Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum? – Widoctor

Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum?

Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum?

Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum?

Tabu na sociedade, o suicídio e sua repercussão envolvem diferentes pontos de vista. Nos últimos tempos, foi possível acompanhar algumas delas; a série 13 Reasons Why, que mostrou a história de uma adolescente e suas razões para tirar a própria vida; o jogo Baleia Azul, baseado em tarefas que resultavam em automutilações compartilhadas nas redes sociais do mundo todo, e até mesmo os casos de estudantes de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), uma das mais renomadas do país, que tentaram suicídio e mostraram como eles estão inseridos em um meio de grandes vulnerabilidades.

Dados apurados pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que faz atendimento de apoio emocional, 32 brasileiros se suicidam por dia (1 a cada 45 minutos). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos.

O que pode ficar difícil de entender nisso tudo é como buscar ajuda se a pessoa não sabe que pode ser ajudada ou como é possível ajudar um amigo ou familiar se as pessoas não sabem quais são os sinais e a abordagem mais adequada. Sensível ao problema que afeta uma parcelas dos jovens brasileiros, a equipe de jornalismo do Quero Bolsa, principal plataforma para inclusão de estudantes no ensino superior com bolsa de estudo, ouviu especialistas para ajudar os leitores a entender o problema e agir caso reconheça os sinais em alguém da sua rede de relacionamento.

Os números sobre o suicídio

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em suas orientações sobre como abordar esse tema, mostra que as estatísticas sobre o suicídio são difíceis de ser buscadas e comprovadas de uma forma geral. Nem sempre os atestados de óbito trazem a natureza da morte, por isso a grande dificuldade de saber se as mortes foram por homicídio, suicídio ou até mesmo acidente. Os métodos da pesquisa também podem variar conforme cada país, por isso, os dados precisam ser divulgados com responsabilidade.

Outro ponto levantado por essa publicação da ABP é que a estimativa de tentativas de suicídio supera o número de suicídios em pelo menos dez vezes.

Fatores que podem desencadear o suicídio entre estudantes

Atualmente, o suicídio é a terceira causa de morte na faixa dos 15 e 35 anos e, nas últimas décadas, tem aumentado o percentual entre os jovens em todo o mundo. Na perspectiva da saúde pública, ele é um fenômeno social de distribuição bastante irregular, por isso, fica difícil definir uma causa única. O que existe, de fato, são situações de vulnerabilidade que podem acometer as pessoas e fazer com elas vejam no suicídio a única alternativa.

Para a Dra. Juliana Bernardo Vicente Alves, médica psiquiatra voluntária no NAE (Núcleo de Apoio aos estudantes da Unifesp) e no Núcleo Trans (Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans Professor Roberto Farina Unifesp), existem alguns fatores de risco para o suicídio consolidados para toda a população, inclusive, adolescentes: gênero masculino, não ter um relacionamento estável, extremos de situação socioeconômica, residir em área urbana, ser ateu, isolamento social, situação de perdas recentes, ter história familiar de suicídio, ter tido uma tentativa anterior de suicídio, ter doença física incapacitante, etc.

A questão química também deve ser considerada. Sabe-se que o cérebro funciona às custas de neurotransmissores e que eles têm uma importância muito grande no ato final do suicídio. A serotonina é responsável pelas atitudes ligadas ao impulso e a noradrenalina tem um papel fundamental no interesse que as coisas despertam no indivíduo. Diversos fatores podem influenciar tal funcionamento como, por exemplo, as patologias psiquiátricas. Entre os suicidas, estima-se que 15% apresentam depressão grave, 15% alcoolismo e 10% esquizofrenia. Outro aspecto que chama atenção é o notório e crescente diagnóstico de transtornos de personalidade nesses indivíduos.

“Suicídio: informando para prevenir”, cartilha publicada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria — Foto: Reprodução

“Suicídio: informando para prevenir”, cartilha publicada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria — Foto: Reprodução

Os estudantes e os adolescentes apresentam características inerentes à fase de transição em que vivem. Eles podem apresentar fatores de risco adicionais para o suicídio: a tendência natural para se comunicar por meio da ação (uso de substâncias psicoativas, por exemplo); as mudanças biopsicossociais anteriores ao início da vida adulta (inclusive com uma maior instabilidade emocional) e o fato de estar inserido em uma sociedade que cobra, cada vez mais precocemente, responsabilidades e desempenhos máximos em uma atmosfera de grande competitividade.

A campanha Setembro Amarelo é uma oportunidade de falar sobre o assunto. Ajudamos a quebrar um tabu e a prevenir o suicídio. Carlos Correia, voluntário no CVV

O que o curso de Medicina tem de tão complicado

Cursos como os de Medicina lidam com muita pressão. Eles são, na maioria das vezes, em período integral, por isso, requerem uma grande dedicação dos estudantes e possuem uma rotina muito desgastante.

Quem faz o curso, geralmente, sonhou muito com isso e passou muitos anos fazendo cursinho para conquistar a tão almejada aprovação. Muitas vezes, aquelas grandes expectativas se transformam em uma realidade frustrante, cheia de cobranças e responsabilidades gigantescas, afinal, esses estudantes estão lidando com o fato de assistirem às aulas, fazerem atendimentos, provas e procedimentos e cuidando de outra vida humana.

Além disso, a carga emocional administrada é grande porque esse estudante também está passando por diversas mudanças, como a mudança de cidade (por causa da própria faculdade), a saída da casa dos pais para estudar, a pressão pelo alto desempenho tanto dos familiares (muitos são os primeiros médicos na família) quanto dos próprios colegas de sala.

No decorrer do curso, é possível também vivenciar situações da profissão, principalmente nos últimos anos, com o internato. Nesse período, a carga horária dentro de hospitais aumenta assim como o contato com pacientes e o sofrimento deles com os problemas de saúde. A prova de residência também se aproxima, fazendo com que a ansiedade cresça e as horas de estudo sejam prolongadas. A saúde emocional pode ser assim abalada, já que a vulnerabilidade é maior.

O curso acaba exigindo uma saúde integral do aluno (mental e física) e pode desencadear problemas como a depressão, transtorno bipolar, dependência de álcool e de outras drogas e muita ansiedade.

Temos que ampliar o nosso ouvir para entender melhor as mensagens indiretas e os pedidos de ajuda. Carlos Correia, voluntário no CVV

Depois de formado, as coisas também não são fáceis. A taxa de suicídio entre médicos é 70% maior que na população em geral, segundo dados do Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Fatores que contribuem para esse alto número são o grande estresse profissional, o fato de lidarem com tragédias humanas e o fácil acesso a medicamentos.

Sinais de alerta

Alguns sinais e comportamentos podem indicar se a pessoa está em uma situação limite, como os sintomas depressivos ou mudanças abruptas de comportamento.

É preciso ficar alerta quando a pessoa:

  • Insinua que é um fardo para os demais e que em breve deixará de prejudicar os outros;
  • Relata que a vida não tem sentido de ser vivida e que a sua morte seria um alívio para todos;
  • Tem uma preocupação com o efeito do suicídio sobre os familiares;
  • Verbaliza uma ideação suicida;
  • Prepara um testamento ou uma carta de despedida;
  • Está próxima de uma crise vital (luto; cirurgia iminente);
  • Apresenta pessimismo ou falta global de esperança;
  • Não consegue se recuperar após perdas ou rompimentos em relacionamentos afetivos.

O que as pessoas que estão ao redor podem fazer?

Segundo a Dra. Juliana, deve-se acolher essa pessoa, abordando o tema de forma emocionalmente neutra e pontuando que existem formas de ajudá-la. Algumas perguntas simples podem ajudar a esclarecer se existe uma possível ideia suicida:

  • Tem perdido prazer nas coisas rotineiras, ou perdido sentido da vida?
  • Perdeu a esperança, seria melhor morrer?
  • Sente-se útil?
  • Tem esperança no futuro?
  • Às vezes, pensa em simplesmente sumir?
  • Pensa que é melhor morrer?
  • Quer ser ajudado?

Uma vez identificado, é importante não desqualificar o sofrimento, mantendo uma atitude não crítica e não julgadora. É fundamental orientar sobre as possibilidades de apoio existentes, como os serviços de ajuda. É importante também acionar os familiares dessa pessoa. No caso de risco de suicídio iminente, é necessária uma intervenção imediata buscando um serviço de urgência para uma avaliação melhor.

“90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos, desde que existam condições mínimas para oferta de ajuda voluntária ou profissional”

Mitos e verdades

O estigma é um dos grandes vilões do suicídio. Ele faz com que muitas pessoas não busquem ajuda e não recebam o auxílio adequado.

Algumas posturas e crenças são errôneas e devem ser evitadas. Frases como: “Quem quer se matar se mata mesmo”; “Está ameaçando para manipular”; “Na próxima, faça de verdade”; “Quem se mata é diferente de quem apenas fica tentando”; “Quem quer se matar mesmo, não fica ameaçando”; “Quem já teve várias tentativas não quer morrer mesmo”; entre outras, levam a uma conduta muito equivocada.

Não se deve menosprezar nenhuma tentativa de suicídio. Segundo a Dra. Juliana, de 15% a 25% dos que tentaram suicídio cometem outra tentativa em 1 ano e 10% conseguem se matar em 10 anos. Sabe-se também que 80% das pessoas que tentaram suicídio avisaram de alguma forma sua intenção. Infelizmente, os números têm crescido de forma significativa mundialmente.

Outro mito sobre o suicídio é acreditar que não se deve abordar o tema diretamente. Falar sobre ele não induz ao suicídio. Deve-se questionar, de uma forma neutra e empática (colocando-se no lugar do outro), sobre o pensamento e o planejamento suicida em pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade. Também é importante falar sobre o assunto com a finalidade de educar, prevenir e orientar a população. A educação e a desmistificação do tema são fundamentais para diminuir esse fenômeno.

Por muito tempo não se falou abertamente sobre o suicídio por medo do chamado “Efeito Werther”. Muitos acreditam que falar sobre o assunto poderia inspirar ondas de casos por imitação. O nome desse efeito vem do protagonista do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, publicado em 1774, com a história de um rapaz que tira a própria vida após uma desilusão amorosa e cujo exemplo teria causado outros suicídios de jovens.

Algumas iniciativas para combater o suicídio

Na Unifesp, há um trabalho bastante interessante do Núcleo de Apoio aos Estudantes para tentar identificar os alunos que estão em situação de maior vulnerabilidade. A Dra. Juliana trabalha como médica psiquiatra na triagem e atendimentos dessas pessoas. No NAE, são realizadas diversas intervenções (como acompanhamento psicológico e psiquiátrico) com o propósito de impedir que possíveis alterações psíquicas levem a algum comprometimento do aluno. O serviço também tem feito, junto a vários departamentos da Unifesp, encontros e eventos para promover uma psicoeducação aos graduandos da universidade: são feitas palestras sobre a qualidade de vida ao longo da graduação, sobre o que são as doenças mentais e quais suas relações com o suicídio. Mostram-se também dados epidemiológicos sobre o suicídio, sobre os recursos disponíveis que o aluno tem dentro da universidade (para buscar ajuda se necessário), entre outros. Trata-se de um núcleo com a finalidade de educar e assistir o aluno que apresenta alguma demanda em relação à sua saúde mental.

A fraternidade é a vacina para tudo. Se a gente conseguisse ser mais fraterno e aprendesse a ouvir e respeitar o outro, as coisas poderiam ser diferentes. Carlos Correia, voluntário no CVV

Outra iniciativa é o projeto da Dra. Natália Cruz Rufino, médica psiquiatra vinculada ao Cria-Unifesp (Centro de Referência da Infância e da Adolescência), que avalia os fatores de risco e proteção para tentativa de suicídio na adolescência e suas implicações na aderência ao tratamento.

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo lançou uma cartilha sobre Saúde Mental voltada para médicos jovens e estudantes de Medicina. A ideia é que isso ajude a identificar, acompanhar e dar suporte aos transtornos mentais de uma forma mais precoce para prevenir o suicídio na área médica.

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/especial-publicitario/quero-bolsa/bolsas-de-estudo/noticia/2018/08/22/medicina-por-que-o-suicidio-nesse-curso-e-tao-comum.ghtml

Walter Gonçalves

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