Saúde Mental – Widoctor

Apenas 18% das empresas mantêm um programa para cuidar da saúde mental

Apenas 18% das empresas mantêm um programa para cuidar da saúde mental

Nove em cada dez brasileiros no mercado de trabalho apresentam sintomas de ansiedade, do grau mais leve ao incapacitante. Metade (47%) sofre de algum nível de depressão, recorrente em 14% dos casos. Os dados são da última pesquisa da Isma-BR, representante local da International Stress Management Association, organização sem fins lucrativos dedicada ao tema.

Os transtornos mentais e emocionais são a segunda causa de afastamento do serviço. Nos últimos dez anos, a concessão de auxílio-doença acidentário devido a tais males aumentou em quase em 20 vezes, segundo o Ministério da Previdência Social. Com frequência, os doentes ficam mais de 100 dias longe de suas funções. Em todo o mundo, os gastos relacionados a transtornos emocionais e psicológicos podem chegar a 6 trilhões de dólares até 2030, mais do que a soma dos custos com diabetes, doenças respiratórias e câncer, apontam estimativas do Fórum Econômico Mundial. A previsão pode ser subestimada, já que dois terços dos indivíduos não procuram auxílio médico especializado.

A Organização Mundial da Saúde alerta que uma em cada quatro pessoas sofrerá com um transtorno da mente ao longo da vida. Apesar dos números, são raras as empresas que mantêm um programa de saúde psicológica e emocional para seus empregados.

A maioria dos casos ainda é tratada como tabu. Chegou a hora de falarmos abertamente sobre o tema.

A mente adoece

Pesquisas ligam os transtornos mentais a diversas fontes. O excesso de estímulos é uma delas. Na era da hiperconectividade, as pessoas são atingidas por uma avalanche de informações na forma de mensagens instantâneas, e-mails, alertas de compromisso, notícias em tempo real e aplicativos de todos os tipos e gêneros. “A informática fez com que tivéssemos mais controle de nossa vida, mas isso implica maior carga cerebral”, diz a neurocientista Carla Tieppo, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Estamos o tempo todo sendo lembrados do que não fizemos, das tarefas que não cumprimos, das ligações que não atendemos e dos e-mails não respondidos. E a falta de habilidade em lidar com isso pode levar ao estresse e a distúrbios de ansiedade e humor.

Embora especialistas indiquem a vida pessoal, não só a profissional, como fator de risco, em todo o mundo, apenas um de cada cinco indivíduos aponta a família e os vizinhos como fonte de preocupação, segundo uma pesquisa realizada com 16 000 pessoas pela Regus, especializada em escritórios flexíveis.

Para mais da metade (60%), o trabalho é a causa de se sentirem nervosos, irritados, cansados, tristes ou sem energia. Em tempos de recessão econômica, a cobrança por resultados, o medo de demissão e o enxugamento dos quadros de funcionários tornam as empresas locais ainda mais estressantes.

Não à toa, a procura por atendimento no consultório de Porto Alegre da psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da Isma-BR, cresceu 30% nos últimos seis meses. Quase dois terços dos pacientes são executivos. Entre os novos está uma gestora que descobriu, ao voltar de férias, que havia sido demitida. “Essa situação está se tornando cada vez mais comum e causa um grande impacto tanto em quem sai quanto nos que permanecem na organização”, afirma Ana Maria. Os que ficam, diz, convivem com o medo de sair de férias ou de perder o colega que se arrisque a tanto — tendo de arcar com mais trabalho. “É como se as corporações colocassem os trabalhadores em um barco e mandassem jogar os coletes salva-vidas no mar, para reduzir o peso, deixando todo mundo por sua própria sorte”, diz

Um ambiente de trabalho com pouco apoio, excesso de demanda, baixo controle sobre as tarefas, recompensas inadequadas e comprometimento individual excessivo são fatores que aumentam a chance de afastamento. O sentimento de nunca cumprir as tarefas e a dificuldade de se desligar do serviço leva ao burnout — quando o corpo, sobrecarregado, simplesmente desliga.

O custo do estresse

No Brasil, os transtornos mentais são a terceira causa de longos afastamentos do trabalho por doença. Em 2011, eles foram responsáveis pelo pagamento de mais de 211 milhões de reais a novos beneficiários, de acordo com um levantamento do médico do trabalho João Silvestre da Silva-Junior, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

O último Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho, do Dieese, departamento público de estudos socioeconômicos, revela que o número de pessoas afastadas do emprego e que receberam auxílio do INSS chegou a 16 381, em junho de 2015. Episódios depressivos, transtornos ansiosos, reações ao estresse grave e transtornos de adaptação foram os principais diagnósticos.

Nos Estados Unidos, empregados diagnosticados com depressão faltam quase nove dias ao serviço, o dobro da média para trabalhadores saudáveis, segundo o instituto de pesquisa Gallup. O prejuízo com a perda de produtividade supera os 19 bilhões de dólares por ano.

Além do estrago financeiro, há o impacto nos colegas que seguram as pontas quando alguém não aparece. Um estudo da sociedade americana de recursos humanos, a SHRM, revela que os supervisores gastam em média mais de quatro horas por semana lidando com as faltas não programadas, o que inclui fazer recolocações, ajustar o fluxo de tarefas e dar treinamento a quem irá assumir a função por aquele dia. Quando cobrem alguém, os superiores ficam 15% menos produtivos e os colegas, 30%. Quase metade das ausências reflete-se em horas extras dos que ficam.

Há ainda o custo do presenteísmo — quando o funcionário vai trabalhar, mas está com a cabeça em outro lugar. Segundo Ana Maria Rossi, da Isma-BR, 96% das pessoas que têm burnout se sentem incapacitadas para trabalhar. Mesmo assim, 92% continuam indo para a empresa, com medo de serem demitidas ou de se afastarem e não conseguirem voltar. “Elas vão ao trabalho, as luzes estão acesas, mas não há ninguém em casa”, diz. Esse hábito desencadeia erros, baixo desempenho, aumento dos problemas de saúde e piora na qualidade de vida, afetando mais a produtividade que o próprio absenteísmo.

Tabu corporativo

Os problemas mentais ainda são um assunto velado na sociedade. Um estudo do Dieese, de maio de 2015, mostra que, em 2012, foram realizadas 260 greves com o tema de saúde do trabalhador — três vezes mais do que em 2010. Contudo, nenhuma abordou doenças emocionais e psicológicas. Questões como ritmo de trabalho, lazer, estresse, compromisso com a qualidade de vida e trabalho decente estão fora das pautas de sindicatos e patrões.

Das 267 companhias de médio e grande porte avaliadas pela consultoria Mercer, 46% não planejam investir em um programa de saúde mental nos próximos anos. Apenas 18% mantêm algo nesse sentido, sendo que 54% oferecem exclusivamente palestras sobre o tema. Somente 5% contam com um psicólogo nas suas dependências.

Para Milene Rosenthal, fundadora da Psicolink, empresa que oferece orientação psicológica online, as corporações não estão preparadas para lidar com os transtornos mentais. “A área de RH possui indicadores e números de mercado, mas faltam profissionais capazes de acompanhar esses dados de forma correta”, diz a executiva. Quando os casos chegam ao departamento de recursos humanos já é tarde demais. “O trabalhador já gritou com alguém ou agrediu outro colega, ou diz que vai se matar”, afirma Milene.

Uma vez, ela atendeu um rapaz que ficou 48 horas trabalhando direto para finalizar um projeto. “Ele teve um derrame ocular, o olho começou a sangrar. Ele não só não terminou a tarefa como foi afastado e deixou o time sem uma pessoa estratégica”, diz.

O próprio indivíduo pode não perceber seu limite. Fatima Macedo, diretora da Mental Clean, consultoria de bem-estar emocional, explica que os sintomas começam “dissociados e discretos”. A pessoa dorme mal uma noite, mas não chega a ter uma insônia; sente dor ou fica com o estômago inchado; noutro dia, tem uma pequena coceira na pele; depois sente uma angústia ou uma tristeza sem motivos. “O funcionário sente vergonha de estar doente e minimiza os sinais”, diz Fátima. Há casos em que o diagnóstico correto demorou oito anos.

A melhor forma de acompanhar o bem-estar psíquico e emocional é preparar a companhia para tratar depressão, estresse e outros transtornos mentais como qualquer outra doença do corpo.

O tratamento

Primeiro, a equipe de recursos humanos deve estudar o tema e levantar indicadores internos. Feito isso, é hora de buscar apoio. Para Milene, da Psicolink, o RH vai jogar dinheiro fora se ficar apenas nos grupos de corrida ou nas palestras de consultorias especializadas.

“É preciso desenvolver uma cultura corporativa que englobe a saúde emocional — e isso significa comprometimento da alta liderança”, diz. Depois, é hora de usar as ferramentas de comunicação disponíveis para alertar sobre o problema.

Foi isso o que fez a Abyara Brokers, uma das maiores imobiliárias do país. Em 2013, o time de recursos humanos recebia por mês até cinco funcionários, principalmente corretores de imóveis terceirizados, com sinais de estresse, alcoolismo e abuso de drogas. Na época, eram 1 000 corretores. Fossem CLT ou autônomos, a ausência dessas pessoas afetava a produtividade e o resultado dos negócios. O aumento de casos chamou a atenção da diretoria, que autorizou a criação de um programa de saúde mental.

Em 2014, Vanessa Melo, analista de treinamento, mapeou a saúde de 32% do quadro de funcionários. Dos 221, quase 70% responderam que se sentiam estressados “esporadicamente” ou “frequentemente”; 53% estavam acima do peso; e quase metade não praticava exercícios. “Tínhamos pessoas constantemente estressadas, com sobrepeso e sedentárias”, diz Cristiane Zanoelo, gerente de treinamento e desenvolvimento da Abyara.

Depois do mapeamento, a companhia ofereceu ajuda para 56 pessoas. Apenas 23 aceitaram — três estavam em nível de “quase exaustão” ou “exaustão”, a um triz de receber afastamento médico. Paralelamente, a Abyara treinou os líderes, a fim de ter um ambiente menos estressante e de abordar corretamente quem apresentasse os sintomas de estresse.

Fez palestras e oficinas sobre burnout, desenhadas com o intuito de instruir e vencer o preconceito. Realizou dois plantões de atendimento psicológico, com duração de 40 minutos cada sessão, em um andar específi co. Criou um time de “terapia em grupo” e um comitê multidisciplinar de saúde e qualidade de vida. “A ideia era mostrar que a empresa entende que qualquer um pode ter esse problema”, diz Vanessa.

As ações foram estendidas aos corretores terceirizados. Em 2015, por causa da crise, dos 215 empregados, restaram 95. Ficou difícil seguir com o mapeamento de estresse, mas, como muitas pessoas procuravam o RH com medo de ser demitidas, a companhia manteve os plantões de atendimento psicológico. “Nesse período, a produtividade caiu e o nível de ansiedade subiu, mas acredito que conseguimos reduzir os afastamentos médicos”, diz Cristiane.

A empresa de cartões de benefícios Sodexo passou a mapear a saúde mental dos trabalhadores há dois anos e descobriu três, dos cerca de 600, com problema — sendo que dois se afastaram do serviço. A base de baixo número, acredita Rogerio Bragherolli, diretor de RH, está nos valores corporativos, que vão desde interação social, facilidade e efi ciência até reconhecimento e saúde. “Estamos saindo do conceito de ‘work life balance’, de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, para o de ‘life integration’, pois a vida é uma só”, afirma Bragherolli.

Reformada recentemente, a sede da Sodexo, em Barueri, Grande São Paulo, é uma manifestação física dessa ideologia: móveis coloridos, espaços abertos, nada de baias, e rotatividade nas mesas de trabalho. Um andar inteiro se destina às práticas de bem-estar, onde os empregados têm à disposição quiropata, cadeiras de massagem, manicures, churrasqueira e até uma horta. Bragherolli garante que o resultado nos negócios e no engajamento dos profissionais foi tão bom que os escritórios da Sodexo na Bélgica e na França planejam copiar as práticas.

Ainda cabe um esforço da sociedade (e dos indivíduos) para melhorar o autoconhecimento. As comunidades modernas tendem a abandonar as análises mais profundas e tratar os transtornos  mentais com medicação. Mas, do ponto de vista neurológico, o que faz a diferença é o nosso cérebro. Já dizia o filósofo: “Conhece-te a ti mesmo”.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://www.anamt.org.br/portal/2018/11/27/apenas-18-das-empresas-mantem-um-programa-para-cuidar-da-saude-mental/

Ambiente hostil no trabalho pode comprometer a saúde mental

Ambiente hostil no trabalho pode comprometer a saúde mental

Um ambiente hostil no trabalho pode comprometer a saúde mental. Segundo a psiquiatra Fátima Vasconcellos, da Associação Brasileira de Psiquiatria, as relações humanas no trabalho interferem na saúde mental mais do que o valor do salário e a realização profissional.

“Um ambiente de abuso, de intimação começa provocando esgotamento mental, podendo fazer eclodir uma depressão e crises de ansiedade. Torna-se uma doença que necessita de tratamento”, explica.

Uma atmosfera hostil é aquela em que há humilhação, intimidação e exclusão, de acordo com Fátima.

Ela afirma que o comportamento tirano geralmente é exercido por uma figura de autoridade. “O mais comum é entre chefe e subordinado, e não entre colegas”, diz. “Geralmente, um chefe tirano se vale de tiranizar os mais frágeis. Ele se aproveita de pessoas que têm maior insegurança e baixa autoestima criando um clima de insatisfação que a maioria das pessoas não aguenta”, completa.

De acordo com a psiquiatra, para sobreviver a ambientes hostis, é preciso criar mecanismos de proteção. O mais importante deles, segundo ela, é ter uma vida além do trabalho. “É uma forma de oxigenar a cabeça, de ficar menos sujeito àquele ambiente”, afirma. “Quando a pessoa tem uma vida fora do trabalho, ela fala de outros assuntos e não dá tanta importância àquela pessoa. Além disso, era terá alguém para conversar, inclusive sobre esse assunto. Falar sobre o problema pode trazer alívio”, diz.

Para a médica, ter outros interesses além do trabalho pode ajudar mais a lidar com o problema do que tentar muda a atitude. “Já que o tirano escolhe o frágil para oprimir, a pessoa pode tentar mudar a postura, tornar-se mais hábil, mas cada um tem uma estrutura de ser. Não é tão fácil virar o jogo. O mais indicado é não ficar focado no problema, porque ele aumenta”, afirma.

Alguns sinais podem servir de alerta de que o clima ruim do trabalho pode estar prestes a comprometer a saúde mental. Entre eles estão sentir-se aflito antes de ir trabalhar e não dormir à noite porque fica pensando no problema. “Nesses casos, é recomendável que se procure ajuda de um psicólogo ou psiquiatra para lidar com a questão”, orienta.

A psiquiatra ressalta que, embora anacrônica, a hostilidade no ambiente de trabalho ainda existe em algumas empresas. “As boas empresas são aquelas que criam ambientes colaborativos de respeito ao funcionário. Com isso, elas até ganham um aumento de produtividade”, afirma.

Depressão independe de sucessos na vida, como caso de Whindersson:

O comediante e youtuber Whindersson Nunes, 24, compartilhou nas redes sociais na última sexta-feira (12) que sente angústia e tem pensamentos negativos todos os dias. Chegou a falar até que “não sente vontade de viver” e pediu ajuda aos fãs. “Apesar de tudo de bom que vem acontecendo comigo, com tudo que já conquistei, eu me sinto há alguns anos triste,” escreveu. O psiquiatra Ivan Mario Braun explica que é possível alcançar todos os sonhos – fazer o que gosta, ser reconhecido, famoso, rico, viajar o mundo e encontrar o amor da vida – e ter depressão. “Depressão não é um fenômeno psicológico, é uma doença. Está relacionado alterações cerebrais e na comunicação das células nervosas, entre outras alterações”, afirma

Não se sabe ainda se Whindersson tem mesmo depressão. Já o atacante Nilmar, 34, uma das estrelas do Santos, teve o diagnóstico de depressão confirmado e está afastado dos campos. Os mecanismos da depressão ainda não são totalmente conhecidos. Mas, sendo um problema cerebral, não está ligado necessariamente a eventos negativos. “Esses eventos podem servir de desencadeantes, como estresse psicológico ou problemas puramente físicos, como cirurgias e até mesmo uma gripe forte”, diz o psiquiatra

Anitta, 26, afirmou tem desenvolvido a depressão no auge de sua carreira. Segundo ela, esse teria sido o segundo episódio da sua vida – o primeiro foi aos 18 anos. Ela revelou que não conseguia sair da cama e tinha dificuldades para sair de casa. O estresse positivo também pode desencadear a depressão em pessoas mais sensíveis, segundo Ivan Mario Braun. Além disso, fadiga, excesso de trabalho, tudo que desequilibra o organismo pode ser um desencadeador. “É mais frequente desencadeadores negativos, mas não se excluem os positivos. O excesso de estímulo positivo também pode ser um estresse ao organismo. Isso acaba provocando alterações cerebrais que levam aos sintomas da depressão “, diz.

Gisele Bundchen, 38, já revelou ter tido problemas de ansiedade e ataques de pânico e ter pensado em suicídio. O psiquiatra explica que alguns casos de depressão leve podem ser tratados com psicoterapia, mas a maioria necessita de tratamento com medicamentos próprios. “É uma interação entre predisposição e eventos ambientais. É bem mais raro, mas os eventos de depressão podem aparecer ‘do nada’. Não há nenhuma mudança na vida da pessoa, nem psicológica nem física, mas a depressão se instala”, explica o psiquiatra

A cantora Paula Fernandes, 34, já confessou que foi diagnosticada com depressão em torno dos 20 anos de idade. “Percebi que alguma coisa não estava bem, perdi o apetite, quase não dormia, chorava muito e vivia angustiada”, disse em entrevistas. “Avistei a janela e queria pular”, contou ela, sobre a fase mais grave. O psiquiatra afirma que a tristeza é bem mais leve que um quadro depressivo. A tristeza tem duração menor e passa quando o motivo que a gerou desaparece. Já a depressão permanece independentemente de o desencadeante já ter passado. “A depressão é um processo autônomo”, diz

Segundo divulgação na imprensa, o cantor Justin Bieber, 25, estaria passando por um episódio de depressão. “Alguns pacientes descrevem a depressão como uma tristeza profunda”, diz o médico. Segundo ele, na depressão a pessoa perde o prazer nas coisas, tem alterações de apetite, de sono, da libido, dificuldade de concentração e ficam mais lentas. Ela ainda é marcada por pensamentos negativos, que ficam na cabeça na maior parte do tempo, ideias de culpa e de menos valia. A pessoa se sente incapaz.

 

A cantora Zizi Possi contou ter sido diagnosticada com depressão em 2011 e descreveu a situação com “estar em uma caverna sem eco”. “Você sente uma extrema solidão”, disse à imprensa. “Muita gente está com depressão grave, mas pode trabalhar, conversar e até contar piada, mas por dentro está com uma super depressão. A pessoa tem uma face social”, explica o psiquiatra. “Tem algumas raras pessoas que nem sabem que estão em depressão”, completa

A cantora Demi Lovato, 26, afirmou ser bipolar, ter transtornos alimentares e depressão. Ela chegou a ser internada para tratar os problemas. “Não existe nenhuma evidência de que famosos tenham mais depressão que pessoas comuns”, afirma o psiquiatra. Segundo ele, 30% das pessoas vão ter algum quadro depressivo na vida, 10% terão um episódio de depressão mais grave. Dentro desse grupo, 50% vão ter um segundo episódio. Quem teve um segundo, 75% vai ter o terceiro e, entre elas, 90% vão ter um quarto. “A gente considera que, depois do segundo episódio maior, essa pessoa deverá ser tratada a vida inteira”, afirma.

O cantor Lucas Lucco, 28, também chegou a ser internado por causa da depressão. “É uma doença, uma ferida que ninguém pode ver”, disse. Segundo o psiquiatra, o estresse, que pode ser negativo ou positivo, que desencadeia a depressão varia de acordo com cada um. “Depende de como a pessoa vivencia aquela experiência”. Não é o caso de Lucas Lucco, mas o médico ressalta que outros desencadeadores da depressão podem ser o álcool, a droga e o cigarro. “Depressão não é tristeza e independe dos grandes sucessos da vida”, destaca o psiquiatra

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://noticias.r7.com/saude/ambiente-hostil-no-trabalho-pode-comprometer-a-saude-mental-02052019?amp

Posicionamento da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) sobre Espiritualidade e Religiosidade

Posicionamento da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) sobre Espiritualidade e Religiosidade

A Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) trabalham arduamente para garantir que a promoção e os cuidados em saúde mental sejam baseados cientificamente e, ao mesmo tempo, compassivos e com sensibilidade cultural1,2. Nas últimas décadas, tem havido uma crescente conscientização da academia e da população geral sobre a relevância da religião e da espiritualidade nas questões de saúde. Revisões sistemáticas da literatura científica identificaram mais de 3.000 estudos empíricos investigando as relações entre religião / espiritualidade (R/E) e saúde3,4.

No campo dos transtornos mentais, demonstrou-se que R/E têm implicações significativas para prevalência (especialmente em transtornos depressivos e por uso de substâncias), diagnóstico (ex.: diferenciação entre experiências espirituais e transtornos mentais), tratamento (ex.: comportamento de busca de tratamento, aderência, mindfulness, terapias complementares), desfechos clínicos (ex.: melhora clínica, e suicídio ) e prevenção, bem como para a qualidade de vida e bem-estar3,4. A OMS já inclui R/E como uma dimensão da qualidade de vida5. Embora haja evidências mostrando que R/E estão geralmente associadas a melhores desfechos de saúde, elas podem também causar danos (ex.: recusa de tratamento, intolerância, coping religioso negativo, etc.). Pesquisas mostraram que valores, crenças e práticas relativas a R/E se mantêm relevantes para a maior parte da população mundial e que pacientes gostariam de ter suas questões em R/E abordadas nos cuidados em saúde6-8.

Psiquiatras precisam levar em conta todos os fatores que afetam a saúde mental. Evidências mostram que R/E devem ser incluídas entre estes, independentemente da orientação espiritual, religiosa ou filosófica dos psiquiatras. No entanto, poucas escolas médicas ou currículos de especialidade fornecem qualquer treinamento formal para psiquiatras aprenderem sobre a evidência disponível ou como abordar adequadamente a R/E tanto na pesquisa quanto na prática clínica7,9.

Para preencher esta lacuna, a WPA e várias outras associações nacionais de psiquiatria (ex.: Brasil, Índia, África do Sul, Reino Unido e EUA) criaram seções em R/E. A WPA incluiu “religião e espiritualidade” como parte do “Curriculum Básico de Treinamento em Psiquiatria”10.

Ambos termos, religião e espiritualidade, carecem de uma definição universalmente aceita. Definições de espiritualidade geralmente se referem a uma dimensão da experiência humana relacionada com o transcendente, o sagrado, ou a realidade última. Espiritualidade está intimamente relacionada com os valores, o significado e o propósito de vida. Espiritualidade pode se desenvolver individualmente ou em comunidades e tradições. Religião é frequentemente vista como o aspecto institucional da espiritualidade, geralmente definida mais em termos de sistemas de crenças e práticas relacionadas com o sagrado ou divino, realizada por uma comunidade ou grupo social3,8.

Independentemente de definições precisas, a espiritualidade e a religião lidam com as crenças fundamentais, valores e experiências dos seres humanos. Portanto, a consideração da sua relevância para as origens, a compreensão e o tratamento dos transtornos psiquiátricos bem como para a atitude do paciente frente à doença deveria estar no centro da psiquiatria acadêmica e clínica. Considerações espirituais e religiosas também têm implicações éticas significativas para a prática clínica da psiquiatria11 . Em particular, a WPA propõe que:

  1. Uma consideração cuidadosa das crenças e práticas religiosas dos pacientes, bem como a sua espiritualidade, deveriam ser abordadas rotineiramente sendo, por vezes, um componente essencial da coleta da história psiquiátrica.
  2. A compreensão da religião e da espiritualidade e sua relação com o diagnóstico, etiologia e tratamento de transtornos psiquiátricos devem ser consideradas como componentes essenciais tanto da formação psiquiátrica como do contínuo desenvolvimento profissional.
  3. Há uma necessidade de mais pesquisas sobre religião e espiritualidade em psiquiatria, especialmente sobre suas aplicações clínicas. Estes estudos devem abranger uma ampla diversidade de contextos culturais e geográficos.
  4. A abordagem da religião e da espiritualidade deve ser centrada na pessoa. Psiquiatras não devem usar sua posição profissional para fazer proselitismo de visões de mundo seculares ou espirituais. Psiquiatras devem sempre respeitar e ser sensíveis às crenças e práticas espirituais / religiosas de seus pacientes, das famílias e cuidadores de seus pacientes.
  5. Os psiquiatras, sejam quais forem suas crenças pessoais, devem estar dispostos a trabalhar com líderes / membros de comunidades religiosas, capelães e agentes pastorais, bem como outros membros da comunidade, em suporte ao bem-estar de seus pacientes e devem incentivar seus colegas multidisciplinares a fazerem o mesmo.
  6. Os psiquiatras devem demonstrar consciência, respeito e sensibilidade para o importante papel que a espiritualidade e religiosidade podem desempenhar para muitos funcionários e voluntários na formação de uma vocação para trabalhar no campo dos cuidados em saúde mental.
  7. Os psiquiatras devem estar cientes tanto do potencial benéfico quanto prejudicial das práticas e visões de mundo religiosas, espirituais e seculares e estarem dispostos a compartilhar essas informações de forma crítica e imparcial com a comunidade em geral, em apoio à promoção da saúde e bem-estar.

 

Alexander Moreira-Almeida1,2, Avdesh Sharma1,3, Bernard Janse van Rensburg1,4, Peter J. Verhagen1,5, Christopher C.H. Cook1,6

1 Seção de Religião, Espiritualidade e Psiquiatria da WPA;

2 NUPES, Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil;

3 ‘Parivartan’ Center for Mental Health, New Delhi, India;

4 Department of Psychiatry, University of the Witwatersrand, Johannesburg, South Africa;

5 GGZ Centraal, Harderwijk, the Netherlands;

6 Department of Theology and Religion, Durham University, Durham, UK.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem a todos que contribuíram durante o processo de elaboração deste Posicionamento, em especial, a D. Bhugra, R. Cloninger, J. Cox, V. De Marinis, J.J. Lopez Ibor (in memoriam), D. Moussaoui, N. Nagy, A. Powell, H.M. van Praag e MF Peres. Este posicionamento se utilizou de partes do texto de recomendações já publicadas no Posicionamento do Royal College of Psychiatrists11. Versão em português traduzida por Mario F. Peres e revisada por Alexander Moreira-Almeida,

Referências

  1. Bhugra D. The WPA Action Plan 2014-2017. World Psychiatry 2014; 13:328.
  2. Saxena S, Funk M, Chisholm D. WHO’s Mental Health Action Plan 2013-2020: what can psychiatrists do to facilitate its implementation? World Psychiatry 2014; 13:107-9.
  3. Koenig H, King D, Carson VB. Handbook of religion and health. 2nd edition. New York: Oxford University Press, 2012.
  4. Koenig HG, McCullough ME, Larson DB. Handbook of religion and health. 1st edition. New York: Oxford University Press, 2001.
  5. WHOQOL SRPB Group. A cross-cultural study of spirituality, religion, and personal beliefs as components of quality of life. Social Science and Medicine 62:1486-1497, 2006.
  6. Pargament KI, Lomax JW. Understanding and addressing religion among people with mental illness. World Psychiatry. 2013; 12(1):26-32.
  7. Moreira-Almeida A, Koenig HG, Lucchetti G. Clinical implications of spirituality to mental health: review of evidence and practical guidelines. Rev Bras Psiquiatr. 2014; 36(2):176-82.
  8. Verhagen PJ, Van Praag HM, Lopez-Ibor JJ, Cox J, Moussaoui D. (Eds.) Religion and psychiatry: beyond boundaries. Chichester: John Wiley & Sons, 2010.
  9. Cloninger CR. What makes people healthy, happy, and fulfilled in the face of current world problems? Mens Sana Monographs 2013; 11:16-24.
  10. World Psychiatric Association. Institutional program on the core training curriculum for psychiatry. Yokohama, Japan, August 2002. Available at: www.wpanet.org/uploads/Education/Educational_Programs/Core_Curriculum/corec urriculum-psych-ENG.pdf
  11. Cook CCH. Recommendations for psychiatrists on spirituality and religion. Position Statement PS03/2011, London, Royal College of Psychiatrists, 2011. Available (in a later edition) at http://www.rcpsych.ac.uk/pdf/PS03_2013.pdf

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: http://consciencial.org/textos-extras/posicionamento-da-associacao-mundial-de-psiquiatria-wpa-sobre-espiritualidade-e-religiosidade/

Pesquisa indica relação entre esgotamento e alta rotatividade de profissionais na atenção primária

Pesquisa indica relação entre esgotamento e alta rotatividade de profissionais na atenção primária

Uma pesquisa realizada pela Universidade Católica de São Francisco, publicada na edição de 2019 da revista Annals of Family Medicine, analizou os níveis de esgotamentos dos médicos de atenção primária.

O propósito do estudo foi analisar qualitativamente os níveis de burnout (esgotamento) entre os médicos e funcionários da atenção primária, que se mostraram assustadoramente altos, colaborando com a crença generalizada de que o esgotamento e a falta de engajamento dos funcionários contribuem para a alta rotatividade da força de trabalho.

O estudo utilizou uma coorte longitudinal usando dados de pesquisa sobre burnout e engajamento de funcionários coletados em 2013 e 2014 de 740 médicos de atenção primária e equipe em 2 sistemas de saúde de San Francisco, combinados com dados de escala de emprego de 2016.

Os resultados mostraram que a prevalência do burnout, baixo engajamento e rotatividade foram elevados, com 53% dos clínicos e funcionários relatando burnout. Em contrapartida, apenas 32% dos clínicos e 35% dos funcionários relataram alto engajamento. Foi mostrado também uma forte tendência verificada no estudo, em que o baixo envolvimento previu a rotatividade médica.

Desse modo, o artigo conclui que as altas taxas de burnout e rotatividade na atenção primária são problemas correlacionados, mostrando que as descobertas fornecem evidências de que o burnout contribui para a rotatividade entre os médicos de cuidados primários. Embora a redução do desgaste do clínico possa ajudar a diminuir as taxas de rotatividade, as organizações de saúde e os formuladores de políticas preocupados com a rotatividade de funcionários na atenção primária precisam entender as causas multifatoriais da rotatividade para desenvolver estratégias eficazes de retenção para médicos e funcionários.

 

Fonte:   http://www.annfammed.org/content/17/1/36.short?related-urls=yes&legid=annalsfm;17/1/36&cited-by=yes&legid=annalsfm;17/1/36

Tratamento com realidade virtual reduz fobia social

Tratamento com realidade virtual reduz fobia social

A fobia social é um transtorno de ansiedade que atinge 13% da população brasileira, segundo estimativas apresentadas em 2017 pelo Congresso Brasileiro de Psiquiatria. O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) criou um novo tratamento para fobia social por meio da realidade virtual. O Jornal da USP no Ar conversou sobre o método com a doutora Cristiane Maluhy Gebara, psicóloga, pesquisadora e professora do curso de Terapia Comportamental Cognitiva em Saúde Mental do Programa de Ansiedade do HC.

Segundo a psicóloga, as pessoas que possuem fobia social têm ansiedade e desconforto intenso ou até evitam exposições públicas e interação com pessoas ou autoridades. Os sintomas apresentados podem ser: taquicardia, palpitações, sudorese, tremor, rubor facial, boca seca, autodepreciação, antecipação negativa – um cenário de sofrimento excessivo capaz de interferir na vida desses pacientes, ressalta a professora.

A simulação através da realidade virtual em 3D, já disponível em aplicativo chamado Socialfobia, é um tratamento aplicado por profissionais em consultórios e permite que os pacientes enfrentem as situações mais temidas por eles. A técnica disponibiliza diferentes cenários, como um diálogo com alguém desconhecido, possibilitando a exposição da pessoa ao caso sem que haja constrangimento. De acordo com Cristiana, o processo é repetido e gradual, mas já manifesta resultados positivos: em média, 75% da ansiedade social dos pacientes submetidos ao novo tratamento foi diminuída.

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://jornal.usp.br/ciencias/tratamento-com-realidade-virtual-reduz-fobia-social/

Spray nasal à base de anestésico é aprovado nos EUA para tratar depressão

Spray nasal à base de anestésico é aprovado nos EUA para tratar depressão

A FDA (equivalente norte-americana à Anvisa) aprovou seu primeiro novo tipo de tratamento de depressão em décadas, um medicamento de spray nasal baseado em cetamina sedativa.

O novo remédio, licenciado pela divisão farmacológica da Johnson & Johnson, a Janssen Pharmaceuticals, não é exatamente cetamina. Ele é derivado da esketamina, um parente químico da cetamina. O medicamento será vendido sob a marca Spravato.

Durante anos, a cetamina tem sido prescrita off-label (utilização não indicada no rótulo) para pessoas com depressão severa e idealização suicida, com alguns pacientes experimentando alívio em questão de horas. É importante apontar que esses são, normalmente, pacientes que não responderam bem a outros tratamentos. O spray nasal será aprovado para esse mesmo grupo seleto de pacientes.

“Existe uma necessidade de longa data por tratamentos efetivos extras para a depressão resistente a tratamento, uma condição séria e com risco de vida”, disse em um comunicado Tiffany Farchione, diretora interina da Divisão de Produtos Psiquiátricos do Centro de Avaliação e Pesquisa de Drogas, da FDA. “Ensaios clínicos controlados que estudaram a segurança e eficácia dessa droga, junto com uma revisão cuidadosa por meio do processo de aprovação de drogas da FDA, incluindo uma discussão robusta com nossos comitês consultivos externos, foram importantes para a nossa decisão de aprovar esse tratamento.”

De acordo com a FDA, a esketamina da J&J será aprovada para pessoas com depressão resistente a tratamentos, ou seja, pessoas que não responderam a pelo menos dois outros medicamentos antidepressivos. O remédio precisará ser tomado junto com um antidepressivo padrão, e cada dose será aplicada sob supervisão médica rigorosa, com os pacientes sendo monitorados por pelo menos duas horas antes de poderem deixar a clínica.

Dennis Charney, reitor da Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, foi um dos primeiros cientistas a investigar e encontrar evidências dos benefícios da cetamina no tratamento da depressão e da idealização suicida; mais tarde, ele se tornou um dos coinventores do spray nasal (Charney, a Escola de Monte Sinai e outros têm direitos de patente sobre a droga, que desde então foram licenciados à J&J). Charney disse ao Gizmodo que o Spravato dará às pessoas que anteriormente não podiam arcar com os custos da cetamina uma nova opção de tratamento.

“Eu sou obviamente tendencioso aqui, mas este é, sinceramente, um divisor de águas para o tratamento da depressão”, disse Charney ao Gizmodo, repetindo um chavão compartilhado por muitos no campo. “Quer dizer, estamos falando de potencialmente milhões de pessoas que podem ser capazes de se beneficiar desse tratamento se não tiverem respondido a outros.”

Como as seguradoras de saúde normalmente não cobrem a cetamina quando usada como antidepressivo, os pacientes têm sido forçados a pagar centenas de dólares por infusão do próprio bolso (o número de infusões totais necessárias pode variar, dependendo do paciente e sua resposta, mas muitas vezes é meia dúzia ou mais por cada ciclo de tratamento). A J&J ainda não respondeu a um pedido de comentários do Gizmodo sobre o preço do Spravato.

A decisão da FDA vem na sequência de uma votação quase unânime de um comitê consultivo para aprovar o medicamento no mês passado. Embora a maioria dos especialistas tenha concordado que os benefícios da cetamina superavam qualquer risco potencial, efeitos colaterais de curta duração como desorientação, aumento da pressão arterial e dores de cabeça têm sido comumente encontrados.

Esses mesmos especialistas, mesmo aqueles que aprovaram a droga, também apontaram a falta de pesquisa sobre seus riscos a longo prazo como um tratamento da depressão, como, por exemplo, pacientes desenvolvendo um transtorno por uso de substâncias ou até dano cerebral — ambos vistos em usuários recreativos. E eles pediram pesquisas de longo prazo para manter o controle sobre novos pacientes usando cetamina e para observar esses riscos.

Charney, que disse que não esteve envolvido no desenvolvimento clínico do Spravato pela J&J, acredita que é importante ficar atento aos riscos da cetamina. Mas ele apontou que as dosagens de cetamina normalmente dadas a pacientes com depressão são, geralmente, muito menores do que o que as pessoas tomam de forma recreativa.

“É algo que pudemos observar durante uns dois anos já. E os clínicos com quem conversei e eu não vimos isso (acontecendo) com os pacientes”, afirmou. “Pelo menos até agora, o risco de abuso parece ser bem baixo.”

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://gizmodo.uol.com.br/cetamina-spray-nasal-aprovado-eua-depressao/

Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum?

Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum?

Tabu na sociedade, o suicídio e sua repercussão envolvem diferentes pontos de vista. Nos últimos tempos, foi possível acompanhar algumas delas; a série 13 Reasons Why, que mostrou a história de uma adolescente e suas razões para tirar a própria vida; o jogo Baleia Azul, baseado em tarefas que resultavam em automutilações compartilhadas nas redes sociais do mundo todo, e até mesmo os casos de estudantes de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), uma das mais renomadas do país, que tentaram suicídio e mostraram como eles estão inseridos em um meio de grandes vulnerabilidades.

Dados apurados pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que faz atendimento de apoio emocional, 32 brasileiros se suicidam por dia (1 a cada 45 minutos). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos.

O que pode ficar difícil de entender nisso tudo é como buscar ajuda se a pessoa não sabe que pode ser ajudada ou como é possível ajudar um amigo ou familiar se as pessoas não sabem quais são os sinais e a abordagem mais adequada. Sensível ao problema que afeta uma parcelas dos jovens brasileiros, a equipe de jornalismo do Quero Bolsa, principal plataforma para inclusão de estudantes no ensino superior com bolsa de estudo, ouviu especialistas para ajudar os leitores a entender o problema e agir caso reconheça os sinais em alguém da sua rede de relacionamento.

Os números sobre o suicídio

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em suas orientações sobre como abordar esse tema, mostra que as estatísticas sobre o suicídio são difíceis de ser buscadas e comprovadas de uma forma geral. Nem sempre os atestados de óbito trazem a natureza da morte, por isso a grande dificuldade de saber se as mortes foram por homicídio, suicídio ou até mesmo acidente. Os métodos da pesquisa também podem variar conforme cada país, por isso, os dados precisam ser divulgados com responsabilidade.

Outro ponto levantado por essa publicação da ABP é que a estimativa de tentativas de suicídio supera o número de suicídios em pelo menos dez vezes.

Fatores que podem desencadear o suicídio entre estudantes

Atualmente, o suicídio é a terceira causa de morte na faixa dos 15 e 35 anos e, nas últimas décadas, tem aumentado o percentual entre os jovens em todo o mundo. Na perspectiva da saúde pública, ele é um fenômeno social de distribuição bastante irregular, por isso, fica difícil definir uma causa única. O que existe, de fato, são situações de vulnerabilidade que podem acometer as pessoas e fazer com elas vejam no suicídio a única alternativa.

Para a Dra. Juliana Bernardo Vicente Alves, médica psiquiatra voluntária no NAE (Núcleo de Apoio aos estudantes da Unifesp) e no Núcleo Trans (Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans Professor Roberto Farina Unifesp), existem alguns fatores de risco para o suicídio consolidados para toda a população, inclusive, adolescentes: gênero masculino, não ter um relacionamento estável, extremos de situação socioeconômica, residir em área urbana, ser ateu, isolamento social, situação de perdas recentes, ter história familiar de suicídio, ter tido uma tentativa anterior de suicídio, ter doença física incapacitante, etc.

A questão química também deve ser considerada. Sabe-se que o cérebro funciona às custas de neurotransmissores e que eles têm uma importância muito grande no ato final do suicídio. A serotonina é responsável pelas atitudes ligadas ao impulso e a noradrenalina tem um papel fundamental no interesse que as coisas despertam no indivíduo. Diversos fatores podem influenciar tal funcionamento como, por exemplo, as patologias psiquiátricas. Entre os suicidas, estima-se que 15% apresentam depressão grave, 15% alcoolismo e 10% esquizofrenia. Outro aspecto que chama atenção é o notório e crescente diagnóstico de transtornos de personalidade nesses indivíduos.

“Suicídio: informando para prevenir”, cartilha publicada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria — Foto: Reprodução

“Suicídio: informando para prevenir”, cartilha publicada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria — Foto: Reprodução

Os estudantes e os adolescentes apresentam características inerentes à fase de transição em que vivem. Eles podem apresentar fatores de risco adicionais para o suicídio: a tendência natural para se comunicar por meio da ação (uso de substâncias psicoativas, por exemplo); as mudanças biopsicossociais anteriores ao início da vida adulta (inclusive com uma maior instabilidade emocional) e o fato de estar inserido em uma sociedade que cobra, cada vez mais precocemente, responsabilidades e desempenhos máximos em uma atmosfera de grande competitividade.

A campanha Setembro Amarelo é uma oportunidade de falar sobre o assunto. Ajudamos a quebrar um tabu e a prevenir o suicídio. Carlos Correia, voluntário no CVV

O que o curso de Medicina tem de tão complicado

Cursos como os de Medicina lidam com muita pressão. Eles são, na maioria das vezes, em período integral, por isso, requerem uma grande dedicação dos estudantes e possuem uma rotina muito desgastante.

Quem faz o curso, geralmente, sonhou muito com isso e passou muitos anos fazendo cursinho para conquistar a tão almejada aprovação. Muitas vezes, aquelas grandes expectativas se transformam em uma realidade frustrante, cheia de cobranças e responsabilidades gigantescas, afinal, esses estudantes estão lidando com o fato de assistirem às aulas, fazerem atendimentos, provas e procedimentos e cuidando de outra vida humana.

Além disso, a carga emocional administrada é grande porque esse estudante também está passando por diversas mudanças, como a mudança de cidade (por causa da própria faculdade), a saída da casa dos pais para estudar, a pressão pelo alto desempenho tanto dos familiares (muitos são os primeiros médicos na família) quanto dos próprios colegas de sala.

No decorrer do curso, é possível também vivenciar situações da profissão, principalmente nos últimos anos, com o internato. Nesse período, a carga horária dentro de hospitais aumenta assim como o contato com pacientes e o sofrimento deles com os problemas de saúde. A prova de residência também se aproxima, fazendo com que a ansiedade cresça e as horas de estudo sejam prolongadas. A saúde emocional pode ser assim abalada, já que a vulnerabilidade é maior.

O curso acaba exigindo uma saúde integral do aluno (mental e física) e pode desencadear problemas como a depressão, transtorno bipolar, dependência de álcool e de outras drogas e muita ansiedade.

Temos que ampliar o nosso ouvir para entender melhor as mensagens indiretas e os pedidos de ajuda. Carlos Correia, voluntário no CVV

Depois de formado, as coisas também não são fáceis. A taxa de suicídio entre médicos é 70% maior que na população em geral, segundo dados do Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Fatores que contribuem para esse alto número são o grande estresse profissional, o fato de lidarem com tragédias humanas e o fácil acesso a medicamentos.

Sinais de alerta

Alguns sinais e comportamentos podem indicar se a pessoa está em uma situação limite, como os sintomas depressivos ou mudanças abruptas de comportamento.

É preciso ficar alerta quando a pessoa:

  • Insinua que é um fardo para os demais e que em breve deixará de prejudicar os outros;
  • Relata que a vida não tem sentido de ser vivida e que a sua morte seria um alívio para todos;
  • Tem uma preocupação com o efeito do suicídio sobre os familiares;
  • Verbaliza uma ideação suicida;
  • Prepara um testamento ou uma carta de despedida;
  • Está próxima de uma crise vital (luto; cirurgia iminente);
  • Apresenta pessimismo ou falta global de esperança;
  • Não consegue se recuperar após perdas ou rompimentos em relacionamentos afetivos.

O que as pessoas que estão ao redor podem fazer?

Segundo a Dra. Juliana, deve-se acolher essa pessoa, abordando o tema de forma emocionalmente neutra e pontuando que existem formas de ajudá-la. Algumas perguntas simples podem ajudar a esclarecer se existe uma possível ideia suicida:

  • Tem perdido prazer nas coisas rotineiras, ou perdido sentido da vida?
  • Perdeu a esperança, seria melhor morrer?
  • Sente-se útil?
  • Tem esperança no futuro?
  • Às vezes, pensa em simplesmente sumir?
  • Pensa que é melhor morrer?
  • Quer ser ajudado?

Uma vez identificado, é importante não desqualificar o sofrimento, mantendo uma atitude não crítica e não julgadora. É fundamental orientar sobre as possibilidades de apoio existentes, como os serviços de ajuda. É importante também acionar os familiares dessa pessoa. No caso de risco de suicídio iminente, é necessária uma intervenção imediata buscando um serviço de urgência para uma avaliação melhor.

“90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos, desde que existam condições mínimas para oferta de ajuda voluntária ou profissional”

Mitos e verdades

O estigma é um dos grandes vilões do suicídio. Ele faz com que muitas pessoas não busquem ajuda e não recebam o auxílio adequado.

Algumas posturas e crenças são errôneas e devem ser evitadas. Frases como: “Quem quer se matar se mata mesmo”; “Está ameaçando para manipular”; “Na próxima, faça de verdade”; “Quem se mata é diferente de quem apenas fica tentando”; “Quem quer se matar mesmo, não fica ameaçando”; “Quem já teve várias tentativas não quer morrer mesmo”; entre outras, levam a uma conduta muito equivocada.

Não se deve menosprezar nenhuma tentativa de suicídio. Segundo a Dra. Juliana, de 15% a 25% dos que tentaram suicídio cometem outra tentativa em 1 ano e 10% conseguem se matar em 10 anos. Sabe-se também que 80% das pessoas que tentaram suicídio avisaram de alguma forma sua intenção. Infelizmente, os números têm crescido de forma significativa mundialmente.

Outro mito sobre o suicídio é acreditar que não se deve abordar o tema diretamente. Falar sobre ele não induz ao suicídio. Deve-se questionar, de uma forma neutra e empática (colocando-se no lugar do outro), sobre o pensamento e o planejamento suicida em pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade. Também é importante falar sobre o assunto com a finalidade de educar, prevenir e orientar a população. A educação e a desmistificação do tema são fundamentais para diminuir esse fenômeno.

Por muito tempo não se falou abertamente sobre o suicídio por medo do chamado “Efeito Werther”. Muitos acreditam que falar sobre o assunto poderia inspirar ondas de casos por imitação. O nome desse efeito vem do protagonista do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, publicado em 1774, com a história de um rapaz que tira a própria vida após uma desilusão amorosa e cujo exemplo teria causado outros suicídios de jovens.

Algumas iniciativas para combater o suicídio

Na Unifesp, há um trabalho bastante interessante do Núcleo de Apoio aos Estudantes para tentar identificar os alunos que estão em situação de maior vulnerabilidade. A Dra. Juliana trabalha como médica psiquiatra na triagem e atendimentos dessas pessoas. No NAE, são realizadas diversas intervenções (como acompanhamento psicológico e psiquiátrico) com o propósito de impedir que possíveis alterações psíquicas levem a algum comprometimento do aluno. O serviço também tem feito, junto a vários departamentos da Unifesp, encontros e eventos para promover uma psicoeducação aos graduandos da universidade: são feitas palestras sobre a qualidade de vida ao longo da graduação, sobre o que são as doenças mentais e quais suas relações com o suicídio. Mostram-se também dados epidemiológicos sobre o suicídio, sobre os recursos disponíveis que o aluno tem dentro da universidade (para buscar ajuda se necessário), entre outros. Trata-se de um núcleo com a finalidade de educar e assistir o aluno que apresenta alguma demanda em relação à sua saúde mental.

A fraternidade é a vacina para tudo. Se a gente conseguisse ser mais fraterno e aprendesse a ouvir e respeitar o outro, as coisas poderiam ser diferentes. Carlos Correia, voluntário no CVV

Outra iniciativa é o projeto da Dra. Natália Cruz Rufino, médica psiquiatra vinculada ao Cria-Unifesp (Centro de Referência da Infância e da Adolescência), que avalia os fatores de risco e proteção para tentativa de suicídio na adolescência e suas implicações na aderência ao tratamento.

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo lançou uma cartilha sobre Saúde Mental voltada para médicos jovens e estudantes de Medicina. A ideia é que isso ajude a identificar, acompanhar e dar suporte aos transtornos mentais de uma forma mais precoce para prevenir o suicídio na área médica.

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/especial-publicitario/quero-bolsa/bolsas-de-estudo/noticia/2018/08/22/medicina-por-que-o-suicidio-nesse-curso-e-tao-comum.ghtml

O que é TDAH?

O que é TDAH?

O que é o TDAH?
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e freqüentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Em inglês, também é chamado de ADD, ADHD ou de AD/HD.

Existe mesmo o TDAH?
Ele é reconhecido oficialmente por vários países e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em alguns países, como nos Estados Unidos, portadores de TDAH são protegidos pela lei quanto a receberem tratamento diferenciado na escola.

Não existe controvérsia sobre a existência do TDAH?
Não, nenhuma. Existe inclusive um Consenso Internacional publicado pelos mais renomados médicos e psicólogos de todo o mundo a este respeito. Consenso é uma publicação científica realizada após extensos debates entre pesquisadores de todo o mundo, incluindo aqueles que não pertencem a um mesmo grupo ou instituição e não compartilham necessariamente as mesmas idéias sobre todos os aspectos de um transtorno.

Por que algumas pessoas insistem que o TDAH não existe?
Pelas mais variadas razões, desde inocência e falta de formação científica até mesmo má-fé. Alguns chegam a afirmar que “o TDAH não existe”, é uma “invenção” médica ou da indústria farmacêutica, para terem lucros com o tratamento.

No primeiro caso se incluem todos aqueles profissionais que nunca publicaram qualquer pesquisa demonstrando o que eles afirmam categoricamente e não fazem parte de nenhum grupo científico. Quando questionados, falam em “experiência pessoal” ou então relatam casos que somente eles conhecem porque nunca foram publicados em revistas especializadas. Muitos escrevem livros ou têm sítios na Internet, mas nunca apresentaram seus “resultados” em congressos ou publicaram em revistas científicas, para que os demais possam julgar a veracidade do que dizem.

Os segundos são aqueles que pretendem “vender” alguma forma de tratamento diferente daquilo que é atualmente preconizado, alegando que somente eles podem tratar de modo correto.

Tanto os primeiros quanto os segundos afirmam que o tratamento do TDAH com medicamentos causa conseqüências terríveis. Quando a literatura científica é pesquisada, nada daquilo que eles afirmam é encontrado em qualquer pesquisa em qualquer país do mundo. Esta é a principal característica destes indivíduos: apesar de terem uma “aparência” de cientistas ou pesquisadores, jamais publicaram nada que comprovasse o que dizem.

Veja um texto a este respeito e a resposta dos Professores Luis Rohde e Paulo Mattos:

Why I Believe that Attention Deficit Disorder is a Myth

Porque desinformação, falta de raciocínio científico e ingenuidade constituem uma mistura perigosa

O TDAH é comum?
Ele é o transtorno mais comum em crianças e adolescentes encaminhados para serviços especializados. Ele ocorre em 3 a 5% das crianças, em várias regiões diferentes do mundo em que já foi pesquisado. Em mais da metade dos casos o transtorno acompanha o indivíduo na vida adulta, embora os sintomas de inquietude sejam mais brandos.

Quais são os sintomas de TDAH?
O TDAH se caracteriza por uma combinação de dois tipos de sintomas:

1) Desatenção

2) Hiperatividade-impulsividade
O TDAH na infância em geral se associa a dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. As crianças são tidas como “avoadas”, “vivendo no mundo da lua” e geralmente “estabanadas” e com “bicho carpinteiro” ou “ligados por um motor” (isto é, não param quietas por muito tempo). Os meninos tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas todos são desatentos. Crianças e adolescentes com TDAH podem apresentar mais problemas de comportamento, como por exemplo, dificuldades com regras e limites.

Em adultos, ocorrem problemas de desatenção para coisas do cotidiano e do trabalho, bem como com a memória (são muito esquecidos). São inquietos (parece que só relaxam dormindo), vivem mudando de uma coisa para outra e também são impulsivos (“colocam os carros na frente dos bois”). Eles têm dificuldade em avaliar seu próprio comportamento e quanto isto afeta os demais à sua volta. São freqüentemente considerados “egoístas”. Eles têm uma grande freqüência de outros problemas associados, tais como o uso de drogas e álcool, ansiedade e depressão.

Quais são as causas do TDAH?
Já existem inúmeros estudos em todo o mundo – inclusive no Brasil – demonstrando que a prevalência do TDAH é semelhante em diferentes regiões, o que indica que o transtorno não é secundário a fatores culturais (as práticas de determinada sociedade, etc.), o modo como os pais educam os filhos ou resultado de conflitos psicológicos.

Estudos científicos mostram que portadores de TDAH têm alterações na região frontal e as suas conexões com o resto do cérebro. A região frontal orbital é uma das mais desenvolvidas no ser humano em comparação com outras espécies animais e é responsável pela inibição do comportamento (isto é, controlar ou inibir comportamentos inadequados), pela capacidade de prestar atenção, memória, autocontrole, organização e planejamento.

O que parece estar alterado nesta região cerebral é o funcionamento de um sistema de substâncias químicas chamadas neurotransmissores (principalmente dopamina e noradrenalina), que passam informação entre as células nervosas (neurônios).
Existem causas que foram investigadas para estas alterações nos neurotransmissores da região frontal e suas conexões.

A) Hereditariedade:
Os genes parecem ser responsáveis não pelo transtorno em si, mas por uma predisposição ao TDAH. A participação de genes foi suspeitada, inicialmente, a partir de observações de que nas famílias de portadores de TDAH a presença de parentes também afetados com TDAH era mais freqüente do que nas famílias que não tinham crianças com TDAH. A prevalência da doença entre os parentes das crianças afetadas é cerca de 2 a 10 vezes mais do que na população em geral (isto é chamado de recorrência familial).

Porém, como em qualquer transtorno do comportamento, a maior ocorrência dentro da família pode ser devido a influências ambientais, como se a criança aprendesse a se comportar de um modo “desatento” ou “hiperativo” simplesmente por ver seus pais se comportando desta maneira, o que excluiria o papel de genes. Foi preciso, então, comprovar que a recorrência familial era de fato devida a uma predisposição genética, e não somente ao ambiente. Outros tipos de estudos genéticos foram fundamentais para se ter certeza da participação de genes: os estudos com gêmeos e com adotados. Nos estudos com adotados comparam-se pais biológicos e pais adotivos de crianças afetadas, verificando se há diferença na presença do TDAH entre os dois grupos de pais. Eles mostraram que os pais biológicos têm 3 vezes mais TDAH que os pais adotivos.

Os estudos com gêmeos comparam gêmeos univitelinos e gêmeos fraternos (bivitelinos), quanto a diferentes aspectos do TDAH (presença ou não, tipo, gravidade etc…). Sabendo-se que os gêmeos univitelinos têm 100% de semelhança genética, ao contrário dos fraternos (50% de semelhança genética), se os univitelinos se parecem mais nos sintomas de TDAH do que os fraternos, a única explicação é a participação de componentes genéticos (os pais são iguais, o ambiente é o mesmo, a dieta, etc.). Quanto mais parecidos, ou seja, quanto mais concordam em relação àquelas características, maior é a influência genética para a doença. Realmente, os estudos de gêmeos com TDAH mostraram que os univitelinos são muito mais parecidos (também se diz “concordantes”) do que os fraternos, chegando a ter 70% de concordância, o que evidencia uma importante participação de genes na origem do TDAH.

A partir dos dados destes estudos, o próximo passo na pesquisa genética do TDAH foi começar a procurar que genes poderiam ser estes. É importante salientar que no TDAH, como na maioria dos transtornos do comportamento, em geral multifatoriais, nunca devemos falar em determinação genética, mas sim em predisposição ou influência genética. O que acontece nestes transtornos é que a predisposição genética envolve vários genes, e não um único gene (como é a regra para várias de nossas características físicas, também). Provavelmente não existe, ou não se acredita que exista, um único “gene do TDAH”. Além disto, genes podem ter diferentes níveis de atividade, alguns podem estar agindo em alguns pacientes de um modo diferente que em outros; eles interagem entre si, somando-se ainda as influências ambientais. Também existe maior incidência de depressão, transtorno bipolar (antigamente denominado Psicose Maníaco-Depressiva) e abuso de álcool e drogas nos familiares de portadores de TDAH.

B) Substâncias ingeridas na gravidez:
Tem-se observado que a nicotina e o álcool quando ingeridos durante a gravidez podem causar alterações em algumas partes do cérebro do bebê, incluindo-se aí a região frontal orbital. Pesquisas indicam que mães alcoolistas têm mais chance de terem filhos com problemas de hiperatividade e desatenção. É importante lembrar que muitos destes estudos somente nos mostram uma associação entre estes fatores, mas não mostram uma relação de causa e efeito.

C) Sofrimento fetal:
Alguns estudos mostram que mulheres que tiveram problemas no parto que acabaram causando sofrimento fetal tinham mais chance de terem filhos com TDAH. A relação de causa não é clara. Talvez mães com TDAH sejam mais descuidadas e assim possam estar mais predispostas a problemas na gravidez e no parto. Ou seja, a carga genética que ela própria tem (e que passa ao filho) é que estaria influenciando a maior presença de problemas no parto.

D) Exposição a chumbo:
Crianças pequenas que sofreram intoxicação por chumbo podem apresentar sintomas semelhantes aos do TDAH. Entretanto, não há nenhuma necessidade de se realizar qualquer exame de sangue para medir o chumbo numa criança com TDAH, já que isto é raro e pode ser facilmente identificado pela história clínica.

E) Problemas Familiares:
Algumas teorias sugeriam que problemas familiares (alto grau de discórdia conjugal, baixa instrução da mãe, famílias com apenas um dos pais, funcionamento familiar caótico e famílias com nível socioeconômico mais baixo) poderiam ser a causa do TDAH nas crianças. Estudos recentes têm refutado esta idéia. As dificuldades familiares podem ser mais conseqüência do que causa do TDAH (na criança e mesmo nos pais).

Problemas familiares podem agravar um quadro de TDAH, mas não causá-lo.

F) Outras Causas
Outros fatores já foram aventados e posteriormente abandonados como causa de TDAH:
1. corante amarelo
2. aspartame
3. luz artificial
4. deficiência hormonal (principalmente da tireóide)
5. deficiências vitamínicas na dieta.
Todas estas possíveis causas foram investigadas cientificamente e foram desacreditadas.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://tdah.org.br/sobre-tdah/o-que-e-tdah/

Van Gogh era mesmo bipolar?

Van Gogh era mesmo bipolar?

Por Dr. Elie Cheniaux – Parece haver uma relação entre criatividade e transtorno bipolar [Sobre as características clínicas do transtorno bipolar, ver Cheniaux (2016)]. Em primeiro lugar, estudando-se as biografias de grandes artistas, constata-se que muitos deles apresentaram episódios de mania e de depressão ao longo de suas vidas. Além disso, quando são entrevistados artistas bem-sucedidos, utilizando-se critérios diagnósticos modernos, a prevalência de transtorno bipolar entre eles é maior do que na população geral. Por outro lado, na comparação entre indivíduos que sofrem de transtorno bipolar e outros pacientes psiquiátricos, observam-se que os primeiros apresentam um melhor desempenho em testes de criatividade, mais realizações criativas e uma escolha mais frequente de ocupações criativas. Por fim, há diversas características em comum entre um episódio maníaco ou hipomaníaco e o comportamento criativo, tais como um aumento na energia, atividade, autoestima, autoconfiança e capacidade de associar ideias.

Sofrer de transtorno bipolar, é claro, não faz de ninguém criativo. Talvez o que aconteça é que, em pessoas que já possuem um talento natural para a arte, a doença facilite e incremente a produção artística. Acredita-se que, durante os episódios de depressão e de mania, embora estes cursem com intensas vivências afetivas, as quais podem ser altamente inspiradoras, os indivíduos não consigam produzir nada, ou não produzam nada com qualidade. Na depressão, faltam iniciativa, energia e autoconfiança, enquanto na mania o indivíduo tem dificuldade de concentração, está desorganizado e perde a sua capacidade crítica. Provavelmente, durante a hipomania, que, por definição, é de leve gravidade e não cursa com complicações, o bipolar talentoso torna-se capaz de produzir muito, tanto em quantidade como em qualidade.

O holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), um dos maiores pintores de todos os tempos, provavelmente sofria de transtorno bipolar. Durante apenas uma década, dos 27 aos 37 anos de idade, ele produziu mais de 800 pinturas a óleo, especialmente paisagens, naturezas mortas, retratos e autorretratos. Todavia, a sua genialidade só foi reconhecida após a sua morte. Embora hoje em dia muitas de suas obras sejam avaliadas em milhões de dólares, em vida apenas um único quadro seu foi vendido.

Pesquisando a biografia desse “gênio incompreendido”, não fica bem claro quando a sua doença começou. Acessos de raiva foram comuns em toda a sua vida. Quando, por exemplo, discutia arte com alguém, ficava bastante exaltado se discordassem do seu ponto de vista. Muito curioso foi o seu comportamento em Borinage, entre 1878 e 1879. Depois de fracassar em sua tentativa de se tornar pastor, a profissão do pai, Van Gogh vai para essa região mineira da Bélgica a fim de atuar como evangelista. Lá, compadecido pelas condições subumanas nas quais viviam os trabalhadores das minas de carvão, ele decide que deveria suportar os mesmos sofrimentos que via naquela gente. Assim, Van Gogh doa seus pertences, não se alimenta, não cuida da higiene e dorme no chão, sem cobertor, passando frio no inverno. O que é mais evidente é que os episódios mais graves de sua doença ocorreram, na França, nos últimos dois anos de sua vida, período no qual, por coincidência ou não, Van Gogh pintou mais da metade de suas telas.

Em Arles, em 1888, aos 34 ou 35 anos de idade, Van Gogh provavelmente apresenta um episódio hipomaníaco. Em cartas para o seu irmão Theo, Van Gogh relata que se sente feliz, “muitíssimo bem”, “carregado de eletricidade”, “uma locomotiva de pintar”. Trabalha muito, mas não fica nem um pouco cansado: “eu faria mais um quadro nesta mesma noite e o terminaria”. “As ideias para o trabalho me vêm em abundância”, diz ele. O pintor Paul Gauguin, que estava com Van Gogh em Arles, na famosa “Casa Amarela”, fica impressionado com o ritmo da produção do colega.

Na véspera do Natal desse mesmo ano, Van Gogh tem uma grave crise, com as características de uma mania psicótica. Após uma discussão com Gauguin, Van Gogh corta o lóbulo de sua orelha esquerda e o entrega a uma prostituta. Mais tarde, é encontrado inconsciente em casa pela polícia. Perdera muito sangue, mas ainda está vivo. É então internado no hospital de Arles. Lá apresenta uma grande agitação -– quer se deitar com outros doentes, expulsa a freira que tenta cuidar dele – e é amarrado em seu leito.

No hospital de Arles, Van Gogh é assistido pelo Dr. Félix Rey, que não era alienista, termo este que corresponde ao que hoje chamamos de psiquiatra. O médico faz o seguinte diagnóstico: “uma espécie de epilepsia caracterizada por alucinações e por episódios de agitação confusa, cujas crises eram favorecidas por excessos de álcool”. O diretor da instituição, o Dr. Ulpar, também não alienista, diz, no entanto, que Van Gogh fora “acometido de mania aguda com delírio generalizado”. Em poucos dias, em 7 de janeiro de 1889, o pintor é considerado “curado” e recebe alta.

Entre janeiro e fevereiro de 1889, Van Gogh apresenta alucinações auditivas – “vozes” lhe fazem censuras – e delírios persecutórios – recusa-se a comer, pois acredita que querem envenená-lo. Em função disso, volta para o hospital de Arles, mas melhora rapidamente e logo sai da internação.

Em seguida, entre abril e maio de 1889, Van Gogh parece estar deprimido e pede para ser hospitalizado novamente. Tem “angústias”, “sentimentos de vazio e de cansaço na cabeça”, “melancolias” e “remorsos atrozes”. Pensa em suicídio. Sente-se incapaz de voltar a trabalhar e de ficar sozinho. A sua autoestima está baixa e não vê nenhum valor em sua obra artística. Dessa vez, é internado no asilo Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy. Lá é acompanhado por outro médico não alienista, o Dr. Peyron, que mantém o diagnóstico de mania, mas fala também em epilepsia. Quando melhora, Van Gogh recebe autorização para ir a Arles pegar telas que deixara ali, mas, na viagem, volta a alucinar, e, no retorno ao asilo Saint-Paul, tenta o suicídio ingerindo tinta.

No mês seguinte, junho de 1889, o quadro clínico muda. Ainda internado, Van Gogh conta ao irmão que tem nada a menos do que 12 telas em andamento ao mesmo tempo, o que é muito indicativo de uma virada para a hipomania. Contudo, em dezembro do mesmo ano, há a recidiva de um provável episódio de depressão, com sintomas psicóticos. Van Gogh apresenta sentimentos de culpa, pesadelos e emagrecimento, sente-se incapaz de ler e de coordenar o pensamento e novamente ingere tinta para se matar. Os sintomas depressivos vão até fevereiro de 1890 e, em maio desse ano, Van Gogh é outra vez tido como “curado”, recebendo alta de Saint-Paul, um ano após ter sido admitido na instituição.

Entre maio em junho de 1890, Van Gogh está em Auvers, onde, num curto espaço de tempo, apresenta amplas flutuações de humor, porém não é internado. Primeiro, mostra-se feliz e jovial nas cartas para o irmão e produz, de forma impressionante, 70 telas em 70 dias. Depois, diz se sentir um “fracassado”, para logo em seguida ser considerado “curado” pela terceira vez, agora pelo Dr. Gachet, também não alienista.

Todavia a história tem um triste fim. Em 27 de julho de 1890, Van Gogh sai cedo para o campo para pintar, como sempre fazia, mas só retorna à noite e está sangrando. Ele havia disparado um tiro contra o próprio peito. Morre na madrugada do dia 29, aos 37 anos, nos braços de Theo. É o irmão quem ouve as suas últimas palavras: “Falhei mais uma vez… Não chore, fiz isso para o bem de todos… A tristeza duraria para sempre”.

Do que sofria Van Gogh? Para a formulação de um diagnóstico médico, é fundamental pesquisar a história familiar. Na família do artista, houve, sem dúvida, diversos casos de transtorno mental. A irmã Wilhelmina morreu, aos 79 anos, internada em uma instituição psiquiátrica. Cor, o irmão mais moço, possivelmente cometeu suicídio, na África do Sul. O tio Cent tinha crises periódicas de “depressão”, nas quais ficava totalmente incapacitado para as atividades do dia a dia. Por fim, o irmão Theo também teria apresentado um quadro de depressão e, após a morte de Van Gogh, teve vários episódios de agressividade contra a esposa e o filho, os quais resultaram em internações psiquiátricas.

No decorrer dos anos, as manifestações psicopatológicas apresentadas por Van Gogh foram atribuídas a diversas condições clínicas, psiquiátricas e não psiquiátricas: entre elas, esquizofrenia, porfiria intermitente aguda, epilepsia parcial complexa, neurossífilis, intoxicação por digitálicos, intoxicação por chumbo, síndrome de Ménière, alcoolismo e transtorno bipolar.

Para Karl Jaspers (1977), Van Gogh tinha esquizofrenia. A hipótese do pai da psicopatologia fenomenológica, contudo, baseia-se mais em uma suposta mudança da técnica de pintura do artista a partir do “incidente da orelha” do que no registro de seus sinais e sintomas. É verdade que Van Gogh apresentou sintomas psicóticos, mas estes não são exclusivos da esquizofrenia. Além disso, diferentemente do que se observa na esquizofrenia, Van Gogh ficava assintomático entre as crises e até o fim a sua afetividade ficou preservada.

Porfiria intermitente aguda foi o diagnóstico formulado por Loftus e Arnold (1991). Essa doença se caracteriza por um distúrbio enzimático hereditário que acomete a pele e o sistema nervoso central. As crises têm início e final abruptos e são recorrentes, podendo cursar com convulsões, alucinações, depressão, delírio persecutório e ansiedade, além de dor abdominal, uma queixa frequente do artista. Van Gogh, no entanto, não apresentou prejuízo cognitivo nem perda da destreza manual, alterações encontradas na porfiria. Falam também contra essa hipótese a baixa prevalência dessa doença e a ausência de casos com esse diagnóstico na família de Van Gogh.

Gastaut (1956), por sua vez, acreditava que Van Gogh sofria de epilepsia parcial complexa. Esse tipo de epilepsia costuma estar relacionada ao lobo temporal e cursa com crises de curta duração de estreitamento da consciência, automatismos e, eventualmente, sintomas psicóticos. O principal indício de que esse seria o diagnóstico mais correto para o caso de Van Gogh é o fato de o artista jamais ter conseguido se lembrar do “incidente da orelha”, pois, na epilepsia parcial complexa, é muito comum haver, a posteriori, amnésia relativa às crises. Além disso, Van Gogh apresentava traços de um tipo de personalidade associado a patologias do lobo temporal, a personalidade gliscroide. Esses traços incluem hiperreligiosidade, hipergrafia e explosividade. Hipossexualidade, outra característica da personalidade gliscroide, porém, não era observada em Van Gogh, que se apaixonou várias vezes e assiduamente procurava prostitutas.

Por outro lado, pode-se dizer que as provas a favor do diagnóstico de epilepsia são apenas circunstanciais, indiretas, pois não há registros de que alguém tenha observado e descrito em Van Gogh ataques epilépticos, sejam parciais complexos ou mesmo do tipo grande mal. Também contradiz o diagnóstico de epilepsia a duração dos episódios apresentados por Van Gogh, os quais, embora muitas vezes curtos, eram bem mais longos do que costumam ser as crises epilépticas.

Van Gogh, de fato, contraiu sífilis, mas o diagnóstico de neurossífilis parece pouco provável. Em geral há um intervalo de muitos anos entre a infecção e o acometimento do sistema nervoso central e, no caso do artista, as alterações psicopatológicas talvez tenham se iniciado mesmo antes de ele começar a frequentar prostíbulos.

O predomínio da cor amarela nas telas de Van Gogh é a justificativa para a hipótese de intoxicação por digitálicos, substâncias que podem causar xantopsia, distúrbio visual em que os objetos parecem amarelados aos olhos do doente. Contudo não existe evidência de que Van Gogh tenha sido medicado com digitálicos. Além disso, o próprio artista dizia que usar o amarelo era uma opção consciente para simbolizar o Sol, Deus e a vida.

O chumbo é encontrado na tinta e pode ser absorvido pela pele. Além disso, Van Gogh, mais de uma vez, ingeriu tinta em tentativas de suicídio. Uma intoxicação por esse metal, afetando o sistema nervoso, pode levar a diversas manifestações neuropsiquiátricas, contudo estas costumam ter um curso contínuo e, no caso do pintor, as alterações emocionais e do comportamento que ele apresentava tinham um caráter predominantemente episódico.

A síndrome de Ménière se caracteriza por vertigem, perda auditiva e zumbido, e este último sintoma explicaria, para os defensores dessa hipótese diagnóstica, o “episódio da orelha”. Obviamente, esse diagnóstico não dá conta de todos os outros distúrbios encontrados no caso de Van Gogh.

Van Gogh abusava de bebidas alcoólicas, especialmente absinto. Assim, alcoolismo é outro diagnóstico proposto para o artista. É difícil afastar essa hipótese, mas, por outro lado, o alcoolismo pode ser uma condição comórbida de outras, visto que o álcool pode causar ou desencadear crises epilépticas e é usado de forma nociva por indivíduos que sofrem de diversos transtornos mentais.

No entanto, transtorno bipolar parece ser a hipótese mais forte para o diagnóstico de Van Gogh. Segundo Jamison e Wyatt (1992), são diversos os elementos encontrados no caso do pintor que são típicos desse transtorno mental, como um padrão cíclico de episódios afetivos, o retorno à normalidade entre as crises, a ausência de deterioração cognitiva e padrões alterados de sono e energia. Sintomas psicóticos e abuso de álcool não são exclusivos do transtorno bipolar, mas comumente ocorrem nesse transtorno mental. Ainda de acordo com esses autores, a história familiar de Van Gogh é bastante consistente com esse diagnóstico. Por fim, eles chamam a atenção para a possível relação entre o transtorno bipolar e a criatividade, como um argumento a mais a favor dessa hipótese diagnóstica.

Então, Van Gogh deveria ter tomado lítio, o medicamento número um no tratamento do transtorno bipolar? Em primeiro lugar, não poderia, pois as propriedades farmacoterápicas do lítio só foram descobertas em 1949, mais de meio século após a morte do artista. Estudos mostram que o lítio reduz significativamente as chances de suicídio, mas diminui a criatividade em indivíduos com transtorno bipolar. Assim, se Van Gogh tivesse sido tratado com lítio, provavelmente teria vivido bem mais, porém agora teríamos muito menos obras-primas para admirar.

Referências:

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Loftus LS, Arnold WN. Vincent Van Gogh’s illness: acute intermittent porphyria? BMJ 1991; 303(6817): 1589-91.

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TEXTO RETIRADO DO SITE: http://genmedicina.com.br/2017/12/08/van-gogh-era-mesmo-bipolar-dr-elie-cheniaux/

Psiquiatria forense: quando o Direito olha para a saúde mental

Psiquiatria forense: quando o Direito olha para a saúde mental

Um corpo de mulher é encontrado em um apartamento: a equipe chega, cerca o local, recolhe com pinça objetos no entorno para tentar identificar digitais e os guarda em sacos especiais, usa uma luz especial para enxergar possíveis rastros de esperma, verifica pegadas, conversa com os vizinhos. Emocionante, não? Cena digna dos melhores seriados de investigação policial? E para por aí: isso não é psiquiatria forense.

“Há muita romantização e fetiches nessas cenas, que misturam as funções do psiquiatra forense às de um legista, por exemplo. A vida real é totalmente oposta à apresentada nos seriados”, afirma a Dra. Jacqueline Segre, psiquiatra forense e uma das responsáveis pela pós-graduação na área oferecida pela Universidade de São Paulo. “E mais, em tese, toda psiquiatria é forense, visto que todos os psiquiatras se deparam com questões que podem tangenciar questões jurídicas e éticas”, diz. “Forense” é aquilo relativo ao foro, tribunais e à justiça.

Então, quais as atribuições da psiquiatria forense?

 

De assassinato a impasses familiares

O profissional que se especializa na área pode atuar, sim, no âmbito criminal, mas não com as fantasias apresentadas pela televisão. “Sobre o homem que esfaqueou o presidente Jair Bolsonaro, por exemplo: muitos na mídia aventaram a possibilidade de ele ter alguma doença mental, então, em um caso desses, somos acionados para avaliar esse indivíduo. Até porque não basta ele ter a doença, ou todos os doentes teriam algo como uma ‘carta branca’ para cometer crimes. Precisamos mostrar se há correlação entre a condição da pessoa – se é que existe a condição – ao crime cometido”, afirma Dra. Jacqueline.

Além do conhecimento médico, é preciso que este tipo de psiquiatra conheça também os meandros do Direito: “Para mostrar se a patologia do criminoso tem alguma relação com o delito que ele cometeu, temos que elucidar uma questão jurídica, então é preciso ter um linguajar médico mais acessível aos operadores de Direito – juízes, advogados. Fazemos uma transcrição de nossas observações, mas praticamente ‘traduzimos’ os aspectos mais técnicos”, completa.

psiquiatria forense pode, também, atuar na área previdenciária, quando, por exemplo, uma pessoa alega que não consegue mais trabalhar por ter certa doença, como depressão. O profissional, então, averigua para confirmar ou não a condição – a confirmação propicia que a pessoa receba uma aposentadoria, por exemplo. Casos mais complexos, como os de indivíduos que processam o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), exigem o crivo do psiquiatra forense.

Na área de família, a especialidade pode averiguar impasses sobre a guarda dos filhos quando for alegada a impossibilidade de uma das partes ter a guarda compartilhada, devido à possível doença mental, entre outros. Já na civil, testamentos podem ser cancelados se for comprovada a não capacidade da pessoa muito idosa, por exemplo. “Há casos de perícias indiretas, em que somos chamados depois que a pessoa já faleceu porque seu testamento foi considerado indevido por alguns dos parentes. Para esse estudo, precisamos verificar documentos médicos, históricos, prontuários e entrevistar parentes para conseguirmos comprovar ou não a condição do falecido na época da elaboração do testamento”, diz Dra. Jacqueline.

 

O peso da ética

Os dilemas éticos estão sempre presentes: pode-se internar paciente com problema mental contra a vontade dele, passando por cima de sua autonomia? Há, também, o lado do médico: até onde ele pode ir; até onde, como autoridade médica, pode impor seu conhecimento?

“Atuamos sob a Lei nº 10.216 de 6 de abril de 2001, também conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, que determina as internações involuntárias. Um paciente com risco de suicídio, que tem problema mental e câncer, mas se recusa a passar por uma cirurgia para tratar o câncer, deve ter a vontade respeitada? Ele tem condições de responder por si? Nesses casos, somos chamados a averiguar”, afirma.

Ela explica que as situações são, por vezes, profundas e até filosóficas, mas que a perícia tem que ser categórica, na medida do possível: “A resposta que temos que dar ao juiz é ‘sim’ ou ‘não’, é algo quase binário muitas vezes. Então temos que aprender a lidar com todas as complexidades e ir traduzindo-as, é como uma habilidade que você vai aprimorando com os anos de profissão”, reconhece Dra. Jacqueline.

psiquiatria forense, portanto, flerta com as áreas do Direito e conhece suas terminologias – não todas as leis, especificamente. Um pouco mais humanizada, ela tenta ver algo além do simples transtorno mental para transmitir da forma mais inteligível os acontecimentos, as situações limítrofes. “Como podemos criar um raciocínio um pouco mais saudável do que mimetizar um bom senso? Este é nosso treinamento diário”, completa a professora.

 

Área possível a todos os médicos

psiquiatria forense é uma especialidade nova; tem cerca de dez anos no Brasil. De fato, é uma subespecialidade da psiquiatria, como são a infantil e a psicogeriátrica, entre outras.

“A área não tem muitos centros de especialização; o interessado pode cumprir três anos de residência em psiquiatria e, em seguida, prestar nova prova para o R4 para a forense. No complexo todo do HC, até 2018, era apenas uma vaga por ano; a partir de 2019, são duas”, diz Dra. Jacqueline.

Há, também, o curso de pós-graduação – o indivíduo formado em Medicina pode cursá-lo para se tornar um especialista em psiquiatria forense.

A Escola de Educação Permanente do HC oferece a especialização na área – em 2019, ela passa a ter duração de dois anos, e não um, como era até então. O curso exige TCC e oferece atividade prática em perícias, e os alunos que anteriormente o cursaram em um ano podem agora completar os estudos com este segundo e tornarem-se especialistas.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://eephcfmusp.org.br/portal/online/psiquiatria-forense-direito-saude-mental/