doença provoca não só grande prejuízo das funções ocupacionais e sociais do paciente como também está associada a uma maior mortalidade. Isto se deve à maior incidência de uso substâncias, suicídio e morte por causas externas nesta população, além das dificuldades em tratar as eventuais comorbidades do paciente esquizofrênico.
A doença é mais comum em homens e geralmente começa a se manifestar durante a adolescência ou na primeira metade da terceira década de vida. Os pacientes que abrem o quadro da doença antes disso apresentam maior risco de desenvolver esquizofrenia de difícil controle. Vale ressaltar também que a esquizofrenia é uma doença multifatorial em que o componente genético possui uma grande participação.
Os achados da doença são delírios (de controle, de perseguição, de referência, de grandiosidade, etc.), alucinações (geralmente auditivas; se visuais, considerar outras hipóteses), fala e comportamento desorganizados, negligência do cuidado pessoal (aparência descabelada, roupas sujas…), sinais de catatonismo, etc. Além disso, podem haver manifestações de sintomas negativos, que são fatores de mau prognóstico. São eles: avolia, anedonia,  isolamento social,  embotamento afetivo…
O diagnóstico da esquizofrenia segundo o DSM IV TR requer:
A. Sintomas Característicos: Pelo menos dois dos seguintes, cada um presente por um espaço significativo de tempo durante um período de um mês (ou menos, caso tratado com êxito):
(1) delírios
(2) alucinações
(3) fala desorganizada (ex., descarrilhamento freqüente ou incoerência)
(4) comportamento totalmente desorganizado ou catatônico
(5) sintomas negativos, ou seja, embotamento afetivo, alogia ou avolição

        (Nota: apenas um sintoma A é necessário se os delírios são bizarros ou as alucinações consistem de uma voz mantendo um comentário sobre o comportamento ou pensamentos da pessoa ou duas ou mais vozes conversando entre si).
B. Disfunção Ocupacional/Social: Durante um espaço significativo de tempo, desde o início do distúrbio, uma ou mais áreas principais de funcionamento como trabalho, relações interpessoais ou auto-cuidado encontram-se significativamente abaixo do nível atingido antes do início (ou quando o início ocorre na infância ou na adolescência, fracasso em atingir o nível esperado de desempenho interpessoal, acadêmico ou ocupacional).
C. Duração: Sinais contínuos do distúrbio persistem no mínimo durante seis meses. Este período de seis meses deve incluir pelo menos um mês com os sintomas que satisfazem o critério A (ou seja, sintomas da fase ativa) e podem incluir períodos prodrômicos e/ou residuais quando o critério A não é plenamente satisfeito. Durante esses períodos, os sinais do distúrbio podem ser manifestados por sintomas negativos ou por dois ou mais sintomas listados no critério A presentes em uma forma atenuada (ex., a duração total dos períodos ativo e residual).
D. Distúrbio esquizoafetivo e Distúrbio de Humor com Características Psicóticas foram descartados devido a: (1) nenhum episódio significativo depressivo ou maníaco ocorreu simultaneamente com os sintomas da fase ativa; ou (2) se episódios de humor ocorreram durante o episódio psicótico, sua duração total foi breve em relação à duração do episódio psicótico (ou seja, à duração total dos períodos ativo e residual).
E. Exclusão de Substância/Condição clínica geral: O distúrbio não é devido a efeitos fisiológicos diretos de uma substância (ex., uma droga de abuso, uma medicação) ou uma condição clínica geral.
F. Relacionamento a um Distúrbio Global do Desenvolvimento: Se há uma história de Distúrbio Autístico ou um Distúrbio Global do Desenvolvimento, o diagnóstico adicional de Esquizofrenia é estabelecido apenas se delírios ou alucinações proeminentes também encontram-se presentes durante pelo menos um mês (ou menos, caso o tratamento tenha êxito).
Fonte: Meltzer HY, Bobo WV, Heckers SH, Fatemi HS. Chapter 16. Schizophrenia. In: Ebert MH, Loosen PT, Nurcombe B, Leckman JF. eds. CURRENT Diagnosis & Treatment: Psychiatry, 2e. New York, NY: McGraw-Hill; 2008.
 

Rastreio do câncer de mama

Rastreio do câncer de mama

O câncer da mama é o tipo de câncer que mais acomete as mulheres no Brasil, excluindo o câncer de pele não melanoma. Segundo dados do Globocan 2012, da International Agency for Research on Cancer (Iarc), o risco cumulativo (risco acumulado durante a vida) de uma pessoa ter e morrer de um câncer de mama no Brasil é, respectivamente, 6,3% (ter) e 1,6% (morrer).
Como ocorre com outros cânceres, a detecção precoce é medida fundamental que reduz morbidade e mortalidade, seja ela por diagnóstico precoce (pacientes sintomáticas) ou por rastreio (paciente assintomáticas).
Segundo o manual do MS, elaborado pelo INCA em 2015, o rastreio deve ser feito através de mamografias bianuais nas mulheres entre 50 e 69 anos.
O autoexame das mamas é contraindicado, e o exame clínico das mamas parece não apresentar tanto benefício quanto prejuízo.
Outras modalidades de exames de imagem (i.e., US e RM) também não são indicados.
Resumindo, a mamografia é o único método de rastreio que é capaz de reduzir a mortalidade da doença.
Ademais, o laudo das mamografias é descrito através da classificação universal Breast Imaging Reporting and Data System, mais conhecido como BI-RADS.

  • BI-RADS 0: avaliação incompleta – deve-se avaliar os exames anteriores e/ou repetir o exame
  • BI-RADS I: sem achados – não foram encontradas alterações, logo segue-se com o rastreio normalmente
  • BI-RADS II: achados benignos – estes incluem fibroadenoma calcificado, cisto oleoso ou lipoma, linfonodos intramamários, calcificação vascular, etc. Seguir o rastreio como de costume.
  • BI-RADS III: achado provavelmente benigno – o risco de malignidade é inferior a 2%. Deve-se realizar nova mamografia em 6 meses, e a partir daí a cada 6 a 12 meses por 1 a 2 anos.
  • BI-RADS IV: anormalidade suspeita – indicação de biópsia (preferencialmente por agulha fina).
  • BI-RADS V: alta suspeição para malignidade – massa espiculada ou com calcificações pleomórficas. Biópsia e tratamento estão indicados.
  • BI-RADS VI: câncer já identificado por biópsia.

Fonte: Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil. MS. 2015; Eberl MM, Fox CH, Edge SB, Carter CA, Mahoney MC. BI-RADS classification for management of abnormal mammograms. Journal of the American Board of Family Medicine : JABFM. 2006;19:161-164.
 

Quem é Mais Cirúrgico : Oftalmo ou Otorrino

Quem é Mais Cirúrgico : Oftalmo ou Otorrino

Pergunta : Lara Caroline ( Faculdades Integradas do Planalto Central )
Olá Dr. Estou prestes a me formar no final deste ano e ainda tenho muitas dúvidas a respeito da escolha da minha residência. Minhas dúvidas são entre otorrino e oftalmo por serem especialidades que acredito ter uma boa qualidade de vida e boa remuneração. O problema é não gosto muito de cirurgia, a parte clínica me atrai mais. Porém sei que ambas são especilidades cirurgicas, principalmente otorrino. Gostaria da sua opinião a respeito disso, da “carga” cirurgica de cada especialidade. Agradeço desde já!
Resposta :
As duas opções apontadas por você estão entre as melhores especialidades do momento e qualquer uma das duas será uma boa escolha, porém você tem que se colocar na situação de trabalhar diariamente em atividades bem distintas e ver em qual dos dois cotidianos se sentirá mais confortável e feliz.
Na oftalmo você poderá ficar somente na parte clínica ( mesmo que as cirurgias de catarata – feijão com arroz da especialidade- sejam muito simples ) e terá bastante exames complementares, que aumentarão sua remuneração.
A otorrino é uma especialidade muito mais cirúrgica do que a oftalmo e algumas cirurgias são mais complexas e de maiores complicações, tipo hemorragias…
Poucos otorrinos ficam somente no atendimento clínico e exames da especialidade.
Concluindo : dessas duas opções, se você prefere menos a parte cirúrgica, então a oftalmologia deve ser sua escolha. Não vai se arrepender.
Sucesso
Mário Novais

Hematologia no Interior

Hematologia no Interior

Pergunta : Filipe Vilela ( Universidade Federal da Bahia )
Penso em seguir a carreira de hematologista, mas tenho dúvidas a respeito do mercado de trabalho: é possível atuar fora dos grandes centros?
Gostaria muito de trabalhar no interior (ainda que em mais de uma cidade) mas não sei se o mercado permite.
Resposta :
Na escolha da especialidade é muito importante se pensar em como vai ser o dia a dia do profissional e que tipo de paciente e de patologias se vai lidar. Se você realmente quer fazer hematologia, sugiro que siga o caminho normal. Faça residência médica em clínica médica por 2 anos e depois mais 2 anos na residência de hematologia e hemoterapia. Essa área lida com patologias graves, sendo fundamental que o profissional tenha uma formação bastante sólida (inclusive em Clínica Médica).
Além disso, durante a residência de clínica médica vc vai ter oportunidade de lidar com alguns pacientes hematológicos e ver se realmente se identifica com essa especialidade, já que a hematologia é considerada uma especialidade triste pelo tipo de patologias com as quais lida, o que exige do profissional uma estrutura pessoal forte para lidar com esses pacientes.
Uma vez concluída a residência médica em clinica medica, o ingresso na residência de hematologia não é muito difícil porque a procura não é grande. A relação candidato vaga é praticamente 1:1 .
A qualidade de vida do hematologista não é das melhores, mas a remuneração é boa e depende em que área o profissional vai atuar, como hematologia clinica, hemoterapia, transplante de medula ou transplantes em geral.
De acordo com o tamanho da cidade poderá ser mais fácil ou mais difícil se instalar, pois depende muito da concorrência local.
Se for uma cidade onde não haja hematologista e mesmo sendo pequena, houver outras cidades próximas que possam solicitar seus serviços, o mercado será atraente.
Resumindo : se pretende realmente ir para uma cidade do interior, precisa antes analisar o mercado local, mas antes disso precisa se resolver se vai optar pela hematologia como especialidade e isso só pode ser decidido durante a sua residência em clínica médica; então sugiro adiar sua decisão para o final da residência em clínica médica.
Sucesso
Mário Novais

Recém Formado : Fazer Residência ou Ganhar Dinheiro ?

Recém Formado : Fazer Residência ou Ganhar Dinheiro ?

Pergunta : Lucas Silva ( Universidade Federal do Triângulo Mineiro )
Olá, vou me formar agora no fim de 2016 e queria passar o ano de 2017 apenas trabalhando para juntar alguma reserva financeira e passar 2018 me preparando para entrar em alguma residência no início de 2019. Minha intenção é fazer Clínica Médica. Queria saber a opinião de vocês sobre a influência do Programa Mais Médicos na Residência Médica e sobre a possibilidade de eu ter que fazer em 2019 1 ano de Residência em Medicina de Família e Comunidade. Não sei se a Lei continua com força, mesmo sem o debate com a sociedade e as entidades médicas.
Resposta :
Deixar um intervalo entre a formatura e a prova de residência na maioria das vezes não é muito bom. Além de se “perder o pique “do estudo, se começa a trabalhar em plantões para fazer dinheiro e não se consegue preparar direito para as provas e muitas vezes vai se deixando para o próximo ano e quando se vê os anos passaram e acaba não fazendo residência, que é extremamente importante na formação do profissional.
Acho que vc deveria tentar entrar na residência agora e na maioria dos casos o residente ( que ganha uma bolsa de cerca de R$ 3.000,00 ) consegue dar um plantão de 12 h noturno durante a semana e mais um de 12 horas no final de semana, com isso fazendo uma receita considerável.
O programa mais médicos não tem influência na residência médica.
Em relação às mudanças propagadas sobre um ano obrigatório de residência em Medicina da Família a partir de 2019, isso ainda não está homologado, embora seja bem provável.
Sucesso
Mário Novais