Psiquiatria – Widoctor

Antidepressivos na geladeira? Ciência estuda como dieta afeta a saúde mental

Antidepressivos na geladeira? Ciência estuda como dieta afeta a saúde mental

Recostado no divã, um homem qualquer descreve um sentimento de ansiedade que o oprime todos os dias. Ele o descreve como se fosse um convidado faminto que não quer ir embora, uma visita indesejada que o obriga a colocar mais e mais aperitivos sobre a mesa, e não é só uma metáfora. Também fala de outros assuntos e relata estados passageiros de tristeza que não pode explicar facilmente. De repente, o psiquiatra tira os óculos, os coloca lentamente sobre a mesinha ao lado e faz uma estranha pergunta a seu paciente… “O que tem dentro de sua geladeira?”, diz. O olhar do homem revela um compreensível estranhamento diante do rumo do interrogatório, mas a questão da qualidade nutricional dos alimentos parece não ser insignificante no que se refere à saúde mental.

Há décadas que os cientistas conhecem os benefícios que uma dieta e nutrição adequadas têm no desenvolvimento das doenças cardiovasculares, digestivas e endócrinas. E não só os médicos são conscientes de que a saúde entra pela boca; a informação dirigida aos mortais comuns para cuidar de sua dieta é tudo, menos escassa. A situação é muito diferente no campo da psiquiatria, ainda que nos últimos anos um número crescente de pesquisas mostra que a alimentação não só tem um papel crucial em nossa saúde física como também na mental. Se levarmos em consideração que a depressão é uma das doenças que se relacionam com a qualidade nutricional da dieta, a ideia de que a felicidade está no prato não é tão disparatada.

Inflamação, um nexo de união entre dieta e doença

É óbvio que as emoções e a comida estão relacionadas; todos nós já fomos fortemente impelidos à geladeira em momentos de ansiedade, e a terapia para superar os momentos de tristeza à base de sorvete é um clássico nos filmes que giram em torno às decepções amorosas. As evidências são muito mais esquivas em uma ótica empírica, mas a comunidade científica começou a se perguntar por que a doença mental também não é tratada da perspectiva nutricional, e os especialistas encontraram um paradoxo muito interessante.

“As doenças psiquiátricas, como a depressão e a esquizofrenia, não são muito diferentes da diabetes se olharmos as mudanças que ocorrem no organismo a um nível molecular. As pessoas com diabetes e com depressão se encontram em um estado de inflamação sistêmica leve, mas crônica”, diz o professor de psiquiatria e psicologia médica da Universidade de Valência e membro do comitê executivo da Sociedade Internacional para a Pesquisa em Psiquiatria Nutricional Vicent Balanzá. “Assumindo isso, as intervenções com dieta e nutrição podem ser eficazes para corrigir a inflamação também nas doenças psiquiátricas e, em geral, para melhorar o prognóstico das pessoas que as sofrem. No final das contas, a divisão entre cérebro-mente e corpo não tem fundamento científico”, acrescenta o também pesquisador do Centro de Pesquisa Biomédica em Rede de Saúde Mental.

Por isso médicos e pesquisadores de todo o mundo começaram a trabalhar sinergicamente para averiguar mais sobre as relações entre os nutrientes e a mente e englobaram o conhecimento adquirido sobre o termo de psiquiatria nutricional. Um dos maiores expoentes da disciplina emergente, o agricultor e psiquiatra da Universidade Columbia, em Nova York (EUA), Drew Ramsey, defende que uma dieta deficiente é um dos maiores fatores que contribuem à depressão. Nesse sentido, uma das metanálises mais recentes publicadas sobre os efeitos da nutrição na saúde mental, da qual participaram cientistas do mundo todo (incluindo dois grupos de pesquisa espanhóis), descobriu que “manter uma dieta saudável, em particular uma dieta mediterrânea tradicional, e evitar uma dieta proinflamatória parece dar certa proteção contra a depressão em estudos observacionais. Isso proporciona uma base de evidência razoável para avaliar o papel das intervenções dietéticas para prevenir a depressão”, diz o texto.

“O crescente campo da psiquiatria nutricional evidencia muitas consequências e correlações entre o que comemos com a forma como nos sentimos e como nos comportamos. É um assunto que ganha cada vez mais força”, diz a psiquiatra especialista em transtorno de vícios e medicina legal Paula Vernimmen. Mas podemos melhorar nossa saúde mental mudando nossa alimentação? Existem alimentos que nos fazem felizes e vice-versa?

Não procure um alimento milagroso, o importante é a dieta

Balanzá alerta que a relação entre os nutrientes e a depressão é muito complexa, e que não é tão direta como pode parecer. Entre outras coisas, porque no desenvolvimento da doença mental há a intervenção de numerosos fatores além desse. “Por exemplo, as diferenças genéticas entre os indivíduos que fazem com que os déficits nutricionais repercutam mais ou menos no risco de se adoecer. E nos últimos anos aprendemos que o mais relevante à saúde mental é o padrão dietético, a dieta, mais do que um alimento e um nutriente concretos. O que importa ao nosso cérebro é a diversidade e a harmonia entre eles. A dieta é como uma orquestra que pode emitir uma linda música, a saúde, se a cultivarmos”, diz o pesquisador.

E se a mediterrânea pode ter efeitos terapêuticos sobre a depressão, uma dieta inadequada poderia piorar seus sintomas? A resposta é sim, especialmente no caso das “dietas hipercalóricas, mas pobres em nutrientes, baseadas em produtos ultraprocessados e comida rápida”, confirma Balanzá. Uma dieta saudável, como a mediterrânea, “traz nutrientes fundamentais para o cérebro, como diversos minerais, vitaminas, aminoácidos essenciais e ácidos graxos essenciais. São importantes porque têm efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e neuroprotetores, que ajudam a combater melhor as consequências negativas do estresse. Mas a carência de nutrientes essenciais tem repercussões ao cérebro das pessoas em geral. Assim, o déficit de algumas vitaminas, como o folato e a vitamina B12, se relaciona com um estado de ânimo depressivo e com a deterioração cognitiva”, diz o especialista.

De fato, em um trabalho de 2015 publicado na BMC Medicine os cientistas observaram que uma ingestão menor de alimentos densos em nutrientes e uma maior de comida pouco saudável se associa a um menor volume do hipocampo esquerdo. “Essa foi a primeira demonstração em humanos de que a qualidade da dieta pode repercutir em estruturas cerebrais”, afirma Balanzá.

Diminuir o risco de depressão em até 35%

De acordo com a doutora Vernimmen, esse campo de pesquisa está proporcionando descobertas satisfatórias. Por exemplo, se sabe que “as pessoas que seguem dietas ricas em verduras, frutas, grãos sem processar, peixes e mariscos, que contêm poucas quantidades de carnes magras e laticínios, têm risco de depressão de 25% a 35% mais baixo. Além disso, uma má hidratação, o consumo de álcool, de cafeína e o hábito de fumar podem precipitar e estimular os sintomas de ansiedade”. A especialista acrescenta que os picos altos de açúcar “podem imitar de uma crise de ansiedade a um ataque de pânico”. Por último, “os períodos prolongados de jejum, em que são gerados estados hipoglicemiantes — caracterizados pela diminuição dos níveis de açúcar no sangue —, podem simular sintomas de depressão”.

Mas ainda que todas essas descobertas sejam, sem dúvida, emocionantes, é preciso lidar com elas com rigor acadêmico como o demonstrado por Balanzá, que vê essa nova tendência com otimismo moderado. “Não é suficiente pressupor que as vitaminas e os probióticos favorecem a saúde mental porque são naturais e saudáveis. Nos testes clínicos é preciso exigir o mesmo rigor metodológico que se pede aos remédios. Uma mensagem importantíssima à população é que melhorar a dieta por si só não irá curar os transtornos mentais e saber isso é vacinar-se contra as promessas dos charlatões e as pseudociências”.

Logo saberemos mais. Desde 2013 um grupo de 300 profissionais psiquiatras, epidemiologistas, nutricionistas, dietistas, psicólogos e pesquisadores básicos se reúnem anualmente para gerar e difundir conhecimento científico. Nesse ano o farão em Londres para falar, justamente, de psiquiatria nutricional. Será uma boa oportunidade para ver em que ponto está essa disciplina que já está ocupando espaços e gerando uma nova narrativa sobre a saúde mental.

 

Fonte:

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/27/ciencia/1558955754_406033.html

O Programa de Volta Para Casa e a reintegração social de pacientes acometidos por transtornos mentais

O Programa de Volta Para Casa (PVC), instituído pelo Ministério da Saúde, regulamenta a distribuição de um auxílio reabilitação e assistência psicossocial, fora do ambiente hospitalar, para pessoas usuárias do serviço de saúde mental com histórico de internações psiquiátricas. A medida busca assegurar o bem estar global e estimular o exercício pleno dos direitos civis, políticos e de cidadania dessas pessoas, além de endossar o projeto de desinstitucionalização na reforma psiquiátrica brasileira.

Na construção desse projeto foi disposto na Lei 10.216 de 2001 a proteção dos direitos desses pacientes, determinando que pacientes há longo tempo hospitalizados ou que se encontrem em situação de grave dependência institucional sejam alvo de políticas publicas específicas, contemplando altas planejadas e a reabilitação psicossocial assistida. Posteriormente em 2003 com a Lei 10.708 o PVC foi fundado, fortalecendo esse ideal na medida em que cria amparo social para um segmento da população brasileira extremamente desprovido de suporte social e proteção.

O programa estipula o pagamento mensal de um auxilio reabilitação, diretamente para o paciente, no valor de R$ 412,00, por um período de um ano, podendo ser renovado quando necessário aos propósitos da reintegração social. Além disso, o beneficiário deve estar de alta hospitalar, sendo atendido por um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou outro serviço de saúde do município. Essas pessoas deverão ser acompanhadas por uma equipe de profissionais encarregada de prover e garantir a atenção psicossocial e apoiá-lo em sua integração ao ambiente familiar e social. Podem se beneficiar indivíduos: egressos de internação em hospitais psiquiátricos ou Hospitais de Custódia por período igual ou superior a dois anos ininterruptos, desde que ligados ao SUS; que a situação clínica e social não justifique a permanência em ambiente hospitalar e que haja expresso consentimento do paciente ou do representante legal em se submeter às regras do programa. Os municípios deverão aderir formalmente ao PVC através de Termo de Adesão e habilitação através de portaria do Ministério da Saúde e serem responsáveis pela atenção integral em saúde e assegurar a continuidade de cuidados em saúde mental, em programas extra-hospitalares, para os beneficiários do programa. O benefício pode ser destinado tanto a pessoas que retornem ao convívio familiar, quanto àquelas que não podem ou não desejam morar com o núcleo familiar original, como as que vivem em outras formas de moradia, tais como os Serviços Residenciais Terapêuticos – SRT (Portaria nº 106 de 11/02/2000), que são casas inseridas na comunidade, destinadas a cuidar dos portadores de transtornos mentais.

O Ministério da Saúde estima que há cerca de 15.000 usuários do SUS que contemplam os requisitos necessários para aderir ao auxílio. Em 2017 foram totalizados 4.499 beneficiários ativos, distribuídos em 701 municípios habilitados. A necessidade de expansão do PVC contempla a portaria 3.088 de 2011, que estabelece a Rede de Atenção Psicossocial. Na qual o programa é incluído nas estratégias de desinstitucionalização.

Franco Basaglia, psiquiatra italiano vanguardista na reforma da saúde mental italiana, chama a atenção para a necessidade de realizações de ações de desinstitucionalização daqueles que estão há muito tempo asilados. Segundo Basaglia tal processo produz transformações no campo do saber e das instituições, não se restringindo à reestruturação técnica dos serviços ou de terapêuticas modernas. Essa concepção de desinstitucionalização difere da de desospitalização, uma vez que não se restringe à mera saída da pessoa com transtorno mental da instituição psiquiátrica.

O sociólogo norte-americano Erving Goffman também esclarece que, se o período de internação é muito longo, quando o sujeito retornar para o mundo exterior, poderá estar temporariamente incapaz de enfrentar alguns aspectos de sua vida diária. Nesse âmbito o PVC contribui efetivamente para o processo de inserção social dessas pessoas, incentivando a organização de uma rede ampla e diversificada de recursos assistenciais e de cuidados, facilitadora do convívio social. A reabilitação psicossocial é definida pelo psicanalista Fernando Tenório como ferramenta que visa permitir ao paciente “alcançar seu nível ótimo de funcionamento independente na comunidade”, a melhoria da “competência individual”, as “habilidades sociais individuais”, a “competência psicológica”, o “funcionamento ocupacional”, a “autonomia” e a “possibilidade de autodefesa”.

O Ministério da Saúde aponta que o tripé indispensável para a efetivação da desinstitucionalização é formado pelo Programa de Volta Para Casa, junto com o Programa de Redução de Leitos Hospitalares de Longa Permanência e os Serviços Residenciais Terapêuticos.

Fontes:

Ministério da Saúde;

Do Programa de Volta para Casa à conquista da autonomia: percursos necessários para o real processo de desinstitucionalização. (Sheila Silva Lima, Sandra Assis Brasil, 2014);

A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceitos (Fernando Tenório, 1999);

 

 

Connectom: Tecnologia e Inovação em Neurociência

Connectom: Tecnologia e Inovação em Neurociência

Em uma das edições de aniversário da revista EXAME, que comemora seus 50 anos com uma série de reportagens sobre tecnologia e inovação em diversas esferas do conhecimento, a matéria “Cérebro, A Fronteira Final” traz como recorte temático o novo fôlego das pesquisas na área da neurociência. Com a finalidade de explicitar os impactos que esse tipo de pesquisa tem sobre a sociedade atual, o tema aborda a perspectiva de que compreender o funcionamento do cérebro será a chave para tratar doenças e criar hábitos saudáveis.
Apesar da importância do cérebro para o desenvolvimento das atividades humanas como conhecemos hoje, é espantoso o quão pouco se conhece sobre os mecanismos de ação desse órgão. Para tentar se obter um esclarecimento maior sobre seu funcionamento, em dezembro de 2016 foi instalado, no Instituto Max Planck para a Cognição Humana e Ciências do Cérebro, na cidade alemã de Leipzig, o poderoso aparelho de ressonância magnética chamado de CONNECTOM, produzido sob encomenda pelo conglomerado alemão Siemens. O equipamento é até quatro vezes mais poderoso que um aparelho moderno disponível num hospital, afirma o pesquisador Harald Möller, o que é importante por duas razões: obter imagens mais nítidas da massa encefálica e realizar pesquisas no nível celular em tempo real, ou seja, com o cérebro humano vivo. Esse fato permite que os cientistas consigam acompanhar a evolução das regiões cerebrais ao longo do tempo na tentativa de desvendar os mecanismos da aprendizagem, do raciocínio e das desordens mentais.
Para Nikolaus Weiskopf, um dos diretores do Instituto, a possibilidade de se ter toda essa visibilidade do cérebro é importante porque cada mudança sutil nas microestruturas cerebrais pode causar doenças. “Nós olhamos para a microestrutura ao mesmo tempo em que investigamos as funções cerebrais de determinadas áreas. Se eu encontrar diferenças nas estruturas, preciso saber como isso afeta a função”, diz.
Esse não é um grande potencial apenas para a neurociência, mas também para a psiquiatria. Problemas psiquiátricos estão associados a alguma alteração na estrutura cerebral. Por essa razão, compreender a plasticidade do cérebro através das técnicas de imagem, pode fornecer base para descobrir novos tratamentos para alcoolismo, desordens alimentares e estresse pós traumático, por exemplo. Além disso, os pesquisadores esperam que seja possível treinar o cérebro para driblar áreas lesionadas após um AVC ou atacar doenças neurodegenerativas, como Alzheimer.
Por todos esses motivos, o Connectom apresenta para a sociedade científica uma nova possibilidade de compreensão eficiente do funcionamento do cérebro. A partir daí, transferir os conhecimentos adquiridos pelas pesquisas realizadas através do equipamento para tratar doenças, promover mudança de hábito e bem estar é apenas uma questão de tempo.
Fonte: Revista EXAME

Estudo verifica que TDAH tem bases neurobiológicas

Estudo verifica que TDAH tem bases neurobiológicas

Em estudo realizado por pesquisadores identificou que pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH – apresentam modificações na estrutura cerebral em áreas específicas ligadas às emoções.
TDAH  é uma doença que afeta cerca de 5% das crianças, acompanhando em muitos casos o indivíduo até a vida adulta. Se manifesta como desatenção, agitação e impulsividade. Muitos duvidam que a condição seja real, mas o maior estudo já conduzido sobre o tema, por médicos e cientistas de 23 centros de pesquisa ao redor do mundo, revelou que o transtorno tem bases neurobiológicas e pode ser tratado.
Avaliou-se 3 mil pessoas separadas entre pacientes saudáveis e com TDAH, entre 4 e 63 anos, que foram submetidos a exames de neuroimagem estrutural por Ressonância Magnética – técnica a qual possibilita o estudo detalhado do cérebro. Foram avaliadas informações específicas de cada região cerebral, como tamanho e volume, padronizadas através do mesmo protocolo. Nesse contexto, os pesquisadores puderam comparar cada uma das estruturas cerebrais de indivíduos com e sem o transtorno.
Os resultados revelaram que estruturas como a amígdala cerebral, acúmbens e hipocampo, responsáveis pela regulação das emoções, motivação e o chamado sistema de recompensa (que modifica nosso comportamento através de recompensas) são menores nos pacientes com TDAH. Quando se levou em conta a idade dos pacientes, observou-se que estas alterações são mais leves em pacientes adultos, o que sugere que existe uma compensação, ao menos parcial, com o passar dos anos. Esses resultados são a sustentação mais sólida até o momento que o TDAH é um transtorno relacionado ao atraso na maturação de regiões cerebrais reguladoras das emoções.
Os resultados, então, foram de extrema importância para demonstrar a real gravidade da doença, que não é apenas algo inventado por médicos nem resultado de uma má criação dos pais.
Foi o primeiro estudo de relevância no assunto pelo número de indivíduos participantes, pois, até então, estudos anteriores também haviam identificado algumas alterações cerebrais do TDAH, mas devido ao pequeno número de pacientes estudados, era difícil generalizar os resultados. 
Foi descartado pela pesquisa, também, a possibilidade de que tais modificações ocorressem devido ao uso de medicamentos para tratamento do TDAH ou à presença de outros distúrbios de saúde associados ao transtorno, como ansiedade e depressão.
Assim, pode-se verificar a necessidade de tratamento adequado para o TDAH, que é um transtorno do desenvolvimento associado a alterações no nossa arquitetura do cérebro.
Fonte: The Lancet Psychiatry
Autor: Rafael Kader

Critérios diagnósticos da esquizofrenia

Critérios diagnósticos da esquizofrenia

A esquizofrenia é um distúrbio psiquiátrico que acomete cerca de 4 pessoas para cada 1.000 indivíduos em todo o mundo. A doença provoca não só grande prejuízo das funções ocupacionais e sociais do paciente como também está associada a uma maior mortalidade. Isto se deve à maior incidência de uso substâncias, suicídio e morte por causas externas nesta população, além das dificuldades em tratar as eventuais comorbidades do paciente esquizofrênico.
A doença é mais comum em homens e geralmente começa a se manifestar durante a adolescência ou na primeira metade da terceira década de vida. Os pacientes que abrem o quadro da doença antes disso apresentam maior risco de desenvolver esquizofrenia de difícil controle. Vale ressaltar também que a esquizofrenia é uma doença multifatorial em que o componente genético possui uma grande participação.
Os achados da doença são delírios (de controle, de perseguição, de referência, de grandiosidade, etc.), alucinações (geralmente auditivas; se visuais, considerar outras hipóteses), fala e comportamento desorganizados, negligência do cuidado pessoal (aparência descabelada, roupas sujas…), sinais de catatonismo, etc. Além disso, podem haver manifestações de sintomas negativos, que são fatores de mau prognóstico. São eles: avolia, anedonia,  isolamento social,  embotamento afetivo…
O diagnóstico da esquizofrenia segundo o DSM IV TR requer:
A. Sintomas Característicos: Pelo menos dois dos seguintes, cada um presente por um espaço significativo de tempo durante um período de um mês (ou menos, caso tratado com êxito):
(1) delírios
(2) alucinações
(3) fala desorganizada (ex., descarrilhamento freqüente ou incoerência)
(4) comportamento totalmente desorganizado ou catatônico
(5) sintomas negativos, ou seja, embotamento afetivo, alogia ou avolição

        (Nota: apenas um sintoma A é necessário se os delírios são bizarros ou as alucinações consistem de uma voz mantendo um comentário sobre o comportamento ou pensamentos da pessoa ou duas ou mais vozes conversando entre si).
B. Disfunção Ocupacional/Social: Durante um espaço significativo de tempo, desde o início do distúrbio, uma ou mais áreas principais de funcionamento como trabalho, relações interpessoais ou auto-cuidado encontram-se significativamente abaixo do nível atingido antes do início (ou quando o início ocorre na infância ou na adolescência, fracasso em atingir o nível esperado de desempenho interpessoal, acadêmico ou ocupacional).
C. Duração: Sinais contínuos do distúrbio persistem no mínimo durante seis meses. Este período de seis meses deve incluir pelo menos um mês com os sintomas que satisfazem o critério A (ou seja, sintomas da fase ativa) e podem incluir períodos prodrômicos e/ou residuais quando o critério A não é plenamente satisfeito. Durante esses períodos, os sinais do distúrbio podem ser manifestados por sintomas negativos ou por dois ou mais sintomas listados no critério A presentes em uma forma atenuada (ex., a duração total dos períodos ativo e residual).
D. Distúrbio esquizoafetivo e Distúrbio de Humor com Características Psicóticas foram descartados devido a: (1) nenhum episódio significativo depressivo ou maníaco ocorreu simultaneamente com os sintomas da fase ativa; ou (2) se episódios de humor ocorreram durante o episódio psicótico, sua duração total foi breve em relação à duração do episódio psicótico (ou seja, à duração total dos períodos ativo e residual).
E. Exclusão de Substância/Condição clínica geral: O distúrbio não é devido a efeitos fisiológicos diretos de uma substância (ex., uma droga de abuso, uma medicação) ou uma condição clínica geral.
F. Relacionamento a um Distúrbio Global do Desenvolvimento: Se há uma história de Distúrbio Autístico ou um Distúrbio Global do Desenvolvimento, o diagnóstico adicional de Esquizofrenia é estabelecido apenas se delírios ou alucinações proeminentes também encontram-se presentes durante pelo menos um mês (ou menos, caso o tratamento tenha êxito).
Fonte: Meltzer HY, Bobo WV, Heckers SH, Fatemi HS. Chapter 16. Schizophrenia. In: Ebert MH, Loosen PT, Nurcombe B, Leckman JF. eds. CURRENT Diagnosis & Treatment: Psychiatry, 2e. New York, NY: McGraw-Hill; 2008.
 

Critérios diagnósticos para depressão maior

Critérios diagnósticos para depressão maior

Estima-se que 3,7% a 6,7% das pessoas terão pelo menos um episódio de depressão maior durante a vida, sendo que a incidência é duas a três vezes maior em mulheres do que homens. Além da depressão prejudicar as funções ocupacionais e sociais do paciente, ela também prejudica o tratamento de suas comorbidades. Mais ainda, a tentativa de suicídio, bem sucedida ou não, é a complicação mais importante deste distúrbio psiquiátrico.
Embora os sintomas da depressão sejam bem conhecidos (anedonia, depressão do humor, sono e/ou apetite alterado, etc.), é importante diferenciar com precisão a tristeza normal da patológica. Em outras palavras, há situações em que o humor deprimido é esperado e a sua resposta é adequada, e há momentos em que a tristeza não possui causa aparente e/ou a sua intensidade é tão intensa que acaba por prejudicar o cotidiano da pessoa acometida.
Como sempre, lançamos mão de critérios diagnósticos afim de facilitar a identificação dos pacientes que irão se beneficiar do tratamento adequado. Segundo o DSM-IV-TR, a “bíblia” da psiquiatria, os critérios são os seguintes:

  • A. Pelo menos 5 dos sintomas abaixo devem estar presentes simultaneamente por, no mínimo, 2 semanas. Pelo menos um dos sintomas em negrito deve estar presente
    • Humor deprimido
    • Perda de interesse ou do prazer
    • Perda de peso (sem dieta) ou ganho de peso, ou aumento/redução do apetite
    • Insônia ou hiperinsônia
    • Agitação ou lentificação psicomotora
    • Fadiga ou redução da energia
    • Sentimento de culpa inapropriada ou autoestima baixa
    • Pensamento ou concentração reduzidos, ou indecisão
    • Pensamento recorrentes de morte ou suicídio
  • B. Os sintomas não devem preencher critérios para episódio misto
  • C. Os sintomas causam sofrimento ou prejuízo das funções sociais, ocupacionais ou em outras áreas importantes .
  • D. Os sintomas não são causados por ação direta de substâncias (ex: uso de drogas, medicamentos) ou por outra doença (ex: hipotireoidismo)
  • E. Os sintomas não são completamente explicados pelo estado de luto (ex: após a perda de um ente querido, os sintomas duram mais de 2 meses e há alteração profunda das funções sociais, além de sintomas psicóticos e ideação suicida).

O diagnóstico de depressão é fechado quando todos os critérios identificados por letras são encontrados.
Fonte: Loosen PT, Shelton RC. Chapter 18. Mood Disorders. In: Ebert MH, Loosen PT, Nurcombe B, Leckman JF. eds. CURRENT Diagnosis & Treatment: Psychiatry, 2e. New York, NY: McGraw-Hill; 2008.
 
 

Saúde Mental: Manual de Intervenção do mhGAP em português

Saúde Mental: Manual de Intervenção do mhGAP em português

Em 2008, a OMS lançou um programa de ação para reduzir as brechas em saúde mental (mhGAP), visando especialmente os países de baixa e média renda. O Manual de Intervenção do mhGAP, conhecido como MI-GAP, agora também está disponível em português.

O desenvolvimento deste material objetiva facilitar o cuidado em saúde baseado em evidências científicas, especialmente nos locais não especializados em saúde mental. Ferramenta indispensável para quem atua em Saúde Primária. As condições prioritárias incluídas no texto foram: depressão, psicoses, transtornos bipolares, epilepsia, transtornos do desenvolvimento e comportamentais em crianças e adolescentes, demência, transtornos por uso de álcool e uso de drogas e o suicídio.

Vale lembrar que as diretrizes do MI-GAP serão atualizadas a cada 5 anos. Não deixe de conferir o Manual no link:

http://www.who.int/mental_health/publications/mhGAP_intervention_guide/en/

302

Responda se puder! Psiquiatria 1

 
 

1)      (Fundação João Goulart-RJ 2012) Dentre os transtornos de ansiedade, alguns podem se manifestar durante o desenvolvimento da criança ou do adolescente. Sobre esses transtornos, é correto afirmar:

a) As fobias específicas são pouco frequentes em crianças e, por isso, quando ocorrem necessitam tratamento imediato para desaparecerem.

b) A fobia social é incomum em adolescentes.

c) O transtorno obsessivo-compulsivo com frequência se inicia na infância ou na adolescência.

d) O transtorno do pânico é comum na infância e tem usualmente seu início antes dos 10 anos de idade.

2)      (Associação Médica do Paraná 2012) Assinale o item incorreto, quanto aos critérios diagnósticos de um episódio maníaco.

a) Necessidade diminuída de sono.

b) Atenção muito facilmente chamada por estímulos externos desimportantes

c) Despersonalização ou desrealização.

d) Aumento na atividade dirigida para objetivo.

e) Sente pressão para se manter falando.

 

3)      (Hospital Pitangueiras-SP 2012) Um paciente está com taquicardia, midríase não reagente à luz, secura da pele e hipertermia discreta. O diagnóstico mais provável é:

a) Intoxicação por cocaína.

b) Abstinência do álcool.

c) Embriaguez patológica.

d) Abusa de benzodiazepínicos.

e) Impregnação por neurológico.

4)      (Hospital Geral de Goiânia-2012) Com relação aos quadros de delirium podemos afirmar:

a) São quadros degenerativos de instalação insidiosa, geralmente relacionados a processos degenerativos do SNC. 

b) Nos quadros de delirium o nível de consciência está preservado.

c) São quadros irreversíveis.

d) São causados por processos infecciosos, distúrbios metabólicos e hidroeletrolíticos.

e) São secundários a lesões focais do tronco encefálico.

5)      (Universidade Estadual Paulista) Homem de 52 anos de idade, tabagista de 1 maço por dia 25 anos, apresentou infarto agudo do miocárdio há 20 dias e, após, parou de fumar. Refere estar com irritação, insônia, ansiedade e constipação. Está em uso de bupropiona 150 mg de 12/12 horas. A melhor conduta, além de aconselhamento com intervenção intensiva, é:

 

a) Adesivo de nicotina de 21 mg 1 vez/dia.

b) Clonidina 0,15 mg VO de 8/8 horas.

c) Nortripitilina 75 mg de 12/12 horas.

d) Vareniciclina 1,0 mg de 12/12 horas.

e) Aumentar a bupropiona para 300 mg de 12/12 horas.

 

1)      Resposta: letra C

2)      Resposta: letra C

3)      Resposta: letra C

4)      Resposta: letra D

5)      Resposta: letra A. Apesar de ser a primeira linha para tratamento de pacientes que desejam para de fumar, a Varenciclina, nesse caso, está contraindicada (FDA), pois possui efeito negativo em pacientes cardiopatas (IAM).

 

Celso Neto