Van Gogh era mesmo bipolar? – Widoctor

Van Gogh era mesmo bipolar?

Van Gogh era mesmo bipolar?

Van Gogh era mesmo bipolar?

Por Dr. Elie Cheniaux – Parece haver uma relação entre criatividade e transtorno bipolar [Sobre as características clínicas do transtorno bipolar, ver Cheniaux (2016)]. Em primeiro lugar, estudando-se as biografias de grandes artistas, constata-se que muitos deles apresentaram episódios de mania e de depressão ao longo de suas vidas. Além disso, quando são entrevistados artistas bem-sucedidos, utilizando-se critérios diagnósticos modernos, a prevalência de transtorno bipolar entre eles é maior do que na população geral. Por outro lado, na comparação entre indivíduos que sofrem de transtorno bipolar e outros pacientes psiquiátricos, observam-se que os primeiros apresentam um melhor desempenho em testes de criatividade, mais realizações criativas e uma escolha mais frequente de ocupações criativas. Por fim, há diversas características em comum entre um episódio maníaco ou hipomaníaco e o comportamento criativo, tais como um aumento na energia, atividade, autoestima, autoconfiança e capacidade de associar ideias.

Sofrer de transtorno bipolar, é claro, não faz de ninguém criativo. Talvez o que aconteça é que, em pessoas que já possuem um talento natural para a arte, a doença facilite e incremente a produção artística. Acredita-se que, durante os episódios de depressão e de mania, embora estes cursem com intensas vivências afetivas, as quais podem ser altamente inspiradoras, os indivíduos não consigam produzir nada, ou não produzam nada com qualidade. Na depressão, faltam iniciativa, energia e autoconfiança, enquanto na mania o indivíduo tem dificuldade de concentração, está desorganizado e perde a sua capacidade crítica. Provavelmente, durante a hipomania, que, por definição, é de leve gravidade e não cursa com complicações, o bipolar talentoso torna-se capaz de produzir muito, tanto em quantidade como em qualidade.

O holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), um dos maiores pintores de todos os tempos, provavelmente sofria de transtorno bipolar. Durante apenas uma década, dos 27 aos 37 anos de idade, ele produziu mais de 800 pinturas a óleo, especialmente paisagens, naturezas mortas, retratos e autorretratos. Todavia, a sua genialidade só foi reconhecida após a sua morte. Embora hoje em dia muitas de suas obras sejam avaliadas em milhões de dólares, em vida apenas um único quadro seu foi vendido.

Pesquisando a biografia desse “gênio incompreendido”, não fica bem claro quando a sua doença começou. Acessos de raiva foram comuns em toda a sua vida. Quando, por exemplo, discutia arte com alguém, ficava bastante exaltado se discordassem do seu ponto de vista. Muito curioso foi o seu comportamento em Borinage, entre 1878 e 1879. Depois de fracassar em sua tentativa de se tornar pastor, a profissão do pai, Van Gogh vai para essa região mineira da Bélgica a fim de atuar como evangelista. Lá, compadecido pelas condições subumanas nas quais viviam os trabalhadores das minas de carvão, ele decide que deveria suportar os mesmos sofrimentos que via naquela gente. Assim, Van Gogh doa seus pertences, não se alimenta, não cuida da higiene e dorme no chão, sem cobertor, passando frio no inverno. O que é mais evidente é que os episódios mais graves de sua doença ocorreram, na França, nos últimos dois anos de sua vida, período no qual, por coincidência ou não, Van Gogh pintou mais da metade de suas telas.

Em Arles, em 1888, aos 34 ou 35 anos de idade, Van Gogh provavelmente apresenta um episódio hipomaníaco. Em cartas para o seu irmão Theo, Van Gogh relata que se sente feliz, “muitíssimo bem”, “carregado de eletricidade”, “uma locomotiva de pintar”. Trabalha muito, mas não fica nem um pouco cansado: “eu faria mais um quadro nesta mesma noite e o terminaria”. “As ideias para o trabalho me vêm em abundância”, diz ele. O pintor Paul Gauguin, que estava com Van Gogh em Arles, na famosa “Casa Amarela”, fica impressionado com o ritmo da produção do colega.

Na véspera do Natal desse mesmo ano, Van Gogh tem uma grave crise, com as características de uma mania psicótica. Após uma discussão com Gauguin, Van Gogh corta o lóbulo de sua orelha esquerda e o entrega a uma prostituta. Mais tarde, é encontrado inconsciente em casa pela polícia. Perdera muito sangue, mas ainda está vivo. É então internado no hospital de Arles. Lá apresenta uma grande agitação -– quer se deitar com outros doentes, expulsa a freira que tenta cuidar dele – e é amarrado em seu leito.

No hospital de Arles, Van Gogh é assistido pelo Dr. Félix Rey, que não era alienista, termo este que corresponde ao que hoje chamamos de psiquiatra. O médico faz o seguinte diagnóstico: “uma espécie de epilepsia caracterizada por alucinações e por episódios de agitação confusa, cujas crises eram favorecidas por excessos de álcool”. O diretor da instituição, o Dr. Ulpar, também não alienista, diz, no entanto, que Van Gogh fora “acometido de mania aguda com delírio generalizado”. Em poucos dias, em 7 de janeiro de 1889, o pintor é considerado “curado” e recebe alta.

Entre janeiro e fevereiro de 1889, Van Gogh apresenta alucinações auditivas – “vozes” lhe fazem censuras – e delírios persecutórios – recusa-se a comer, pois acredita que querem envenená-lo. Em função disso, volta para o hospital de Arles, mas melhora rapidamente e logo sai da internação.

Em seguida, entre abril e maio de 1889, Van Gogh parece estar deprimido e pede para ser hospitalizado novamente. Tem “angústias”, “sentimentos de vazio e de cansaço na cabeça”, “melancolias” e “remorsos atrozes”. Pensa em suicídio. Sente-se incapaz de voltar a trabalhar e de ficar sozinho. A sua autoestima está baixa e não vê nenhum valor em sua obra artística. Dessa vez, é internado no asilo Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy. Lá é acompanhado por outro médico não alienista, o Dr. Peyron, que mantém o diagnóstico de mania, mas fala também em epilepsia. Quando melhora, Van Gogh recebe autorização para ir a Arles pegar telas que deixara ali, mas, na viagem, volta a alucinar, e, no retorno ao asilo Saint-Paul, tenta o suicídio ingerindo tinta.

No mês seguinte, junho de 1889, o quadro clínico muda. Ainda internado, Van Gogh conta ao irmão que tem nada a menos do que 12 telas em andamento ao mesmo tempo, o que é muito indicativo de uma virada para a hipomania. Contudo, em dezembro do mesmo ano, há a recidiva de um provável episódio de depressão, com sintomas psicóticos. Van Gogh apresenta sentimentos de culpa, pesadelos e emagrecimento, sente-se incapaz de ler e de coordenar o pensamento e novamente ingere tinta para se matar. Os sintomas depressivos vão até fevereiro de 1890 e, em maio desse ano, Van Gogh é outra vez tido como “curado”, recebendo alta de Saint-Paul, um ano após ter sido admitido na instituição.

Entre maio em junho de 1890, Van Gogh está em Auvers, onde, num curto espaço de tempo, apresenta amplas flutuações de humor, porém não é internado. Primeiro, mostra-se feliz e jovial nas cartas para o irmão e produz, de forma impressionante, 70 telas em 70 dias. Depois, diz se sentir um “fracassado”, para logo em seguida ser considerado “curado” pela terceira vez, agora pelo Dr. Gachet, também não alienista.

Todavia a história tem um triste fim. Em 27 de julho de 1890, Van Gogh sai cedo para o campo para pintar, como sempre fazia, mas só retorna à noite e está sangrando. Ele havia disparado um tiro contra o próprio peito. Morre na madrugada do dia 29, aos 37 anos, nos braços de Theo. É o irmão quem ouve as suas últimas palavras: “Falhei mais uma vez… Não chore, fiz isso para o bem de todos… A tristeza duraria para sempre”.

Do que sofria Van Gogh? Para a formulação de um diagnóstico médico, é fundamental pesquisar a história familiar. Na família do artista, houve, sem dúvida, diversos casos de transtorno mental. A irmã Wilhelmina morreu, aos 79 anos, internada em uma instituição psiquiátrica. Cor, o irmão mais moço, possivelmente cometeu suicídio, na África do Sul. O tio Cent tinha crises periódicas de “depressão”, nas quais ficava totalmente incapacitado para as atividades do dia a dia. Por fim, o irmão Theo também teria apresentado um quadro de depressão e, após a morte de Van Gogh, teve vários episódios de agressividade contra a esposa e o filho, os quais resultaram em internações psiquiátricas.

No decorrer dos anos, as manifestações psicopatológicas apresentadas por Van Gogh foram atribuídas a diversas condições clínicas, psiquiátricas e não psiquiátricas: entre elas, esquizofrenia, porfiria intermitente aguda, epilepsia parcial complexa, neurossífilis, intoxicação por digitálicos, intoxicação por chumbo, síndrome de Ménière, alcoolismo e transtorno bipolar.

Para Karl Jaspers (1977), Van Gogh tinha esquizofrenia. A hipótese do pai da psicopatologia fenomenológica, contudo, baseia-se mais em uma suposta mudança da técnica de pintura do artista a partir do “incidente da orelha” do que no registro de seus sinais e sintomas. É verdade que Van Gogh apresentou sintomas psicóticos, mas estes não são exclusivos da esquizofrenia. Além disso, diferentemente do que se observa na esquizofrenia, Van Gogh ficava assintomático entre as crises e até o fim a sua afetividade ficou preservada.

Porfiria intermitente aguda foi o diagnóstico formulado por Loftus e Arnold (1991). Essa doença se caracteriza por um distúrbio enzimático hereditário que acomete a pele e o sistema nervoso central. As crises têm início e final abruptos e são recorrentes, podendo cursar com convulsões, alucinações, depressão, delírio persecutório e ansiedade, além de dor abdominal, uma queixa frequente do artista. Van Gogh, no entanto, não apresentou prejuízo cognitivo nem perda da destreza manual, alterações encontradas na porfiria. Falam também contra essa hipótese a baixa prevalência dessa doença e a ausência de casos com esse diagnóstico na família de Van Gogh.

Gastaut (1956), por sua vez, acreditava que Van Gogh sofria de epilepsia parcial complexa. Esse tipo de epilepsia costuma estar relacionada ao lobo temporal e cursa com crises de curta duração de estreitamento da consciência, automatismos e, eventualmente, sintomas psicóticos. O principal indício de que esse seria o diagnóstico mais correto para o caso de Van Gogh é o fato de o artista jamais ter conseguido se lembrar do “incidente da orelha”, pois, na epilepsia parcial complexa, é muito comum haver, a posteriori, amnésia relativa às crises. Além disso, Van Gogh apresentava traços de um tipo de personalidade associado a patologias do lobo temporal, a personalidade gliscroide. Esses traços incluem hiperreligiosidade, hipergrafia e explosividade. Hipossexualidade, outra característica da personalidade gliscroide, porém, não era observada em Van Gogh, que se apaixonou várias vezes e assiduamente procurava prostitutas.

Por outro lado, pode-se dizer que as provas a favor do diagnóstico de epilepsia são apenas circunstanciais, indiretas, pois não há registros de que alguém tenha observado e descrito em Van Gogh ataques epilépticos, sejam parciais complexos ou mesmo do tipo grande mal. Também contradiz o diagnóstico de epilepsia a duração dos episódios apresentados por Van Gogh, os quais, embora muitas vezes curtos, eram bem mais longos do que costumam ser as crises epilépticas.

Van Gogh, de fato, contraiu sífilis, mas o diagnóstico de neurossífilis parece pouco provável. Em geral há um intervalo de muitos anos entre a infecção e o acometimento do sistema nervoso central e, no caso do artista, as alterações psicopatológicas talvez tenham se iniciado mesmo antes de ele começar a frequentar prostíbulos.

O predomínio da cor amarela nas telas de Van Gogh é a justificativa para a hipótese de intoxicação por digitálicos, substâncias que podem causar xantopsia, distúrbio visual em que os objetos parecem amarelados aos olhos do doente. Contudo não existe evidência de que Van Gogh tenha sido medicado com digitálicos. Além disso, o próprio artista dizia que usar o amarelo era uma opção consciente para simbolizar o Sol, Deus e a vida.

O chumbo é encontrado na tinta e pode ser absorvido pela pele. Além disso, Van Gogh, mais de uma vez, ingeriu tinta em tentativas de suicídio. Uma intoxicação por esse metal, afetando o sistema nervoso, pode levar a diversas manifestações neuropsiquiátricas, contudo estas costumam ter um curso contínuo e, no caso do pintor, as alterações emocionais e do comportamento que ele apresentava tinham um caráter predominantemente episódico.

A síndrome de Ménière se caracteriza por vertigem, perda auditiva e zumbido, e este último sintoma explicaria, para os defensores dessa hipótese diagnóstica, o “episódio da orelha”. Obviamente, esse diagnóstico não dá conta de todos os outros distúrbios encontrados no caso de Van Gogh.

Van Gogh abusava de bebidas alcoólicas, especialmente absinto. Assim, alcoolismo é outro diagnóstico proposto para o artista. É difícil afastar essa hipótese, mas, por outro lado, o alcoolismo pode ser uma condição comórbida de outras, visto que o álcool pode causar ou desencadear crises epilépticas e é usado de forma nociva por indivíduos que sofrem de diversos transtornos mentais.

No entanto, transtorno bipolar parece ser a hipótese mais forte para o diagnóstico de Van Gogh. Segundo Jamison e Wyatt (1992), são diversos os elementos encontrados no caso do pintor que são típicos desse transtorno mental, como um padrão cíclico de episódios afetivos, o retorno à normalidade entre as crises, a ausência de deterioração cognitiva e padrões alterados de sono e energia. Sintomas psicóticos e abuso de álcool não são exclusivos do transtorno bipolar, mas comumente ocorrem nesse transtorno mental. Ainda de acordo com esses autores, a história familiar de Van Gogh é bastante consistente com esse diagnóstico. Por fim, eles chamam a atenção para a possível relação entre o transtorno bipolar e a criatividade, como um argumento a mais a favor dessa hipótese diagnóstica.

Então, Van Gogh deveria ter tomado lítio, o medicamento número um no tratamento do transtorno bipolar? Em primeiro lugar, não poderia, pois as propriedades farmacoterápicas do lítio só foram descobertas em 1949, mais de meio século após a morte do artista. Estudos mostram que o lítio reduz significativamente as chances de suicídio, mas diminui a criatividade em indivíduos com transtorno bipolar. Assim, se Van Gogh tivesse sido tratado com lítio, provavelmente teria vivido bem mais, porém agora teríamos muito menos obras-primas para admirar.

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TEXTO RETIRADO DO SITE: http://genmedicina.com.br/2017/12/08/van-gogh-era-mesmo-bipolar-dr-elie-cheniaux/

Walter Gonçalves

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