Autoestima e o Médico

Autoestima e o Médico

Autoestima e o Médico

O processo de Globalização e IV Revolução Tecno-científica Informacional1 originada na segunda metade do século passado e em plena execução na segunda década do século XXI trouxe consigo um panorama de conflitos entre as saúdes mental e física de toda a população – refletindo nos médicos e na sua profissão. O foco na transmissão de dados e de notícias geralmente voltados para interesses econômicos das potências mundiais fez com que a programação neuropsíquica associativa do homem sofresse estímulos mais velozes do que estava acostumada a suportar. Assim, mesmo com todos os avanços nas pesquisas a respeito do cérebro e suas questões anátomo fisiológicas e da saúde mental nota-se um atraso na neuro plasticidade do ser humano em relação ao novo meio ambiente o qual está inserido. Nesse contexto, as estatísticas de prevalência da baixa autoestima e consequentemente da depressão e do suicídio aumentam diariamente enquanto de modo proporcional verifica-se uma queda na produtividade e na qualidade do serviço médico ofertado pelos profissionais.

Não é novidade que a autoestima é de vital importância para todo indivíduo – em especial, para o médico. Tratando-se do agente transformador da saúde, o equilíbrio da mente e do corpo é essencial para a boa prática de medicina. De acordo com o professor da Universidade de São Paulo Leandro Karnal indivíduos otimistas e com maior autoconfiança agem enfrentando os seus desafios e consequentemente podem alcançar maior produtividade e resultados positivos no exercício diário da profissão. Atualmente nas grandes empresas muitos workshops e seminários têm sido adotados como maneira de estimular a renovação dos conhecimentos e de técnicas de autodesenvolvimento no intuito de explorar essas questões. No meio médico, em contrapartida, não há razão evidente que justificasse o fato dessa inciativa de promover qualificação contínua dos profissionais continuar a ser executada de maneira tão lenta e discreta. Assim, a promoção da saúde global do indivíduo – leia-se harmonia entre a mente e o corpo – caracteriza-se em elevada autoestima, é de extremo valor para um alto desempenho dos médicos dentro de sua rotina e poderia ser mais bem exploradas por educação continuada.

A autoestima, também, é importante para uma melhor preparação prévia do médico para os desafios diários. Com o conhecimento antecipado de seus objetivos de maneira clara e consciente, o médico – e qualquer outro profissional – conquista a possibilidade de buscar um treinamento adequado e de recolher informações relevantes para o preparo de sua carreira e de suas habilidades cognitivas e técnicas. Seja no ingresso em um novo emprego seja na escolha da especialidade ou na abertura de seu consultório esse plano de metas promove maiores chances de alcançar sucesso nos novos projetos. Considerando a autoestima semelhante a uma alavanca, parafraseando o autor “Schaw Achor” no livro “O jeito Harvard de ser feliz”, a manutenção da autoestima em altos níveis permite elevar comportamentos que levam ao sucesso e sentimentos positivos e, ainda, pode representar uma fuga à depressão2 pelo rebaixamento dos sintomas das falhas diante dos obstáculos diários. É um mecanismo “fisiológico” de defesa do ser humano quando bem administrada e a atenção aos seus cuidados deveria ser considerada prioridade.

Já o psiquiatra, escritor e palestrante brasileiro Augusto Cury3 afirma que a ansiedade é o “mal do século”. Constatou que a velocidade de informações e de cobranças oferecidas ao homem nunca foi tão intensa e que isso representava uma necessidade de modificar as características psicossociais do ser humano. É plenamente difundido que tal ansiedade extrema se associa de maneira inversamente proporcional à autoestima. Identificam-se nesses casos de baixa autoestima diversas situações comuns, como a frustação diante de grandes expectativas criadas pela própria mente do indivíduo em relação a algo ou a alguém ou como a vivência no passado ou no futuro com impedimento que o presente esteja sendo vivido de maneira adequada com a devida programação por metas com objetivo de alcançar os sonhos pessoais vislumbrados no futuro. Nesse contexto, surge a depressão – doença com estimativa de prevalência de 4,4% da população mundial segundo a OMS4. No Brasil, de acordo com a organização, ocupa o segundo lugar na lista com o valor ultrapassando a referência mundial e chegando aos 5,8%. A evolução desse quadro clínico em tamanha parcela da população traduz os números apresentados no ano de 2015, quando 788 mil pessoas morreram por suicídio. Isso representou quase 1,5% de todas as mortes no mundo, figurando entre as 20 maiores causas de morte no ano do estudo. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda maior causa de morte.

No artigo extraído do MedScape5 “Why So Many Doctors Lack Self-confidence, and How to Get It Back” encontram-se referências à baixa autoestima de estudante de medicina e de médicos nos EUA ao longo de suas graduações, de suas residências, de seus fellowships e nas suas rotinas de trabalho. Alguns indicam prejuízos na saúde mental por sentirem pressão em demasia ofertada pelos pacientes e pelos chefes nos hospitais – geralmente cobranças envolvendo um alto grau de resultado. Outros apresentam questões relacionadas à dificuldade de manusear a vida pessoal pela alta carga de honorários na prática diária e pela falta de disposição física para desfrutar dos pequenos momentos livres com os entes queridos. No Brasil a situação não é muito diferente. Os médicos sofrem com as questões relatadas pelos norte-americanos sem, contudo, contar com uma boa infraestrutura para exercer uma boa medicina. Isso sem levar em consideração a redução acentuada do reconhecimento do profissional por parte da população com o passar do tempo.

Há ainda a questão da aparência física dos médicos que não dispõem de tempo para se exercitar e cuidar da própria saúde. Além da redução da autoestima, a falta de cuidados com a saúde física gera grande indisposição para enfrentar rotinas desgastantes. Isso se associa com redução da produtividade, com o maior risco de depressão e suicídio e a uma queda da expectativa de vida. De acordo com pesquisa publicada no British Medical Journal6 a baixa autoestima reduz a vida dos indivíduos por uma série de motivos, dentre os quais aumento de doenças cardiovasculares, psiquiátricas e imunológicas. Nas palavras do Dr. Lair Ribeiro – médico, professor, palestrante e escritor brasileiro – “Ou você arruma um tempo para cuidar da sua saúde ou você terá de arrumar um tempo para cuidar de sua doença”. Nota-se, nesse sentido, um ciclo vicioso de relação direta entre a baixa autoestima e a má administração do tempo por parte do médico – imerso na rotina desgastante de trabalho – adotando hábitos que afetam a saúde física impactando consequentemente sua saúde global.

Mudanças na educação e na condução dos desenvolvimentos físico e psíquico das próximas gerações tornam-se necessárias no novo ambiente a qual o ser humano está inserido. Nas escolas de base e nas universidades – principalmente nos cursos de medicina – têm sido defendido em diversos seminários e debates relacionados à educação o modelo de ensino “Problem Bases Learning” (PBL). O modelo consiste em oferecer maior autonomia de busca pelo conhecimento aos alunos por meio da problematização e coordenação de um professor tutor. Surgido na década de 607 vem sendo implantado ao redor de todo o mundo – a partir disso no Brasil foi criada a lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB (Lei No. 9.394 de 1996). Desse modo, com a propagação desse método de ensino reformulado é esperado que os estudantes e futuros profissionais saíssem para o mercado de trabalho e para a vida mais bem preparados para resolução de problemas e eventuais obstáculos no dia a dia. Note que, com aprendizado relacionado à resolução de problemas, o sentimento de êxito promove o crescimento exponencial da autoestima. Representa, portanto, uma possibilidade de transformar positivamente por meio da autoestima elevada o exercício da profissão médica nas décadas seguintes.

Paralelamente ao PBL, uma reformulação do olhar da população para o papel dos psicólogos seria uma estratégia interessante para frear os avanços tanto da prevalência da baixa autoestima quanto dos seus sintomas. A maneira pela qual a maioria das pessoas lida com as frustrações é inadequada e tal fato deveria ser acompanhado por profissional capacitado – realidade bem distante da encontrada na sociedade brasileira. Nesse sentido, a criação do hábito de visitar os psicólogos – em especial o profissional médico que lida diariamente com desafios e situações impactantes para o emocional de qualquer ser humano – seria uma estratégia de grande valia para elevar a autoestima e reduziria os sintomas derivados de sua flutuação.

Não menos importante tratando-se de estratégias para aumentar a autoestima dos médicos seriam investidas para aprender a administrar melhor o tempo e cuidar da própria saúde. Sabe-se que pela desorganização ou até pela carga horária de afazeres diários extensos os profissionais acabam deixando pouco ou nenhum momento do dia para dedicar a si mesmo. Surgem, diante disso, todos os problemas familiares, sociais e aqueles relacionados ao aumento exacerbado de peso. Nesse contexto, seria interessante a criação de uma rotina saudável com prática regular de exercícios físicos ao menos três vezes na semana e com diversos momentos dedicados à família; a realização de planejamento diário no início da jornada de trabalho com prioridades destacadas e tempo para efetuar cada obrigação e o planejamento para ver os entes queridos para reestabelecimento da saúde global e, assim, da autoestima.

Outras indicações para combater a baixa autoestima verificada nos médicos americanos – sugerida pelo artigo5 – foram a interrupção dos abusos encontrados no sistema de saúde, tanto pela alta carga horária quanto pelos abusos de chefes, de colegas e dos demais líderes; a tolerância zero para práticas ofensivas de “bullying”; o oferecimento de um suporte de saúde mental para os profissionais no ambiente de trabalho para que possam receber os cuidados que oferecem aos seus pacientes; o estímulo a construção de relacionamentos sólidos com família, com cônjuges e com colegas e, por fim, a promoção de uma cultura de comunicação e respeito.

Tendo em vista que a relação entre o atual panorama do exercício da profissão médica e a autoestima possui atualmente um prognóstico ruim, alterações relevantes deveriam ser colocadas em vigência imediatamente para melhora da situação. No primeiro plano, os cuidados com a saúde mental dos médicos por profissional capacitado associado a um melhor preparo educacional dos indivíduos que serão inseridos no mercado no futuro seria essencial. Além disso, um interesse pela organização pessoal do médico no intuito de deixar de ser dominado pelo tempo seria fundamental para o seu sucesso pessoal, físico, mental e profissional. Posteriormente, deveria ser explicitamente publicado pelos Conselhos de Medicina por meio de campanhas a prevalência do respeito e do companheirismo nos ambientes de trabalho. Os Conselhos, ainda, deveriam oferecer controle rígido dos comportamentos inadequados. Por fim, a construção de uma família e de um ciclo social adequado para a personalidade de cada médico seria indispensável como apoio diante de uma rotina de trabalho tão desgastante. A união desses fatores impactaria a qualidade de vida dos médicos elevando sua autoestima e, consequentemente, provocaria grande aumento de sua produtividade e da qualidade de seu atendimento.

Referência Bibliográfica:
1 – https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/revolucao-tecnicocientificoinformacional.htm
2 – ACHOR, Shaw. O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Saraiva, 1ª Edição: 2012.
3 – CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século. São Paulo: Saraiva, 2013.
4 – https://g1.globo.com/bemestar/noticia/depressao-cresce-no-mundo-segundooms-brasil-tem-maior-prevalencia-da-america-latina.ghtml
5 – https://www.medscape.com/viewarticle/849481_5
6 – https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/story/2003/09/printable/030912_autoestimaebc.shtml
7 – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422011000700029

Rafael Kader

Aluno da Faculdade Nacional de Medicina - UFRJ; Presidente da Liga Acadêmica de Anestesiologia - LANES UFRJ; Presidente da Associação Interligas Acadêmicas de Anestesiologia do Estado do Rio de Janeiro - AILADERJ.

Os comentários estão fechados.