junho 2019 – Página: 3 – Widoctor

Archive junho 2019

Geriatria

Pergunta : Marco Antonio (Universidade de Santo Amaro)
Dr, estou trabalhando ha algum tempo em PSFe PS antes de começar a residência. Já decidi que quero alguma clínica e que meu perfil é de consultório. Minha duvida é em relação a inserção no mercado. Tenho interesse em Geriatria, porem na cidade onde vivo, a maioria das “portas” de hospitais já estão fechadas, bem como dos convênios. É possível um geriatra ou cardiologista sobreviver no mercado, sem ter a retaguarda de um hospital? É possível ser um lobo solitário nessas especialidades?

Resposta :

A residência médica é fundamental na formação do profissional e por isso tenha cuidado para não se acostumar com plantões e remunerações nessa sua fase de vida profissional e acabar não priorizando a residência.

Se você gosta e estaria decidido pela geriatria, não deve fugir da competição; pois com maior ou menor dificuldade vc estará conseguindo se inserir no mercado. Além disso a geriatria tem uma tendência grande de aumento da clientela com o aumento da expectativa de vida da população.

Fazer uma boa formação profissional, engrossar o currículo e fazer um bom marketing vai te mostrar o caminho do sucesso.

Sucesso

Mário Novais

.

Coordenação Médica

Pergunta : Rodrigo (Unifacs – Universidade Salvador)
Olá gostaria de saber como é a rotina de um coordenador de residência em clínica médica e qual a remuneração de um coordenador ?

Resposta:

Esse tipo de remuneração vai depender muito da Instituição onde a residência esteja funcionando, além de características do serviço, número de residentes, especialidade, cidade onde está , se é um hospital universitário ou se é um hospital assistencial com residência médica, se vai estar envolvido com pesquisa…

Se for um hospital universitário ou da rede publica, de um modo geral, deverá passar por um concurso ( salário médio de R$ 6.000,00 por 40 h semanais, das quais 20 % podem ser destinadas  a pesquisas e 20 % destinadas a preparo de aulas ).

Se for uma universidade particular, tudo vai depender da negociação e do seu currículo, tipo ter mestrado ou doutorado.

Sucesso

Mário Novais

Potencial biomarcador para ideação suicida identificado em pacientes com transtorno de estresse pós-traumático

Potencial biomarcador para ideação suicida identificado em pacientes com transtorno de estresse pós-traumático

transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é um importante fator de risco para ideação suicida, tentativas e morte por suicídio. A compreensão da biologia subjacente à tendência suicida no TEPT é limitada. Evidências recentes implicam desregulação do receptor glutamatérgico metabotrópico 5 (mGluR5) na fisiopatologia do TEPT e na probabilidade de suicídio.

Neste estudo, publicado pelo periódico PNAS, pesquisadores da Yale University School of Medicine usaram a tomografia por emissão de pósitrons e o radiofármaco [18F]-FDG (fluorodesoxiglucose) para avaliar o receptor metabotrópico de glutamato tipo 5 (mGluR5) como um alvo potencial de tratamento e um biomarcador de ideação suicida (IS) em indivíduos com TEPT e transtorno depressivo maior (TDM).

Quantificou-se a disponibilidade de mGluR5 in vivo em indivíduos com TEPT (n = 29) e TDM (n = 29) em função da ideação suicida (IS) para comparar com controles saudáveis (CS; n = 29). O volume de distribuição foi calculado usando uma função de entrada venosa nas cinco principais regiões cerebrais frontal e límbica.

Observou-se uma disponibilidade significativamente maior de mGluR5 no TEPT em comparação com indivíduos saudáveis em todas as regiões de interesse (P = 0,001 a 0,01) e comparado a indivíduos com TDM em três regiões (P = 0,007). A disponibilidade de mGluR5 não foi significativamente diferente entre os indivíduos com TDM e CS (P = 0,17). É importante ressaltar que foi observada uma regulação para cima na disponibilidade de mGluR5 no grupo TEPT-IS (P’s = 0,001-0,007) em comparação com indivíduos com TEPT sem IS.

Os resultados apontam para o papel potencial do mGluR5 como um biomarcador para intervenção e, potencialmente, para o gerenciamento do risco de suicídio no TEPT.

Original: https://www.news.med.br/p/medical-journal/1338453/pnas+potencial+biomarcador+para+ideacao+suicida+identificado+em+pacientes+com+transtorno+de+estresse+pos+traumatico.htm

Até quando você vai dar plantão?

Até quando você vai dar plantão?

Por Fernando Carbonieri

Pode assustar um pouco essa pergunta. Entramos na medicina ou em qualquer outra profissão da saúde com o intuito de salvar vidas. A nossa atividade na porta do pronto socorro aparenta ser a mais louvável e a mais determinante no processo de salvar a vida do próximo que precisa de nossa assistência nos momentos mais difíceis das vidas de nossos pacientes ou dos seus familiares.

A medicina é banhada por uma áurea de sacerdotismo e renúncia. Isso posiciona o médico como uma pessoa que não pode fazer nada fora do que é esperado dele. Deixar de atuar na assistência, no sobreaviso noturno, na porta do pronto socorro ou até mesmo desligar o WhatsApp com o intuito de dormir uma noite tranquila pode ser mau visto pelas pessoas que não fazem ideia o quanto é complicado ser médico 24h, 7 dias por semana, 365 dias por ano.

Só quem tem uma prática de pronto socorro, sem horas de descanso, lotado de pacientes doentes (e muitos sem doença alguma), que reclamam com razão do atendimento ou da demora pelo atendimento, durante noites que irão se juntar ao dia de consultório, ou ainda, quem tem a prática de precisar negociar os seus ganhos e necessidades mínimas frente ao próximo plantão ruim sabe do que falarei a seguir.

A pergunta “até quando você vai dar plantão?” é muito válida.

Trabalhamos em diversos lugares ruins, inseguros financeiramente devido aos atrasos e calotes, sem estrutura mínima adequada para dar o suporte ao paciente, negociando muitas vezes o nosso crm porque simplesmente precisamos trabalhar para pagar as nossas contas.

Mais do que isso. Você que faz plantão hoje:

Quantas foram as vezes que você dividiu um plantão com aquele colega que já teve uma vida tranquila mas precisou voltar a dar plantão porque ele não se planejou adequadamente nos momentos de vida que foi mais produtivos?

Quantas vezes você já fez plantão com um colega que devia estar independente financeiramente, aposentado ou ainda praticando a medicina porque gosta, e não porque precisa do dinheiro que aquele plantão irá prover em 2 ou 3 meses após a sua realização?

Temos 30 anos extremamente produtivos em nossa profissão. Ganhamos muito dinheiro nesse caminho, com toda certeza muito acima dos outros profissionais. Obviamente os ganhos já foram muitos melhores no passado. Um passado que infelizmente não vai voltar a existir.

Passou o tempo que poderíamos trilhar todo o nosso caminho profissional sem nem pensar no quanto ganhamos por mês e nem o quanto gastamos. Sobrava dinheiro. Ouço diariamente a consternação:

“Eu trabalho para caramba, ganho os X mil reais por mês e não sobra nada”.

Sete anos a frente da Academia Médica no intuito de falar o que a faculdade esqueceu de contar e posso dizer: ouvi muita gente falando que está devendo e não sabe por onde começar para resolver seus problemas.

Normalmente a primeira solução é a mesma: VOU PEGAR MAIS DOIS PLANTÕES POR MÊS PARA SAIR DISSO.

O médico fazia isso porque podia, mas hoje temos algo que não tínhamos: CONCORRÊNCIA.

O cenário não é nada bom mesmo. O mercado está inchando rapidamente com o excesso de formandos por ano e a forma de entregar saúde muda rapidamente. Frente a tantas mudanças, o que fazer?

Inovar, especializar-se, procurar um bom campo de trabalho? Óbvio que sim, mas tem algo muito mais efetivo que isso. Não é óbvio, mas é a coisa mais efetiva que você pode fazer por você.

Aprenda a cuidar do seu enriquecimento!

Quando foi que alguém ensinou algo a você sobre dinheiro? Sobre empreendedorismo? Sobre ser o real dono daquilo que você suou tanto para ganha?

Muitos torcem o nariz quando falo que é obrigação do médico ser rico. E por que falo isso? Porque o médico que não tem problemas financeiros pode ser o melhor médico que ele almeja ser.

Um médico sem dívidas, que prevê o quanto vai sobrar no fim do mês, que investe seu dinheiro para ganhar mesmo sem precisar trabalhar mais, ou negociar o seu tempo em busca de mais mil e poucos reais para complementar a renda do mês, é uma pessoa que tem tempo para viver o melhor de sua profissão, de sua vida pessoal e de seu aperfeiçoamento científico.

Já falamos muito sobre o tema dinheiro aqui na academia.

Dr. Francinaldo Gomes é um neurocirurgião que virou referência na medicina por ajudar colegas médicos a se educarem sobre finanças pessoais e investimentos. Em seus cursos em todos os estados do país, ele já ajudou a mais de 1300 médicos a terem um divisor de águas em suas vidas para poderem viver da melhor forma que desejam, sem abdicar daquilo que nasceram e treinaram muito para fazer.

Texto na íntegra:

https://academiamedica.com.br/blog/ate-quando-voce-vai-fazer-plantao

Machine Learning genético e seu inovador uso para previsão de doenças

Machine Learning genético e seu inovador uso para previsão de doenças

A avaliação direta da patogenicidade de combinações variantes em múltiplos genes era até agora difícil. No entanto, este tipo de avaliação pode fornecer importantes benefícios na identificação das causas genéticas das doenças raras.

O trabalho apresentado em artigo publicado pela PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America), publicado em 24 de maio de 2019, tem como objetivo resolver este problema.

Nesse trabalho é desenvolvido um método de “machine learning”, ou seja, uma inteligência artificial capaz de reconhecer padrões e aprender com eles, afim de prever a patogenicidade de combinações variantes em pares de genes, com base em dados patogênicos.

Foi demonstrada alta precisão desse método e sua capacidade efetiva de identificar novas instâncias, sendo explicado não somente o diagnostico final, mas também o processo de tomada de decisão do programa, sendo assim uma contribuição útil para a interpretação clínica. Este trabalho pioneiro servirá como mecanismo de ajuda para geneticistas e clínicos a aconselhar seus pacientes de forma mais eficaz.

O programa recebeu o nome de Variant Combinations Pathogenicity Predictor (VarCoPP), e seu mecanismo de ação consiste basicamente numa abordagem de aprendizado que identifica combinações de variantes patogênicas em pares de genes (chamados de combinações de variantes digênica ou bilocus). Esse método inovador, segundo o artigo, obteve resultados altamente precisos, atingindo uma eficácia que é endossada ao validar o método em dados independentes que causam doenças publicados recentemente. São identificados rótulos de confiança de 95% e 99%, representando a probabilidade de uma combinação bilocus ser um verdadeiro resultado patogênico, fornecendo aos geneticistas marcadores racionais para avaliar as combinações patogênicas mais relevantes e limitar o espaço e o tempo de busca.

Este trabalho fornece um passo importante para o entendimento genético de doenças raras, abrindo caminho para o conhecimento clínico e melhor atendimento ao paciente.

Fonte: https://www.pnas.org/content/early/2019/05/23/1815601116

Endocrino, Cardio, Nefro ou Pneumologia

Pergunta : Caroline ( Hospital São Lucas – RS )
Olá! Tenho 23 anos e estou no primeiro ano de residência em Clínica Médica. Sempre tive interesse nas áreas de endocrinologia, nefrologia e cardiologia. Porém, durante a residência passei a me interessar também pela área de pneumologia. Gostaria de saber qual a sua opinião sobre o mercado de trabalho nessa área, principalmente em comparação às demais especialidades clínicas citadas. Obrigada!

Resposta :

Uma vez que vc já se decidiu por uma área clínica, o ideal em termos de escolha da subespecialidade é que vc deixe para pensar nisso quando estiver terminando a sua residência de clínica médica. Até lá vc vai ter mais oportunidades de lidar com os diferentes tipos de pacientes e tipos de patologias e poderá fazer uma escolha mais racional.

Mais algumas informações sobre essas especialidades poderão ser úteis :

A endocrinologia é uma excelente especialidade, principalmente pelo aumento absurdo dos níveis de obesidade em todo o mundo e pela importância que se tem dado ao culto ao corpo. Além disso, são muito frequentes  as doenças da tireóide e os distúrbios hormonais ( menopausa e andropausa )em uma população que está nitidamente envelhecendo.
A endócrino também é uma boa especialidade porque além de permitir uma boa qualidade de vida e possibilitar uma boa remuneração, apesar de não permitir procedimentos e cirurgias que agreguem valor à consulta, é uma especialidade de boca-a-boca rápido na clientela e uma das poucas que permite ao profissional ser independente de convênios já que a clientela cresce rapidamente, principalmente em função da preocupação atual e futura com a obesidade e do aumento da expectativa de vida da população com consequente maior aparecimento de distúrbios da tireóide, do diabetes e alterações hormonais (menopausa e andropausa )
Cobrando, inicialmente, R$ 300,00 a consulta e realizando apenas 5 consultas por dia , o endocrinologista  pode ter no final do mês honorários acima de R$ 30.000,00.

Cardiologia :
Embora existam procedimentos diagnósticos que possam melhorar o rendimento do cardiologista, os planos de saúde não permitem que esse profissional realize esses exames no próprio consultório (apenas permitem o ECG, pagando cerca de R$15,00), assim é interessante para o cardiologista aprender a realizar esses exames ( tipo ecografia ), mas terá que fazê-los em alguma outra clínica especializada nesses tipos de procedimentos diagnósticos.
Uma área interessante de trabalho para o Cardiologista é a terapia intensiva (é necessário se especializar nisso após a residência de cárdio), onde um plantonista ganha de 8.000,00 a 10.000,00 por mês trabalhando um plantão de 24 h semanal-estes valores variam conforme o Estado.
Posteriormente, o plantonista de UTI pode passar a exercer a chefia do serviço, com um salário entre 12.000,00 e 20.000,00.
Embora a clientela particular de consultório demore a aumentar, se o cardiologista atender apenas 4 pacientes particulares por dia, cobrando 300,00 a consulta e trabalhando no consultório apenas 4 dias da semana, somente de pacientes particulares ele vai gerar um faturamento mensal de R$ 19.200,00, fora os ecg que fizer.

Nefrologia :
A nefrologia tem seu campo de atuação diminuído pelo fato da população não saber exatamente o papel do nefrologista ( na maioria das vezes, o paciente prefere procurar um urologista do que um nefrologista, quando tem um cálculo renal, por exemplo).
Assim, o nefrologista tem seu mercado de trabalho mais restrito aos serviços de diálise e talvez no futuro ao acompanhamento clinico de transplantes (área ainda pouco desenvolvida no Brasil).

A Pneumologia pode ser considerada uma boa especialidade, embora ainda haja um pouco de falta de conhecimento da população que imagina que pneumologistas atendam apenas casos de tuberculose.

Alguns fatores permitem um aumento da clientela do pneumologista, como: a grande utilização de tabaco, pneumonias secundárias em pacientes soropositivos, a maior importância à prevenção e ao diagnóstico precoce do CA pulmonar, o envelhecimento da população com consequente maior número de pacientes com enfisema e DPOC e ainda a poluição de grandes centros gerando mais casos de bronquites.

A qualidade de vida desse especialista é boa na maioria das vezes, embora existam algumas situações de emergência para esse profissional.

Na Pneumo existem ainda vários procedimentos que agregam valor ao preço das consultas, como provas de função respiratória, biópsias pulmonares e principalmente as endoscopias.

O profissional dessa área pode ainda se envolver no condicionamento cardiopulmonar de atletas ou no diagnóstico e tratamento de pacientes portadores de alergias respiratória.

Conclusão : Gostar de mais de um especialidade é absolutamente normal, porém precisa escolher apenas uma e quanto maior for o seu conhecimento sobre como será seu dia  a dia na especialidade, maior será a sua chance de estar feliz com a escolha.

Considerando qualidade de vida, mercado de trabalho e remuneração, das especialidades apontadas por vc, a mais interessante seria a endocrinologia, mas vc precisa analisar em que situação futura vc se sentiria mais confortável com os tipos de patologias com as quais vai lidar.

Sucesso

Mário Novais

 

Antidepressivos na geladeira? Ciência estuda como dieta afeta a saúde mental

Antidepressivos na geladeira? Ciência estuda como dieta afeta a saúde mental

Recostado no divã, um homem qualquer descreve um sentimento de ansiedade que o oprime todos os dias. Ele o descreve como se fosse um convidado faminto que não quer ir embora, uma visita indesejada que o obriga a colocar mais e mais aperitivos sobre a mesa, e não é só uma metáfora. Também fala de outros assuntos e relata estados passageiros de tristeza que não pode explicar facilmente. De repente, o psiquiatra tira os óculos, os coloca lentamente sobre a mesinha ao lado e faz uma estranha pergunta a seu paciente… “O que tem dentro de sua geladeira?”, diz. O olhar do homem revela um compreensível estranhamento diante do rumo do interrogatório, mas a questão da qualidade nutricional dos alimentos parece não ser insignificante no que se refere à saúde mental.

Há décadas que os cientistas conhecem os benefícios que uma dieta e nutrição adequadas têm no desenvolvimento das doenças cardiovasculares, digestivas e endócrinas. E não só os médicos são conscientes de que a saúde entra pela boca; a informação dirigida aos mortais comuns para cuidar de sua dieta é tudo, menos escassa. A situação é muito diferente no campo da psiquiatria, ainda que nos últimos anos um número crescente de pesquisas mostra que a alimentação não só tem um papel crucial em nossa saúde física como também na mental. Se levarmos em consideração que a depressão é uma das doenças que se relacionam com a qualidade nutricional da dieta, a ideia de que a felicidade está no prato não é tão disparatada.

Inflamação, um nexo de união entre dieta e doença

É óbvio que as emoções e a comida estão relacionadas; todos nós já fomos fortemente impelidos à geladeira em momentos de ansiedade, e a terapia para superar os momentos de tristeza à base de sorvete é um clássico nos filmes que giram em torno às decepções amorosas. As evidências são muito mais esquivas em uma ótica empírica, mas a comunidade científica começou a se perguntar por que a doença mental também não é tratada da perspectiva nutricional, e os especialistas encontraram um paradoxo muito interessante.

“As doenças psiquiátricas, como a depressão e a esquizofrenia, não são muito diferentes da diabetes se olharmos as mudanças que ocorrem no organismo a um nível molecular. As pessoas com diabetes e com depressão se encontram em um estado de inflamação sistêmica leve, mas crônica”, diz o professor de psiquiatria e psicologia médica da Universidade de Valência e membro do comitê executivo da Sociedade Internacional para a Pesquisa em Psiquiatria Nutricional Vicent Balanzá. “Assumindo isso, as intervenções com dieta e nutrição podem ser eficazes para corrigir a inflamação também nas doenças psiquiátricas e, em geral, para melhorar o prognóstico das pessoas que as sofrem. No final das contas, a divisão entre cérebro-mente e corpo não tem fundamento científico”, acrescenta o também pesquisador do Centro de Pesquisa Biomédica em Rede de Saúde Mental.

Por isso médicos e pesquisadores de todo o mundo começaram a trabalhar sinergicamente para averiguar mais sobre as relações entre os nutrientes e a mente e englobaram o conhecimento adquirido sobre o termo de psiquiatria nutricional. Um dos maiores expoentes da disciplina emergente, o agricultor e psiquiatra da Universidade Columbia, em Nova York (EUA), Drew Ramsey, defende que uma dieta deficiente é um dos maiores fatores que contribuem à depressão. Nesse sentido, uma das metanálises mais recentes publicadas sobre os efeitos da nutrição na saúde mental, da qual participaram cientistas do mundo todo (incluindo dois grupos de pesquisa espanhóis), descobriu que “manter uma dieta saudável, em particular uma dieta mediterrânea tradicional, e evitar uma dieta proinflamatória parece dar certa proteção contra a depressão em estudos observacionais. Isso proporciona uma base de evidência razoável para avaliar o papel das intervenções dietéticas para prevenir a depressão”, diz o texto.

“O crescente campo da psiquiatria nutricional evidencia muitas consequências e correlações entre o que comemos com a forma como nos sentimos e como nos comportamos. É um assunto que ganha cada vez mais força”, diz a psiquiatra especialista em transtorno de vícios e medicina legal Paula Vernimmen. Mas podemos melhorar nossa saúde mental mudando nossa alimentação? Existem alimentos que nos fazem felizes e vice-versa?

Não procure um alimento milagroso, o importante é a dieta

Balanzá alerta que a relação entre os nutrientes e a depressão é muito complexa, e que não é tão direta como pode parecer. Entre outras coisas, porque no desenvolvimento da doença mental há a intervenção de numerosos fatores além desse. “Por exemplo, as diferenças genéticas entre os indivíduos que fazem com que os déficits nutricionais repercutam mais ou menos no risco de se adoecer. E nos últimos anos aprendemos que o mais relevante à saúde mental é o padrão dietético, a dieta, mais do que um alimento e um nutriente concretos. O que importa ao nosso cérebro é a diversidade e a harmonia entre eles. A dieta é como uma orquestra que pode emitir uma linda música, a saúde, se a cultivarmos”, diz o pesquisador.

E se a mediterrânea pode ter efeitos terapêuticos sobre a depressão, uma dieta inadequada poderia piorar seus sintomas? A resposta é sim, especialmente no caso das “dietas hipercalóricas, mas pobres em nutrientes, baseadas em produtos ultraprocessados e comida rápida”, confirma Balanzá. Uma dieta saudável, como a mediterrânea, “traz nutrientes fundamentais para o cérebro, como diversos minerais, vitaminas, aminoácidos essenciais e ácidos graxos essenciais. São importantes porque têm efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e neuroprotetores, que ajudam a combater melhor as consequências negativas do estresse. Mas a carência de nutrientes essenciais tem repercussões ao cérebro das pessoas em geral. Assim, o déficit de algumas vitaminas, como o folato e a vitamina B12, se relaciona com um estado de ânimo depressivo e com a deterioração cognitiva”, diz o especialista.

De fato, em um trabalho de 2015 publicado na BMC Medicine os cientistas observaram que uma ingestão menor de alimentos densos em nutrientes e uma maior de comida pouco saudável se associa a um menor volume do hipocampo esquerdo. “Essa foi a primeira demonstração em humanos de que a qualidade da dieta pode repercutir em estruturas cerebrais”, afirma Balanzá.

Diminuir o risco de depressão em até 35%

De acordo com a doutora Vernimmen, esse campo de pesquisa está proporcionando descobertas satisfatórias. Por exemplo, se sabe que “as pessoas que seguem dietas ricas em verduras, frutas, grãos sem processar, peixes e mariscos, que contêm poucas quantidades de carnes magras e laticínios, têm risco de depressão de 25% a 35% mais baixo. Além disso, uma má hidratação, o consumo de álcool, de cafeína e o hábito de fumar podem precipitar e estimular os sintomas de ansiedade”. A especialista acrescenta que os picos altos de açúcar “podem imitar de uma crise de ansiedade a um ataque de pânico”. Por último, “os períodos prolongados de jejum, em que são gerados estados hipoglicemiantes — caracterizados pela diminuição dos níveis de açúcar no sangue —, podem simular sintomas de depressão”.

Mas ainda que todas essas descobertas sejam, sem dúvida, emocionantes, é preciso lidar com elas com rigor acadêmico como o demonstrado por Balanzá, que vê essa nova tendência com otimismo moderado. “Não é suficiente pressupor que as vitaminas e os probióticos favorecem a saúde mental porque são naturais e saudáveis. Nos testes clínicos é preciso exigir o mesmo rigor metodológico que se pede aos remédios. Uma mensagem importantíssima à população é que melhorar a dieta por si só não irá curar os transtornos mentais e saber isso é vacinar-se contra as promessas dos charlatões e as pseudociências”.

Logo saberemos mais. Desde 2013 um grupo de 300 profissionais psiquiatras, epidemiologistas, nutricionistas, dietistas, psicólogos e pesquisadores básicos se reúnem anualmente para gerar e difundir conhecimento científico. Nesse ano o farão em Londres para falar, justamente, de psiquiatria nutricional. Será uma boa oportunidade para ver em que ponto está essa disciplina que já está ocupando espaços e gerando uma nova narrativa sobre a saúde mental.

 

Fonte:

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/27/ciencia/1558955754_406033.html