Saúde Mental – Página: 2 – Widoctor

Pesquisa indica relação entre esgotamento e alta rotatividade de profissionais na atenção primária

Pesquisa indica relação entre esgotamento e alta rotatividade de profissionais na atenção primária

Uma pesquisa realizada pela Universidade Católica de São Francisco, publicada na edição de 2019 da revista Annals of Family Medicine, analizou os níveis de esgotamentos dos médicos de atenção primária.

O propósito do estudo foi analisar qualitativamente os níveis de burnout (esgotamento) entre os médicos e funcionários da atenção primária, que se mostraram assustadoramente altos, colaborando com a crença generalizada de que o esgotamento e a falta de engajamento dos funcionários contribuem para a alta rotatividade da força de trabalho.

O estudo utilizou uma coorte longitudinal usando dados de pesquisa sobre burnout e engajamento de funcionários coletados em 2013 e 2014 de 740 médicos de atenção primária e equipe em 2 sistemas de saúde de San Francisco, combinados com dados de escala de emprego de 2016.

Os resultados mostraram que a prevalência do burnout, baixo engajamento e rotatividade foram elevados, com 53% dos clínicos e funcionários relatando burnout. Em contrapartida, apenas 32% dos clínicos e 35% dos funcionários relataram alto engajamento. Foi mostrado também uma forte tendência verificada no estudo, em que o baixo envolvimento previu a rotatividade médica.

Desse modo, o artigo conclui que as altas taxas de burnout e rotatividade na atenção primária são problemas correlacionados, mostrando que as descobertas fornecem evidências de que o burnout contribui para a rotatividade entre os médicos de cuidados primários. Embora a redução do desgaste do clínico possa ajudar a diminuir as taxas de rotatividade, as organizações de saúde e os formuladores de políticas preocupados com a rotatividade de funcionários na atenção primária precisam entender as causas multifatoriais da rotatividade para desenvolver estratégias eficazes de retenção para médicos e funcionários.

 

Fonte:   http://www.annfammed.org/content/17/1/36.short?related-urls=yes&legid=annalsfm;17/1/36&cited-by=yes&legid=annalsfm;17/1/36

Tratamento com realidade virtual reduz fobia social

Tratamento com realidade virtual reduz fobia social

A fobia social é um transtorno de ansiedade que atinge 13% da população brasileira, segundo estimativas apresentadas em 2017 pelo Congresso Brasileiro de Psiquiatria. O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) criou um novo tratamento para fobia social por meio da realidade virtual. O Jornal da USP no Ar conversou sobre o método com a doutora Cristiane Maluhy Gebara, psicóloga, pesquisadora e professora do curso de Terapia Comportamental Cognitiva em Saúde Mental do Programa de Ansiedade do HC.

Segundo a psicóloga, as pessoas que possuem fobia social têm ansiedade e desconforto intenso ou até evitam exposições públicas e interação com pessoas ou autoridades. Os sintomas apresentados podem ser: taquicardia, palpitações, sudorese, tremor, rubor facial, boca seca, autodepreciação, antecipação negativa – um cenário de sofrimento excessivo capaz de interferir na vida desses pacientes, ressalta a professora.

A simulação através da realidade virtual em 3D, já disponível em aplicativo chamado Socialfobia, é um tratamento aplicado por profissionais em consultórios e permite que os pacientes enfrentem as situações mais temidas por eles. A técnica disponibiliza diferentes cenários, como um diálogo com alguém desconhecido, possibilitando a exposição da pessoa ao caso sem que haja constrangimento. De acordo com Cristiana, o processo é repetido e gradual, mas já manifesta resultados positivos: em média, 75% da ansiedade social dos pacientes submetidos ao novo tratamento foi diminuída.

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://jornal.usp.br/ciencias/tratamento-com-realidade-virtual-reduz-fobia-social/

Spray nasal à base de anestésico é aprovado nos EUA para tratar depressão

Spray nasal à base de anestésico é aprovado nos EUA para tratar depressão

A FDA (equivalente norte-americana à Anvisa) aprovou seu primeiro novo tipo de tratamento de depressão em décadas, um medicamento de spray nasal baseado em cetamina sedativa.

O novo remédio, licenciado pela divisão farmacológica da Johnson & Johnson, a Janssen Pharmaceuticals, não é exatamente cetamina. Ele é derivado da esketamina, um parente químico da cetamina. O medicamento será vendido sob a marca Spravato.

Durante anos, a cetamina tem sido prescrita off-label (utilização não indicada no rótulo) para pessoas com depressão severa e idealização suicida, com alguns pacientes experimentando alívio em questão de horas. É importante apontar que esses são, normalmente, pacientes que não responderam bem a outros tratamentos. O spray nasal será aprovado para esse mesmo grupo seleto de pacientes.

“Existe uma necessidade de longa data por tratamentos efetivos extras para a depressão resistente a tratamento, uma condição séria e com risco de vida”, disse em um comunicado Tiffany Farchione, diretora interina da Divisão de Produtos Psiquiátricos do Centro de Avaliação e Pesquisa de Drogas, da FDA. “Ensaios clínicos controlados que estudaram a segurança e eficácia dessa droga, junto com uma revisão cuidadosa por meio do processo de aprovação de drogas da FDA, incluindo uma discussão robusta com nossos comitês consultivos externos, foram importantes para a nossa decisão de aprovar esse tratamento.”

De acordo com a FDA, a esketamina da J&J será aprovada para pessoas com depressão resistente a tratamentos, ou seja, pessoas que não responderam a pelo menos dois outros medicamentos antidepressivos. O remédio precisará ser tomado junto com um antidepressivo padrão, e cada dose será aplicada sob supervisão médica rigorosa, com os pacientes sendo monitorados por pelo menos duas horas antes de poderem deixar a clínica.

Dennis Charney, reitor da Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, foi um dos primeiros cientistas a investigar e encontrar evidências dos benefícios da cetamina no tratamento da depressão e da idealização suicida; mais tarde, ele se tornou um dos coinventores do spray nasal (Charney, a Escola de Monte Sinai e outros têm direitos de patente sobre a droga, que desde então foram licenciados à J&J). Charney disse ao Gizmodo que o Spravato dará às pessoas que anteriormente não podiam arcar com os custos da cetamina uma nova opção de tratamento.

“Eu sou obviamente tendencioso aqui, mas este é, sinceramente, um divisor de águas para o tratamento da depressão”, disse Charney ao Gizmodo, repetindo um chavão compartilhado por muitos no campo. “Quer dizer, estamos falando de potencialmente milhões de pessoas que podem ser capazes de se beneficiar desse tratamento se não tiverem respondido a outros.”

Como as seguradoras de saúde normalmente não cobrem a cetamina quando usada como antidepressivo, os pacientes têm sido forçados a pagar centenas de dólares por infusão do próprio bolso (o número de infusões totais necessárias pode variar, dependendo do paciente e sua resposta, mas muitas vezes é meia dúzia ou mais por cada ciclo de tratamento). A J&J ainda não respondeu a um pedido de comentários do Gizmodo sobre o preço do Spravato.

A decisão da FDA vem na sequência de uma votação quase unânime de um comitê consultivo para aprovar o medicamento no mês passado. Embora a maioria dos especialistas tenha concordado que os benefícios da cetamina superavam qualquer risco potencial, efeitos colaterais de curta duração como desorientação, aumento da pressão arterial e dores de cabeça têm sido comumente encontrados.

Esses mesmos especialistas, mesmo aqueles que aprovaram a droga, também apontaram a falta de pesquisa sobre seus riscos a longo prazo como um tratamento da depressão, como, por exemplo, pacientes desenvolvendo um transtorno por uso de substâncias ou até dano cerebral — ambos vistos em usuários recreativos. E eles pediram pesquisas de longo prazo para manter o controle sobre novos pacientes usando cetamina e para observar esses riscos.

Charney, que disse que não esteve envolvido no desenvolvimento clínico do Spravato pela J&J, acredita que é importante ficar atento aos riscos da cetamina. Mas ele apontou que as dosagens de cetamina normalmente dadas a pacientes com depressão são, geralmente, muito menores do que o que as pessoas tomam de forma recreativa.

“É algo que pudemos observar durante uns dois anos já. E os clínicos com quem conversei e eu não vimos isso (acontecendo) com os pacientes”, afirmou. “Pelo menos até agora, o risco de abuso parece ser bem baixo.”

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://gizmodo.uol.com.br/cetamina-spray-nasal-aprovado-eua-depressao/

Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum?

Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum?

Tabu na sociedade, o suicídio e sua repercussão envolvem diferentes pontos de vista. Nos últimos tempos, foi possível acompanhar algumas delas; a série 13 Reasons Why, que mostrou a história de uma adolescente e suas razões para tirar a própria vida; o jogo Baleia Azul, baseado em tarefas que resultavam em automutilações compartilhadas nas redes sociais do mundo todo, e até mesmo os casos de estudantes de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), uma das mais renomadas do país, que tentaram suicídio e mostraram como eles estão inseridos em um meio de grandes vulnerabilidades.

Dados apurados pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que faz atendimento de apoio emocional, 32 brasileiros se suicidam por dia (1 a cada 45 minutos). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos.

O que pode ficar difícil de entender nisso tudo é como buscar ajuda se a pessoa não sabe que pode ser ajudada ou como é possível ajudar um amigo ou familiar se as pessoas não sabem quais são os sinais e a abordagem mais adequada. Sensível ao problema que afeta uma parcelas dos jovens brasileiros, a equipe de jornalismo do Quero Bolsa, principal plataforma para inclusão de estudantes no ensino superior com bolsa de estudo, ouviu especialistas para ajudar os leitores a entender o problema e agir caso reconheça os sinais em alguém da sua rede de relacionamento.

Os números sobre o suicídio

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em suas orientações sobre como abordar esse tema, mostra que as estatísticas sobre o suicídio são difíceis de ser buscadas e comprovadas de uma forma geral. Nem sempre os atestados de óbito trazem a natureza da morte, por isso a grande dificuldade de saber se as mortes foram por homicídio, suicídio ou até mesmo acidente. Os métodos da pesquisa também podem variar conforme cada país, por isso, os dados precisam ser divulgados com responsabilidade.

Outro ponto levantado por essa publicação da ABP é que a estimativa de tentativas de suicídio supera o número de suicídios em pelo menos dez vezes.

Fatores que podem desencadear o suicídio entre estudantes

Atualmente, o suicídio é a terceira causa de morte na faixa dos 15 e 35 anos e, nas últimas décadas, tem aumentado o percentual entre os jovens em todo o mundo. Na perspectiva da saúde pública, ele é um fenômeno social de distribuição bastante irregular, por isso, fica difícil definir uma causa única. O que existe, de fato, são situações de vulnerabilidade que podem acometer as pessoas e fazer com elas vejam no suicídio a única alternativa.

Para a Dra. Juliana Bernardo Vicente Alves, médica psiquiatra voluntária no NAE (Núcleo de Apoio aos estudantes da Unifesp) e no Núcleo Trans (Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans Professor Roberto Farina Unifesp), existem alguns fatores de risco para o suicídio consolidados para toda a população, inclusive, adolescentes: gênero masculino, não ter um relacionamento estável, extremos de situação socioeconômica, residir em área urbana, ser ateu, isolamento social, situação de perdas recentes, ter história familiar de suicídio, ter tido uma tentativa anterior de suicídio, ter doença física incapacitante, etc.

A questão química também deve ser considerada. Sabe-se que o cérebro funciona às custas de neurotransmissores e que eles têm uma importância muito grande no ato final do suicídio. A serotonina é responsável pelas atitudes ligadas ao impulso e a noradrenalina tem um papel fundamental no interesse que as coisas despertam no indivíduo. Diversos fatores podem influenciar tal funcionamento como, por exemplo, as patologias psiquiátricas. Entre os suicidas, estima-se que 15% apresentam depressão grave, 15% alcoolismo e 10% esquizofrenia. Outro aspecto que chama atenção é o notório e crescente diagnóstico de transtornos de personalidade nesses indivíduos.

“Suicídio: informando para prevenir”, cartilha publicada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria — Foto: Reprodução

“Suicídio: informando para prevenir”, cartilha publicada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria — Foto: Reprodução

Os estudantes e os adolescentes apresentam características inerentes à fase de transição em que vivem. Eles podem apresentar fatores de risco adicionais para o suicídio: a tendência natural para se comunicar por meio da ação (uso de substâncias psicoativas, por exemplo); as mudanças biopsicossociais anteriores ao início da vida adulta (inclusive com uma maior instabilidade emocional) e o fato de estar inserido em uma sociedade que cobra, cada vez mais precocemente, responsabilidades e desempenhos máximos em uma atmosfera de grande competitividade.

A campanha Setembro Amarelo é uma oportunidade de falar sobre o assunto. Ajudamos a quebrar um tabu e a prevenir o suicídio. Carlos Correia, voluntário no CVV

O que o curso de Medicina tem de tão complicado

Cursos como os de Medicina lidam com muita pressão. Eles são, na maioria das vezes, em período integral, por isso, requerem uma grande dedicação dos estudantes e possuem uma rotina muito desgastante.

Quem faz o curso, geralmente, sonhou muito com isso e passou muitos anos fazendo cursinho para conquistar a tão almejada aprovação. Muitas vezes, aquelas grandes expectativas se transformam em uma realidade frustrante, cheia de cobranças e responsabilidades gigantescas, afinal, esses estudantes estão lidando com o fato de assistirem às aulas, fazerem atendimentos, provas e procedimentos e cuidando de outra vida humana.

Além disso, a carga emocional administrada é grande porque esse estudante também está passando por diversas mudanças, como a mudança de cidade (por causa da própria faculdade), a saída da casa dos pais para estudar, a pressão pelo alto desempenho tanto dos familiares (muitos são os primeiros médicos na família) quanto dos próprios colegas de sala.

No decorrer do curso, é possível também vivenciar situações da profissão, principalmente nos últimos anos, com o internato. Nesse período, a carga horária dentro de hospitais aumenta assim como o contato com pacientes e o sofrimento deles com os problemas de saúde. A prova de residência também se aproxima, fazendo com que a ansiedade cresça e as horas de estudo sejam prolongadas. A saúde emocional pode ser assim abalada, já que a vulnerabilidade é maior.

O curso acaba exigindo uma saúde integral do aluno (mental e física) e pode desencadear problemas como a depressão, transtorno bipolar, dependência de álcool e de outras drogas e muita ansiedade.

Temos que ampliar o nosso ouvir para entender melhor as mensagens indiretas e os pedidos de ajuda. Carlos Correia, voluntário no CVV

Depois de formado, as coisas também não são fáceis. A taxa de suicídio entre médicos é 70% maior que na população em geral, segundo dados do Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Fatores que contribuem para esse alto número são o grande estresse profissional, o fato de lidarem com tragédias humanas e o fácil acesso a medicamentos.

Sinais de alerta

Alguns sinais e comportamentos podem indicar se a pessoa está em uma situação limite, como os sintomas depressivos ou mudanças abruptas de comportamento.

É preciso ficar alerta quando a pessoa:

  • Insinua que é um fardo para os demais e que em breve deixará de prejudicar os outros;
  • Relata que a vida não tem sentido de ser vivida e que a sua morte seria um alívio para todos;
  • Tem uma preocupação com o efeito do suicídio sobre os familiares;
  • Verbaliza uma ideação suicida;
  • Prepara um testamento ou uma carta de despedida;
  • Está próxima de uma crise vital (luto; cirurgia iminente);
  • Apresenta pessimismo ou falta global de esperança;
  • Não consegue se recuperar após perdas ou rompimentos em relacionamentos afetivos.

O que as pessoas que estão ao redor podem fazer?

Segundo a Dra. Juliana, deve-se acolher essa pessoa, abordando o tema de forma emocionalmente neutra e pontuando que existem formas de ajudá-la. Algumas perguntas simples podem ajudar a esclarecer se existe uma possível ideia suicida:

  • Tem perdido prazer nas coisas rotineiras, ou perdido sentido da vida?
  • Perdeu a esperança, seria melhor morrer?
  • Sente-se útil?
  • Tem esperança no futuro?
  • Às vezes, pensa em simplesmente sumir?
  • Pensa que é melhor morrer?
  • Quer ser ajudado?

Uma vez identificado, é importante não desqualificar o sofrimento, mantendo uma atitude não crítica e não julgadora. É fundamental orientar sobre as possibilidades de apoio existentes, como os serviços de ajuda. É importante também acionar os familiares dessa pessoa. No caso de risco de suicídio iminente, é necessária uma intervenção imediata buscando um serviço de urgência para uma avaliação melhor.

“90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos, desde que existam condições mínimas para oferta de ajuda voluntária ou profissional”

Mitos e verdades

O estigma é um dos grandes vilões do suicídio. Ele faz com que muitas pessoas não busquem ajuda e não recebam o auxílio adequado.

Algumas posturas e crenças são errôneas e devem ser evitadas. Frases como: “Quem quer se matar se mata mesmo”; “Está ameaçando para manipular”; “Na próxima, faça de verdade”; “Quem se mata é diferente de quem apenas fica tentando”; “Quem quer se matar mesmo, não fica ameaçando”; “Quem já teve várias tentativas não quer morrer mesmo”; entre outras, levam a uma conduta muito equivocada.

Não se deve menosprezar nenhuma tentativa de suicídio. Segundo a Dra. Juliana, de 15% a 25% dos que tentaram suicídio cometem outra tentativa em 1 ano e 10% conseguem se matar em 10 anos. Sabe-se também que 80% das pessoas que tentaram suicídio avisaram de alguma forma sua intenção. Infelizmente, os números têm crescido de forma significativa mundialmente.

Outro mito sobre o suicídio é acreditar que não se deve abordar o tema diretamente. Falar sobre ele não induz ao suicídio. Deve-se questionar, de uma forma neutra e empática (colocando-se no lugar do outro), sobre o pensamento e o planejamento suicida em pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade. Também é importante falar sobre o assunto com a finalidade de educar, prevenir e orientar a população. A educação e a desmistificação do tema são fundamentais para diminuir esse fenômeno.

Por muito tempo não se falou abertamente sobre o suicídio por medo do chamado “Efeito Werther”. Muitos acreditam que falar sobre o assunto poderia inspirar ondas de casos por imitação. O nome desse efeito vem do protagonista do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, publicado em 1774, com a história de um rapaz que tira a própria vida após uma desilusão amorosa e cujo exemplo teria causado outros suicídios de jovens.

Algumas iniciativas para combater o suicídio

Na Unifesp, há um trabalho bastante interessante do Núcleo de Apoio aos Estudantes para tentar identificar os alunos que estão em situação de maior vulnerabilidade. A Dra. Juliana trabalha como médica psiquiatra na triagem e atendimentos dessas pessoas. No NAE, são realizadas diversas intervenções (como acompanhamento psicológico e psiquiátrico) com o propósito de impedir que possíveis alterações psíquicas levem a algum comprometimento do aluno. O serviço também tem feito, junto a vários departamentos da Unifesp, encontros e eventos para promover uma psicoeducação aos graduandos da universidade: são feitas palestras sobre a qualidade de vida ao longo da graduação, sobre o que são as doenças mentais e quais suas relações com o suicídio. Mostram-se também dados epidemiológicos sobre o suicídio, sobre os recursos disponíveis que o aluno tem dentro da universidade (para buscar ajuda se necessário), entre outros. Trata-se de um núcleo com a finalidade de educar e assistir o aluno que apresenta alguma demanda em relação à sua saúde mental.

A fraternidade é a vacina para tudo. Se a gente conseguisse ser mais fraterno e aprendesse a ouvir e respeitar o outro, as coisas poderiam ser diferentes. Carlos Correia, voluntário no CVV

Outra iniciativa é o projeto da Dra. Natália Cruz Rufino, médica psiquiatra vinculada ao Cria-Unifesp (Centro de Referência da Infância e da Adolescência), que avalia os fatores de risco e proteção para tentativa de suicídio na adolescência e suas implicações na aderência ao tratamento.

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo lançou uma cartilha sobre Saúde Mental voltada para médicos jovens e estudantes de Medicina. A ideia é que isso ajude a identificar, acompanhar e dar suporte aos transtornos mentais de uma forma mais precoce para prevenir o suicídio na área médica.

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/especial-publicitario/quero-bolsa/bolsas-de-estudo/noticia/2018/08/22/medicina-por-que-o-suicidio-nesse-curso-e-tao-comum.ghtml

O que é TDAH?

O que é TDAH?

O que é o TDAH?
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e freqüentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Em inglês, também é chamado de ADD, ADHD ou de AD/HD.

Existe mesmo o TDAH?
Ele é reconhecido oficialmente por vários países e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em alguns países, como nos Estados Unidos, portadores de TDAH são protegidos pela lei quanto a receberem tratamento diferenciado na escola.

Não existe controvérsia sobre a existência do TDAH?
Não, nenhuma. Existe inclusive um Consenso Internacional publicado pelos mais renomados médicos e psicólogos de todo o mundo a este respeito. Consenso é uma publicação científica realizada após extensos debates entre pesquisadores de todo o mundo, incluindo aqueles que não pertencem a um mesmo grupo ou instituição e não compartilham necessariamente as mesmas idéias sobre todos os aspectos de um transtorno.

Por que algumas pessoas insistem que o TDAH não existe?
Pelas mais variadas razões, desde inocência e falta de formação científica até mesmo má-fé. Alguns chegam a afirmar que “o TDAH não existe”, é uma “invenção” médica ou da indústria farmacêutica, para terem lucros com o tratamento.

No primeiro caso se incluem todos aqueles profissionais que nunca publicaram qualquer pesquisa demonstrando o que eles afirmam categoricamente e não fazem parte de nenhum grupo científico. Quando questionados, falam em “experiência pessoal” ou então relatam casos que somente eles conhecem porque nunca foram publicados em revistas especializadas. Muitos escrevem livros ou têm sítios na Internet, mas nunca apresentaram seus “resultados” em congressos ou publicaram em revistas científicas, para que os demais possam julgar a veracidade do que dizem.

Os segundos são aqueles que pretendem “vender” alguma forma de tratamento diferente daquilo que é atualmente preconizado, alegando que somente eles podem tratar de modo correto.

Tanto os primeiros quanto os segundos afirmam que o tratamento do TDAH com medicamentos causa conseqüências terríveis. Quando a literatura científica é pesquisada, nada daquilo que eles afirmam é encontrado em qualquer pesquisa em qualquer país do mundo. Esta é a principal característica destes indivíduos: apesar de terem uma “aparência” de cientistas ou pesquisadores, jamais publicaram nada que comprovasse o que dizem.

Veja um texto a este respeito e a resposta dos Professores Luis Rohde e Paulo Mattos:

Why I Believe that Attention Deficit Disorder is a Myth

Porque desinformação, falta de raciocínio científico e ingenuidade constituem uma mistura perigosa

O TDAH é comum?
Ele é o transtorno mais comum em crianças e adolescentes encaminhados para serviços especializados. Ele ocorre em 3 a 5% das crianças, em várias regiões diferentes do mundo em que já foi pesquisado. Em mais da metade dos casos o transtorno acompanha o indivíduo na vida adulta, embora os sintomas de inquietude sejam mais brandos.

Quais são os sintomas de TDAH?
O TDAH se caracteriza por uma combinação de dois tipos de sintomas:

1) Desatenção

2) Hiperatividade-impulsividade
O TDAH na infância em geral se associa a dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. As crianças são tidas como “avoadas”, “vivendo no mundo da lua” e geralmente “estabanadas” e com “bicho carpinteiro” ou “ligados por um motor” (isto é, não param quietas por muito tempo). Os meninos tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas todos são desatentos. Crianças e adolescentes com TDAH podem apresentar mais problemas de comportamento, como por exemplo, dificuldades com regras e limites.

Em adultos, ocorrem problemas de desatenção para coisas do cotidiano e do trabalho, bem como com a memória (são muito esquecidos). São inquietos (parece que só relaxam dormindo), vivem mudando de uma coisa para outra e também são impulsivos (“colocam os carros na frente dos bois”). Eles têm dificuldade em avaliar seu próprio comportamento e quanto isto afeta os demais à sua volta. São freqüentemente considerados “egoístas”. Eles têm uma grande freqüência de outros problemas associados, tais como o uso de drogas e álcool, ansiedade e depressão.

Quais são as causas do TDAH?
Já existem inúmeros estudos em todo o mundo – inclusive no Brasil – demonstrando que a prevalência do TDAH é semelhante em diferentes regiões, o que indica que o transtorno não é secundário a fatores culturais (as práticas de determinada sociedade, etc.), o modo como os pais educam os filhos ou resultado de conflitos psicológicos.

Estudos científicos mostram que portadores de TDAH têm alterações na região frontal e as suas conexões com o resto do cérebro. A região frontal orbital é uma das mais desenvolvidas no ser humano em comparação com outras espécies animais e é responsável pela inibição do comportamento (isto é, controlar ou inibir comportamentos inadequados), pela capacidade de prestar atenção, memória, autocontrole, organização e planejamento.

O que parece estar alterado nesta região cerebral é o funcionamento de um sistema de substâncias químicas chamadas neurotransmissores (principalmente dopamina e noradrenalina), que passam informação entre as células nervosas (neurônios).
Existem causas que foram investigadas para estas alterações nos neurotransmissores da região frontal e suas conexões.

A) Hereditariedade:
Os genes parecem ser responsáveis não pelo transtorno em si, mas por uma predisposição ao TDAH. A participação de genes foi suspeitada, inicialmente, a partir de observações de que nas famílias de portadores de TDAH a presença de parentes também afetados com TDAH era mais freqüente do que nas famílias que não tinham crianças com TDAH. A prevalência da doença entre os parentes das crianças afetadas é cerca de 2 a 10 vezes mais do que na população em geral (isto é chamado de recorrência familial).

Porém, como em qualquer transtorno do comportamento, a maior ocorrência dentro da família pode ser devido a influências ambientais, como se a criança aprendesse a se comportar de um modo “desatento” ou “hiperativo” simplesmente por ver seus pais se comportando desta maneira, o que excluiria o papel de genes. Foi preciso, então, comprovar que a recorrência familial era de fato devida a uma predisposição genética, e não somente ao ambiente. Outros tipos de estudos genéticos foram fundamentais para se ter certeza da participação de genes: os estudos com gêmeos e com adotados. Nos estudos com adotados comparam-se pais biológicos e pais adotivos de crianças afetadas, verificando se há diferença na presença do TDAH entre os dois grupos de pais. Eles mostraram que os pais biológicos têm 3 vezes mais TDAH que os pais adotivos.

Os estudos com gêmeos comparam gêmeos univitelinos e gêmeos fraternos (bivitelinos), quanto a diferentes aspectos do TDAH (presença ou não, tipo, gravidade etc…). Sabendo-se que os gêmeos univitelinos têm 100% de semelhança genética, ao contrário dos fraternos (50% de semelhança genética), se os univitelinos se parecem mais nos sintomas de TDAH do que os fraternos, a única explicação é a participação de componentes genéticos (os pais são iguais, o ambiente é o mesmo, a dieta, etc.). Quanto mais parecidos, ou seja, quanto mais concordam em relação àquelas características, maior é a influência genética para a doença. Realmente, os estudos de gêmeos com TDAH mostraram que os univitelinos são muito mais parecidos (também se diz “concordantes”) do que os fraternos, chegando a ter 70% de concordância, o que evidencia uma importante participação de genes na origem do TDAH.

A partir dos dados destes estudos, o próximo passo na pesquisa genética do TDAH foi começar a procurar que genes poderiam ser estes. É importante salientar que no TDAH, como na maioria dos transtornos do comportamento, em geral multifatoriais, nunca devemos falar em determinação genética, mas sim em predisposição ou influência genética. O que acontece nestes transtornos é que a predisposição genética envolve vários genes, e não um único gene (como é a regra para várias de nossas características físicas, também). Provavelmente não existe, ou não se acredita que exista, um único “gene do TDAH”. Além disto, genes podem ter diferentes níveis de atividade, alguns podem estar agindo em alguns pacientes de um modo diferente que em outros; eles interagem entre si, somando-se ainda as influências ambientais. Também existe maior incidência de depressão, transtorno bipolar (antigamente denominado Psicose Maníaco-Depressiva) e abuso de álcool e drogas nos familiares de portadores de TDAH.

B) Substâncias ingeridas na gravidez:
Tem-se observado que a nicotina e o álcool quando ingeridos durante a gravidez podem causar alterações em algumas partes do cérebro do bebê, incluindo-se aí a região frontal orbital. Pesquisas indicam que mães alcoolistas têm mais chance de terem filhos com problemas de hiperatividade e desatenção. É importante lembrar que muitos destes estudos somente nos mostram uma associação entre estes fatores, mas não mostram uma relação de causa e efeito.

C) Sofrimento fetal:
Alguns estudos mostram que mulheres que tiveram problemas no parto que acabaram causando sofrimento fetal tinham mais chance de terem filhos com TDAH. A relação de causa não é clara. Talvez mães com TDAH sejam mais descuidadas e assim possam estar mais predispostas a problemas na gravidez e no parto. Ou seja, a carga genética que ela própria tem (e que passa ao filho) é que estaria influenciando a maior presença de problemas no parto.

D) Exposição a chumbo:
Crianças pequenas que sofreram intoxicação por chumbo podem apresentar sintomas semelhantes aos do TDAH. Entretanto, não há nenhuma necessidade de se realizar qualquer exame de sangue para medir o chumbo numa criança com TDAH, já que isto é raro e pode ser facilmente identificado pela história clínica.

E) Problemas Familiares:
Algumas teorias sugeriam que problemas familiares (alto grau de discórdia conjugal, baixa instrução da mãe, famílias com apenas um dos pais, funcionamento familiar caótico e famílias com nível socioeconômico mais baixo) poderiam ser a causa do TDAH nas crianças. Estudos recentes têm refutado esta idéia. As dificuldades familiares podem ser mais conseqüência do que causa do TDAH (na criança e mesmo nos pais).

Problemas familiares podem agravar um quadro de TDAH, mas não causá-lo.

F) Outras Causas
Outros fatores já foram aventados e posteriormente abandonados como causa de TDAH:
1. corante amarelo
2. aspartame
3. luz artificial
4. deficiência hormonal (principalmente da tireóide)
5. deficiências vitamínicas na dieta.
Todas estas possíveis causas foram investigadas cientificamente e foram desacreditadas.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://tdah.org.br/sobre-tdah/o-que-e-tdah/

Van Gogh era mesmo bipolar?

Van Gogh era mesmo bipolar?

Por Dr. Elie Cheniaux – Parece haver uma relação entre criatividade e transtorno bipolar [Sobre as características clínicas do transtorno bipolar, ver Cheniaux (2016)]. Em primeiro lugar, estudando-se as biografias de grandes artistas, constata-se que muitos deles apresentaram episódios de mania e de depressão ao longo de suas vidas. Além disso, quando são entrevistados artistas bem-sucedidos, utilizando-se critérios diagnósticos modernos, a prevalência de transtorno bipolar entre eles é maior do que na população geral. Por outro lado, na comparação entre indivíduos que sofrem de transtorno bipolar e outros pacientes psiquiátricos, observam-se que os primeiros apresentam um melhor desempenho em testes de criatividade, mais realizações criativas e uma escolha mais frequente de ocupações criativas. Por fim, há diversas características em comum entre um episódio maníaco ou hipomaníaco e o comportamento criativo, tais como um aumento na energia, atividade, autoestima, autoconfiança e capacidade de associar ideias.

Sofrer de transtorno bipolar, é claro, não faz de ninguém criativo. Talvez o que aconteça é que, em pessoas que já possuem um talento natural para a arte, a doença facilite e incremente a produção artística. Acredita-se que, durante os episódios de depressão e de mania, embora estes cursem com intensas vivências afetivas, as quais podem ser altamente inspiradoras, os indivíduos não consigam produzir nada, ou não produzam nada com qualidade. Na depressão, faltam iniciativa, energia e autoconfiança, enquanto na mania o indivíduo tem dificuldade de concentração, está desorganizado e perde a sua capacidade crítica. Provavelmente, durante a hipomania, que, por definição, é de leve gravidade e não cursa com complicações, o bipolar talentoso torna-se capaz de produzir muito, tanto em quantidade como em qualidade.

O holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), um dos maiores pintores de todos os tempos, provavelmente sofria de transtorno bipolar. Durante apenas uma década, dos 27 aos 37 anos de idade, ele produziu mais de 800 pinturas a óleo, especialmente paisagens, naturezas mortas, retratos e autorretratos. Todavia, a sua genialidade só foi reconhecida após a sua morte. Embora hoje em dia muitas de suas obras sejam avaliadas em milhões de dólares, em vida apenas um único quadro seu foi vendido.

Pesquisando a biografia desse “gênio incompreendido”, não fica bem claro quando a sua doença começou. Acessos de raiva foram comuns em toda a sua vida. Quando, por exemplo, discutia arte com alguém, ficava bastante exaltado se discordassem do seu ponto de vista. Muito curioso foi o seu comportamento em Borinage, entre 1878 e 1879. Depois de fracassar em sua tentativa de se tornar pastor, a profissão do pai, Van Gogh vai para essa região mineira da Bélgica a fim de atuar como evangelista. Lá, compadecido pelas condições subumanas nas quais viviam os trabalhadores das minas de carvão, ele decide que deveria suportar os mesmos sofrimentos que via naquela gente. Assim, Van Gogh doa seus pertences, não se alimenta, não cuida da higiene e dorme no chão, sem cobertor, passando frio no inverno. O que é mais evidente é que os episódios mais graves de sua doença ocorreram, na França, nos últimos dois anos de sua vida, período no qual, por coincidência ou não, Van Gogh pintou mais da metade de suas telas.

Em Arles, em 1888, aos 34 ou 35 anos de idade, Van Gogh provavelmente apresenta um episódio hipomaníaco. Em cartas para o seu irmão Theo, Van Gogh relata que se sente feliz, “muitíssimo bem”, “carregado de eletricidade”, “uma locomotiva de pintar”. Trabalha muito, mas não fica nem um pouco cansado: “eu faria mais um quadro nesta mesma noite e o terminaria”. “As ideias para o trabalho me vêm em abundância”, diz ele. O pintor Paul Gauguin, que estava com Van Gogh em Arles, na famosa “Casa Amarela”, fica impressionado com o ritmo da produção do colega.

Na véspera do Natal desse mesmo ano, Van Gogh tem uma grave crise, com as características de uma mania psicótica. Após uma discussão com Gauguin, Van Gogh corta o lóbulo de sua orelha esquerda e o entrega a uma prostituta. Mais tarde, é encontrado inconsciente em casa pela polícia. Perdera muito sangue, mas ainda está vivo. É então internado no hospital de Arles. Lá apresenta uma grande agitação -– quer se deitar com outros doentes, expulsa a freira que tenta cuidar dele – e é amarrado em seu leito.

No hospital de Arles, Van Gogh é assistido pelo Dr. Félix Rey, que não era alienista, termo este que corresponde ao que hoje chamamos de psiquiatra. O médico faz o seguinte diagnóstico: “uma espécie de epilepsia caracterizada por alucinações e por episódios de agitação confusa, cujas crises eram favorecidas por excessos de álcool”. O diretor da instituição, o Dr. Ulpar, também não alienista, diz, no entanto, que Van Gogh fora “acometido de mania aguda com delírio generalizado”. Em poucos dias, em 7 de janeiro de 1889, o pintor é considerado “curado” e recebe alta.

Entre janeiro e fevereiro de 1889, Van Gogh apresenta alucinações auditivas – “vozes” lhe fazem censuras – e delírios persecutórios – recusa-se a comer, pois acredita que querem envenená-lo. Em função disso, volta para o hospital de Arles, mas melhora rapidamente e logo sai da internação.

Em seguida, entre abril e maio de 1889, Van Gogh parece estar deprimido e pede para ser hospitalizado novamente. Tem “angústias”, “sentimentos de vazio e de cansaço na cabeça”, “melancolias” e “remorsos atrozes”. Pensa em suicídio. Sente-se incapaz de voltar a trabalhar e de ficar sozinho. A sua autoestima está baixa e não vê nenhum valor em sua obra artística. Dessa vez, é internado no asilo Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy. Lá é acompanhado por outro médico não alienista, o Dr. Peyron, que mantém o diagnóstico de mania, mas fala também em epilepsia. Quando melhora, Van Gogh recebe autorização para ir a Arles pegar telas que deixara ali, mas, na viagem, volta a alucinar, e, no retorno ao asilo Saint-Paul, tenta o suicídio ingerindo tinta.

No mês seguinte, junho de 1889, o quadro clínico muda. Ainda internado, Van Gogh conta ao irmão que tem nada a menos do que 12 telas em andamento ao mesmo tempo, o que é muito indicativo de uma virada para a hipomania. Contudo, em dezembro do mesmo ano, há a recidiva de um provável episódio de depressão, com sintomas psicóticos. Van Gogh apresenta sentimentos de culpa, pesadelos e emagrecimento, sente-se incapaz de ler e de coordenar o pensamento e novamente ingere tinta para se matar. Os sintomas depressivos vão até fevereiro de 1890 e, em maio desse ano, Van Gogh é outra vez tido como “curado”, recebendo alta de Saint-Paul, um ano após ter sido admitido na instituição.

Entre maio em junho de 1890, Van Gogh está em Auvers, onde, num curto espaço de tempo, apresenta amplas flutuações de humor, porém não é internado. Primeiro, mostra-se feliz e jovial nas cartas para o irmão e produz, de forma impressionante, 70 telas em 70 dias. Depois, diz se sentir um “fracassado”, para logo em seguida ser considerado “curado” pela terceira vez, agora pelo Dr. Gachet, também não alienista.

Todavia a história tem um triste fim. Em 27 de julho de 1890, Van Gogh sai cedo para o campo para pintar, como sempre fazia, mas só retorna à noite e está sangrando. Ele havia disparado um tiro contra o próprio peito. Morre na madrugada do dia 29, aos 37 anos, nos braços de Theo. É o irmão quem ouve as suas últimas palavras: “Falhei mais uma vez… Não chore, fiz isso para o bem de todos… A tristeza duraria para sempre”.

Do que sofria Van Gogh? Para a formulação de um diagnóstico médico, é fundamental pesquisar a história familiar. Na família do artista, houve, sem dúvida, diversos casos de transtorno mental. A irmã Wilhelmina morreu, aos 79 anos, internada em uma instituição psiquiátrica. Cor, o irmão mais moço, possivelmente cometeu suicídio, na África do Sul. O tio Cent tinha crises periódicas de “depressão”, nas quais ficava totalmente incapacitado para as atividades do dia a dia. Por fim, o irmão Theo também teria apresentado um quadro de depressão e, após a morte de Van Gogh, teve vários episódios de agressividade contra a esposa e o filho, os quais resultaram em internações psiquiátricas.

No decorrer dos anos, as manifestações psicopatológicas apresentadas por Van Gogh foram atribuídas a diversas condições clínicas, psiquiátricas e não psiquiátricas: entre elas, esquizofrenia, porfiria intermitente aguda, epilepsia parcial complexa, neurossífilis, intoxicação por digitálicos, intoxicação por chumbo, síndrome de Ménière, alcoolismo e transtorno bipolar.

Para Karl Jaspers (1977), Van Gogh tinha esquizofrenia. A hipótese do pai da psicopatologia fenomenológica, contudo, baseia-se mais em uma suposta mudança da técnica de pintura do artista a partir do “incidente da orelha” do que no registro de seus sinais e sintomas. É verdade que Van Gogh apresentou sintomas psicóticos, mas estes não são exclusivos da esquizofrenia. Além disso, diferentemente do que se observa na esquizofrenia, Van Gogh ficava assintomático entre as crises e até o fim a sua afetividade ficou preservada.

Porfiria intermitente aguda foi o diagnóstico formulado por Loftus e Arnold (1991). Essa doença se caracteriza por um distúrbio enzimático hereditário que acomete a pele e o sistema nervoso central. As crises têm início e final abruptos e são recorrentes, podendo cursar com convulsões, alucinações, depressão, delírio persecutório e ansiedade, além de dor abdominal, uma queixa frequente do artista. Van Gogh, no entanto, não apresentou prejuízo cognitivo nem perda da destreza manual, alterações encontradas na porfiria. Falam também contra essa hipótese a baixa prevalência dessa doença e a ausência de casos com esse diagnóstico na família de Van Gogh.

Gastaut (1956), por sua vez, acreditava que Van Gogh sofria de epilepsia parcial complexa. Esse tipo de epilepsia costuma estar relacionada ao lobo temporal e cursa com crises de curta duração de estreitamento da consciência, automatismos e, eventualmente, sintomas psicóticos. O principal indício de que esse seria o diagnóstico mais correto para o caso de Van Gogh é o fato de o artista jamais ter conseguido se lembrar do “incidente da orelha”, pois, na epilepsia parcial complexa, é muito comum haver, a posteriori, amnésia relativa às crises. Além disso, Van Gogh apresentava traços de um tipo de personalidade associado a patologias do lobo temporal, a personalidade gliscroide. Esses traços incluem hiperreligiosidade, hipergrafia e explosividade. Hipossexualidade, outra característica da personalidade gliscroide, porém, não era observada em Van Gogh, que se apaixonou várias vezes e assiduamente procurava prostitutas.

Por outro lado, pode-se dizer que as provas a favor do diagnóstico de epilepsia são apenas circunstanciais, indiretas, pois não há registros de que alguém tenha observado e descrito em Van Gogh ataques epilépticos, sejam parciais complexos ou mesmo do tipo grande mal. Também contradiz o diagnóstico de epilepsia a duração dos episódios apresentados por Van Gogh, os quais, embora muitas vezes curtos, eram bem mais longos do que costumam ser as crises epilépticas.

Van Gogh, de fato, contraiu sífilis, mas o diagnóstico de neurossífilis parece pouco provável. Em geral há um intervalo de muitos anos entre a infecção e o acometimento do sistema nervoso central e, no caso do artista, as alterações psicopatológicas talvez tenham se iniciado mesmo antes de ele começar a frequentar prostíbulos.

O predomínio da cor amarela nas telas de Van Gogh é a justificativa para a hipótese de intoxicação por digitálicos, substâncias que podem causar xantopsia, distúrbio visual em que os objetos parecem amarelados aos olhos do doente. Contudo não existe evidência de que Van Gogh tenha sido medicado com digitálicos. Além disso, o próprio artista dizia que usar o amarelo era uma opção consciente para simbolizar o Sol, Deus e a vida.

O chumbo é encontrado na tinta e pode ser absorvido pela pele. Além disso, Van Gogh, mais de uma vez, ingeriu tinta em tentativas de suicídio. Uma intoxicação por esse metal, afetando o sistema nervoso, pode levar a diversas manifestações neuropsiquiátricas, contudo estas costumam ter um curso contínuo e, no caso do pintor, as alterações emocionais e do comportamento que ele apresentava tinham um caráter predominantemente episódico.

A síndrome de Ménière se caracteriza por vertigem, perda auditiva e zumbido, e este último sintoma explicaria, para os defensores dessa hipótese diagnóstica, o “episódio da orelha”. Obviamente, esse diagnóstico não dá conta de todos os outros distúrbios encontrados no caso de Van Gogh.

Van Gogh abusava de bebidas alcoólicas, especialmente absinto. Assim, alcoolismo é outro diagnóstico proposto para o artista. É difícil afastar essa hipótese, mas, por outro lado, o alcoolismo pode ser uma condição comórbida de outras, visto que o álcool pode causar ou desencadear crises epilépticas e é usado de forma nociva por indivíduos que sofrem de diversos transtornos mentais.

No entanto, transtorno bipolar parece ser a hipótese mais forte para o diagnóstico de Van Gogh. Segundo Jamison e Wyatt (1992), são diversos os elementos encontrados no caso do pintor que são típicos desse transtorno mental, como um padrão cíclico de episódios afetivos, o retorno à normalidade entre as crises, a ausência de deterioração cognitiva e padrões alterados de sono e energia. Sintomas psicóticos e abuso de álcool não são exclusivos do transtorno bipolar, mas comumente ocorrem nesse transtorno mental. Ainda de acordo com esses autores, a história familiar de Van Gogh é bastante consistente com esse diagnóstico. Por fim, eles chamam a atenção para a possível relação entre o transtorno bipolar e a criatividade, como um argumento a mais a favor dessa hipótese diagnóstica.

Então, Van Gogh deveria ter tomado lítio, o medicamento número um no tratamento do transtorno bipolar? Em primeiro lugar, não poderia, pois as propriedades farmacoterápicas do lítio só foram descobertas em 1949, mais de meio século após a morte do artista. Estudos mostram que o lítio reduz significativamente as chances de suicídio, mas diminui a criatividade em indivíduos com transtorno bipolar. Assim, se Van Gogh tivesse sido tratado com lítio, provavelmente teria vivido bem mais, porém agora teríamos muito menos obras-primas para admirar.

Referências:

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Landeira-Fernandez J., Cheniaux E. Cinema e loucura: conhecendo os transtornos mentais através dos filmes. Porto Alegre, Artmed, 2010.

Loftus LS, Arnold WN. Vincent Van Gogh’s illness: acute intermittent porphyria? BMJ 1991; 303(6817): 1589-91.

Martin C. Did Van Gogh have Meniere’s disease? Eur. Ann. Otorhinolaryngol. Head Neck Dis. 2011; 128:205-209.

Morrant JC. The wing of madness: the illness of Vincent van Gogh. Can. J. Psychiatry 1993; 38:480-484.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: http://genmedicina.com.br/2017/12/08/van-gogh-era-mesmo-bipolar-dr-elie-cheniaux/

Psiquiatria forense: quando o Direito olha para a saúde mental

Psiquiatria forense: quando o Direito olha para a saúde mental

Um corpo de mulher é encontrado em um apartamento: a equipe chega, cerca o local, recolhe com pinça objetos no entorno para tentar identificar digitais e os guarda em sacos especiais, usa uma luz especial para enxergar possíveis rastros de esperma, verifica pegadas, conversa com os vizinhos. Emocionante, não? Cena digna dos melhores seriados de investigação policial? E para por aí: isso não é psiquiatria forense.

“Há muita romantização e fetiches nessas cenas, que misturam as funções do psiquiatra forense às de um legista, por exemplo. A vida real é totalmente oposta à apresentada nos seriados”, afirma a Dra. Jacqueline Segre, psiquiatra forense e uma das responsáveis pela pós-graduação na área oferecida pela Universidade de São Paulo. “E mais, em tese, toda psiquiatria é forense, visto que todos os psiquiatras se deparam com questões que podem tangenciar questões jurídicas e éticas”, diz. “Forense” é aquilo relativo ao foro, tribunais e à justiça.

Então, quais as atribuições da psiquiatria forense?

 

De assassinato a impasses familiares

O profissional que se especializa na área pode atuar, sim, no âmbito criminal, mas não com as fantasias apresentadas pela televisão. “Sobre o homem que esfaqueou o presidente Jair Bolsonaro, por exemplo: muitos na mídia aventaram a possibilidade de ele ter alguma doença mental, então, em um caso desses, somos acionados para avaliar esse indivíduo. Até porque não basta ele ter a doença, ou todos os doentes teriam algo como uma ‘carta branca’ para cometer crimes. Precisamos mostrar se há correlação entre a condição da pessoa – se é que existe a condição – ao crime cometido”, afirma Dra. Jacqueline.

Além do conhecimento médico, é preciso que este tipo de psiquiatra conheça também os meandros do Direito: “Para mostrar se a patologia do criminoso tem alguma relação com o delito que ele cometeu, temos que elucidar uma questão jurídica, então é preciso ter um linguajar médico mais acessível aos operadores de Direito – juízes, advogados. Fazemos uma transcrição de nossas observações, mas praticamente ‘traduzimos’ os aspectos mais técnicos”, completa.

psiquiatria forense pode, também, atuar na área previdenciária, quando, por exemplo, uma pessoa alega que não consegue mais trabalhar por ter certa doença, como depressão. O profissional, então, averigua para confirmar ou não a condição – a confirmação propicia que a pessoa receba uma aposentadoria, por exemplo. Casos mais complexos, como os de indivíduos que processam o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), exigem o crivo do psiquiatra forense.

Na área de família, a especialidade pode averiguar impasses sobre a guarda dos filhos quando for alegada a impossibilidade de uma das partes ter a guarda compartilhada, devido à possível doença mental, entre outros. Já na civil, testamentos podem ser cancelados se for comprovada a não capacidade da pessoa muito idosa, por exemplo. “Há casos de perícias indiretas, em que somos chamados depois que a pessoa já faleceu porque seu testamento foi considerado indevido por alguns dos parentes. Para esse estudo, precisamos verificar documentos médicos, históricos, prontuários e entrevistar parentes para conseguirmos comprovar ou não a condição do falecido na época da elaboração do testamento”, diz Dra. Jacqueline.

 

O peso da ética

Os dilemas éticos estão sempre presentes: pode-se internar paciente com problema mental contra a vontade dele, passando por cima de sua autonomia? Há, também, o lado do médico: até onde ele pode ir; até onde, como autoridade médica, pode impor seu conhecimento?

“Atuamos sob a Lei nº 10.216 de 6 de abril de 2001, também conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, que determina as internações involuntárias. Um paciente com risco de suicídio, que tem problema mental e câncer, mas se recusa a passar por uma cirurgia para tratar o câncer, deve ter a vontade respeitada? Ele tem condições de responder por si? Nesses casos, somos chamados a averiguar”, afirma.

Ela explica que as situações são, por vezes, profundas e até filosóficas, mas que a perícia tem que ser categórica, na medida do possível: “A resposta que temos que dar ao juiz é ‘sim’ ou ‘não’, é algo quase binário muitas vezes. Então temos que aprender a lidar com todas as complexidades e ir traduzindo-as, é como uma habilidade que você vai aprimorando com os anos de profissão”, reconhece Dra. Jacqueline.

psiquiatria forense, portanto, flerta com as áreas do Direito e conhece suas terminologias – não todas as leis, especificamente. Um pouco mais humanizada, ela tenta ver algo além do simples transtorno mental para transmitir da forma mais inteligível os acontecimentos, as situações limítrofes. “Como podemos criar um raciocínio um pouco mais saudável do que mimetizar um bom senso? Este é nosso treinamento diário”, completa a professora.

 

Área possível a todos os médicos

psiquiatria forense é uma especialidade nova; tem cerca de dez anos no Brasil. De fato, é uma subespecialidade da psiquiatria, como são a infantil e a psicogeriátrica, entre outras.

“A área não tem muitos centros de especialização; o interessado pode cumprir três anos de residência em psiquiatria e, em seguida, prestar nova prova para o R4 para a forense. No complexo todo do HC, até 2018, era apenas uma vaga por ano; a partir de 2019, são duas”, diz Dra. Jacqueline.

Há, também, o curso de pós-graduação – o indivíduo formado em Medicina pode cursá-lo para se tornar um especialista em psiquiatria forense.

A Escola de Educação Permanente do HC oferece a especialização na área – em 2019, ela passa a ter duração de dois anos, e não um, como era até então. O curso exige TCC e oferece atividade prática em perícias, e os alunos que anteriormente o cursaram em um ano podem agora completar os estudos com este segundo e tornarem-se especialistas.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://eephcfmusp.org.br/portal/online/psiquiatria-forense-direito-saude-mental/

O que é a Psiquiatria do Esporte?

O que é a Psiquiatria do Esporte?

Introdução

Embora seja uma área pouco conhecida, divulgada e até pouco trabalhada no Brasil, a Psiquiatria do Esporte e do Exercício já é uma realidade em países como os EUA e na Europa. Não apenas atletas individualmente já buscam um psiquiatra do esporte, mas equipes da NFL (futebol americano) e MBL (beisebol), além de alguns clubes de futebol europeus já contam com psiquiatras especializados para cuidar dos seus atletas, gestores, comissões técnicas e também familiares.

Com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento da especialidade, foi criada, em 1994, a Sociedade Internacional de Psiquiatria do Esporte (acesse o site da Sociedade clicando aqui!). Nela, estão reunidos psiquiatras peritos em questões esportivas e que aspiram trabalhar com atletas nos mais diferentes níveis competitivos ao redor do mundo. Essa iniciativa tem contribuído para a melhor definição de estratégias comportamentais e farmacológicas (desde patologias mentais ativas, sub-síndromes, normalidade, até a otimização da performance), bem como o estabelecimento de diretrizes sólidas baseadas em evidências, sempre com o objetivo de proporcionar ao atleta, seus familiares e membros de agremiações esportivas a melhor qualidade de vida e desempenho máximo profissional.

 

Algumas competências essenciais do Psiquiatra do Esporte:

1) Preparação mental e treinamento das habilidades mentais
2) Controle do estresse esportivo e prover melhor qualidade de vida
3) Regulação dos níveis energéticos diários e da qualidade do sono
4) Controle da dor e manejo de lesões (ativas e após o retorno aos jogos)
5) Atenção ao uso e abuso de substâncias (lícitas e ilícitas) e risco de doping
6) Perícia no tratamento dos transtornos mentais relacionados ao esporte
7) Experiência e metodologia para trabalhos com agremiações esportivas
8) Competências relacionadas à idade, sexo, cultura e fase de desenvolvimento dos atletas
9) Conhecimento amplo relacionado à internet/redes sociais e seu impacto sobre o esportista
10) Multiprofissionalismo e interdisciplinaridade eficiente (p. ex. articulação com médicos do esporte, psicólogos, preparadores físicos, dirigentes)

 

Mas e a Psicologia esportiva? Não é a mesma coisa?

Embora os psicólogos do esporte sejam profissionais extremamente importantes e indispensáveis pelo acompanhamento psicológico provido a curto e longo prazo aos esportistas, eles possuem abordagens e métodos distintos dos psiquiatras, dada sua própria formação. O Psiquiatra do Esporte provê o cuidado médico especializado em saúde mental para os atletas. São duas áreas de atuação que visam assistência em saúde mental, porém com metodologias singulares de cada uma. A psicologia e a psiquiatria do esporte têm muito a somar para o esporte e também entre si mesmas em uma “troca” de experiências. Principalmente considerando o trabalho interdisciplinar.
Uma vez que existem tantas ferramentas e tecnologias voltadas para a fisiologia do exercício (parte física), por que não provermos tudo o que temos à disposição dos aspectos mentais/psíquicos, disponibilizando os profissionais responsáveis por esses cuidados?

Devido a inúmeros fatores, como: o próprio estigma da população em relação à psiquiatria, a crença de que todo medicamento prescrito pelo psiquiatra trará prejuízos no desempenho ou que serão enquadrados como doping, e o próprio sentimento do atleta em relação a si mesmo entendendo como sinal de fraqueza procurar o psiquiatra, ainda trata-se de uma especialidade vista como intervencionista, apenas para momentos de crise extrema.

Assim, como fundamentado pela própria psicóloga esportiva do Comitê Olímpico Brasileiro, Aline Wolff, em sua participação na primeira Mesa Redonda de Psiquiatria do Esporte e do Exercício* no XXXV Congresso Brasileiro de Psiquiatria (realizado em outubro de 2017 em São Paulo/SP), a área desportiva clama pela parceria entre psicólogos e psiquiatras especializados em questões esportivas desde a prevenção, e não para “tapar buracos” quando eventual problema já se encontra instaurado.

 

Por fim, existe um modelo de atuação específico em Psiquiatria do Esporte?

Por se tratar de um campo pouco explorado e em desenvolvimento, a Psiquiatria do Esporte carece de grandes estudos. De tal maneira, cada psiquiatra terá sua metodologia de trabalho, uma vez que ainda não temos nenhuma diretriz específica estabelecida para atuação em Psiquiatria do Esporte.
Ainda assim, dentro da individualidade laborativa de cada profissional, é essencial utilizar métodos eficazes envolvendo a psiquiatria baseada em evidências científicas.
As grandes perspectivas de atuação na área permitem um leque diversificado de atuações para o Psiquiatra do Esporte. Seja lidando com questões alimentares ligadas ao esporte, promoção de saúde mental ligada à prática esportiva, compondo um Departamento Médico de agremiação esportiva, provendo consultorias coletivas, assistindo atletas de alto rendimento ou amadores individualmente, pesquisando neurociência ligada ao esporte…
O importante é nos conscientizarmos da pertinência de um cuidado mais amplo ligando a saúde mental ao contexto esportivo. Além disso, buscarmos contribuir para o desenvolvimento da especialidade – por meio de pesquisas e estudos.
Essa contribuição deve começar tão cedo no meio acadêmico entre os universitários, nas residências médicas, centros de pesquisa e nos próprios departamentos médicos de agremiações esportivas que buscam otimizar seus cuidados.

 

*Relatores que compuseram a Mesa Redonda 40 no XXXV CBP:

– Helio Fádel (psiquiatra e membro da Sociedade Internacional de Psiquiatria do Esporte)
– Aline Wolff (psicóloga esportiva do Comitê Olímpico Brasileiro)
– Marcelo Migon (psiquiatra e mestre em saúde coletiva)
– Fernando Solera (ortopedista e médico-chefe da Comissão Antidopagem da CBF)

 

Dr. Helio Fádel
Psiquiatra Clínico e do Esporte

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: http://heliofadel.com.br/o-que-e-a-psiquiatria-do-esporte/

Os filmes que abordam transtornos psiquiátricos

Os filmes que abordam transtornos psiquiátricos

Frequentemente filmes são lançados e fazem sucesso com o  público por abordarem temas polêmicos e que chamam a atenção por ter uma temática voltada a personagens que portam algum transtorno psíquico. Quase em todos os filmes, podemos analisar seus personagens e perceber traços de um ou de outro transtorno psiquiátrico.

Cinema é uma paixão de muitas pessoas e assistir a um filme com o olhar mais aguçado para certos assuntos, temáticas, deixa esse hobbie ainda mais gostoso e interessante.

Pensando nisso, decidimos listar aqui alguns filmes que lidam com a temática psiquiátrica/ psíquica. Personagens envolventes e interessantíssimos que nos fazem repensar sobre os transtornos mentais e também sobre temas polêmicos que mexem com o mais íntimo das pessoas.

Conheça alguns filmes que tratam sobre as seguintes temáticas: Transtorno Bipolar, Esquizofrenia, Autismo, Fobia Social, Dependência Química, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtornos Sexuais e de Identidade de Gênero, Transtorno de Personalidades.

Abaixo haverá a descrição breve dos filmes, suas respectivas associações aos quadros psiquiátricos.

 

Transtorno Bipolar:

O lado bom da Vida:

O personagem principal Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) sofre de Transtorno Bipolar. Pat apresenta momentos de extrema irritabilidade, tornando-se agressivo e agitado quando está doente (em mania). Conhece Tiffany (Jennifer Lawrence) que lhe ajuda em sua melhora, descobrindo um novo talento, a dança.

 

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Mr. Jones:

O protagonista Jones (interpretado por Richard Gere) também sofre com o transtorno bipolar. Possui momentos marcantes de euforia, pensamento grandioso, impulsividade e irritabilidade, que colocam sua própria vida em risco. No decorrer do filme apaixona-se por sua psiquiatra, desenrolando um romance. Cabe-se aqui destacar que, na vida real, o desenvolvimento de um romance entre o terapeuta e o seu paciente é algo muito delicado e não recomendado.

 

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Esquizofrenia/ psicoses:

Uma Mente brilhante:

História verídica do matemático John Nash (interpretado por Russell Crowe), ganhador do prêmio Nobel de Economia e sabidamente conhecido por ser portador de Esquizofrenia. No filme, apresenta delírios e alucinações, criando histórias paralelas a sua vida real, sentia-se dentro de uma operação secreta, que o deixou com a sensação de estar sendo perseguido. No inicio do filme, documenta-se seu comportamento estranho e isolamento social, que podemos considerar como sintomas iniciais da esquizofrenia.

 

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A Ilha do Medo:

O protagonista, interpretado por Leonardo Di Caprio envolvido em uma trama  que se passa dentro de um hospital psiquiátrico. Suspense até o final…

 

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Estamira:

Documentário brasileiro, verídico, da senhora esquizofrênica vivendo em meio a um aterro sanitário. Alterna períodos de normalidade com períodos de alucinações, delírios e discurso com neologismos (palavras que não existem no vocabulário). Ela explorava temas como: a vida, Deus, o trabalho e reflexões existenciais acerca de si mesma e da sociedade. Momentos felizes e tristes estão presentes neste documentário emocionante.

 

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Cisne Negro:

Nina Sayers (Natalie Portman) assume o maior posto da companhia de balé. Sente-se pressionada em honrar o nome da famosa companhia, precisando lidar com a inveja das demais bailarinas, com a cobrança do diretor e a superproteção de sua mãe (ex- bailarina que não alcançou a fama). Nina vê-se completamente obcecada pela busca da perfeição da interpretação do seu personagem, rompendo a barreira da lucidez…

 

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Fobia social:

Desajustados:

Filme é uma coprodução da Islândia e Dinamarca. Descreve a vida do pacato e solitário Fúsi (Gunnar Jónsson), até conhecer a espevitada Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir). Ao desenrolar da história, Fúsi surpreende, mostrando-se um ser humano muito especial, emocionando o telespectador. O filme também envolve a temática de bullying. Recomendadíssimo! Não julgue o filme pela capa!

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Autismo:

Querido John:

Neste filme, o ator Richard Jenkins, pai do protagonista Jonh, em uma comovente atuação, interpreta um homem solitário que sofre com sua dificuldade de socialização, típica de uma pessoa autista. No filme também podemos perceber o interesse restrito (comum nesses quadros) que o levava passar horas examinando sua coleção de moedas.

 

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Transtorno de Personalidade Borderline:

Garota Interrompida:

Filme baseado em livro de memórias homônimo, escrito por Susanna Kaysen. Winona Ryder interpreta Susanna Kaysen, uma jovem que foi diagnosticada com transtorno de personalidade borderline (limitrofe) em meados dos anos 60. Nessa época, foi mandada ao hospital psiquiátrico onde permaneceu internada por 2 anos. Lá conheceu muitas moças com histórias intrigantes e sedutoras, dentre elas Lisa Rowe (interpretada por Angelina Jolie), que possuia personalidade antissocial (antigamente descrita como sociopatia).

 

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As vantagens de ser invisível

Logan Lerman interpreta Charlie. Charlie chega a uma escola para cursar o Ensino Médio e vê-se com dificuldades para formar novas amizades. Até que conhece Sam (Emma Watson) e Patrick  (Ezra Mille). O trio convive e emociona o público, trazendo temáticas típicas da adolescência. Logan, (assim como os demais atores), interpreta muito bem seu personagem, sabendo passar a sensação de uma pessoa que está saindo de um momento delicado de vida e aprendendo a lutar contra a depressão.O filme aborda sutilmente  a pedofilia e sugere-se que o protagonista apresenta instabilidade emocional.

 

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Transtornos Sexuais:

Transtorno de Identidade de Gênero:

A Garota Dinamarquesa:

Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne).  A interpretação do ator é espetacular, mostra com tamanha delicadeza e emoção a transformação de Einar em Lili. Esta foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo (de masculino para feminino). Chama a atenção o relacionamento que manteve com sua esposa, a pintora Gerda (Alicia Vikander). A amizade, amor e respeito permaneceram mesmo após Einar decidir se transformar em mulher (Lili).

 

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Descoberta da homossexualidade na adolescência e bullying:

Hoje eu quero voltar sozinho:

Filme brasiliero, com premiações internacionais. Leonardo (Ghillerme Lobo) é um adolescente cego que estuda em uma escola normal e dentre os alunos é o único que apresenta deficiência física. Sofre preconceito de alguns colegas em decorrência disso, mas lida sem grandes traumas, com o apoio da amiga Giovanna (Tess Amorin) e de Gabriel. O filme aborda com delicadeza alguns tabus: a descoberta da (homo) sexualidade e a busca pela independência por um garoto cego.

 

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Pedofilia:

A Caça

Filme que merece muito ser visto, porém deve-se ter estômago forte para tal. Lucas ( Mads Mikkelsen) interpreta um professor que é acusado por sua aluna de ter lhe mostrado as partes íntimas. A partir deste relato, a vida de Lucas muda completamente e a acusação de ser um pedófilo traz consequências terríveis para sua vida. Lucas não conforma-se em ser acusado sem provas e decide permanecer na cidade, mesmo correndo risco de vida.

 

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O lenhador:

Walter (Kevin Bacon), muda-se para uma pequena cidade, após sair da prisão, onde passou os últimos 12 anos de sua vida. Escolhe uma casa localizada em frente a uma escola e começa a trabalhar em uma madeireira. Faz amizades e inicia um romance com Vicki (Kyra Sedgwick) porém as coisas mudam quando as pessoas descobrem o crime pelo qual foi condenado.

 

Compulsão sexual

Ninfomaníaca:

O filme aborda o tema da ninfominia – compulsão sexual feminina. Filme polêmico, mostra a vida sexual de uma mulher, desde a infância até a velhice, chegando a  mostrar cenas de sexo reais. O filme inicia com Joe (interpretada por Charlotte Gainsbourg) sendo resgatada em um beco após ser agredida. Joe começa a contar sua trajetória de vida, marcada pelas suas aventuras sexuais e conseguindo mostrar seu sentimento de enorme culpa por tudo que viveu. Filme bastante polêmico, que deixa o espectador muitas vezes desconfortável em sua poltrona.

 

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Shame

O filme trata sobre satiríase – nome que se dá a compulsão sexual masculina. No filme, o protagonista Brandon (interpretado por  Michael Fassbender) é obcecado por sexo. O filme apresenta muitas cenas de sexo, porém não são nenhum pouco excitantes, sendo  mostradas de forma incômoda. Para o protagonista, o ato torna-se um martírio e algo repulsivo, lhe trazendo grande sofrimento e dificuldade em ter uma relação saudável, duradoura e verdadeiramente prazerosa.

 

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Dependência química:

Diário de um adolescente:

Neste filme, Leonardo Di Caprio interpreta Jim, um adolescente talentoso para esportes, que acaba desviando do seu caminho de sucesso quando entra no mundo das drogas. Jim transforma sua vida em um inferno, ao vê-se totalmente dependente de drogas, chegando a praticar crimes e a prostiuir-se para bancar seu vício.

 

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Réquim para um sonho:

Um filme duro e triste. Narra a história do casal Harry e Marion (interpretados respectivamente por Jared Leto e Jennifer Connelly) e da mãe de Harry, Sara (interpretada por Ellen Burstyn). O casal, dependente de heroína, expõe-se a muitos riscos, perdendo a total noção do que estão fazendo de suas vidas. Já a mãe, Sara, torna-se uma viciada por pílulas emagrecedoras, pois sonha em conseguir vestir seu vestido vermelho novamente e participar do seu programa de TV favorito.

 

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28 dias:

Gwen Cummings (Sandra Bullock), é uma escritora que leva sua vida inconsequentemente. Vê-se internada em uma clínica de reabilitação para dependentes de álcool, após provocar um acidente de carro. Antes sem qualquer crítica em relação a sua dependência de álcool, aos poucos Gwen começa a perceber que o álcool realmente tomou um grande espaço em sua vida. Auxiliada por outros pacientes, Gwen começa a se dar conta de que tem um sério problema.

 

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Transtorno Obsessivo Compulsivo:

Melhor é impossível

Melvin Udall (Jack Nicholson) é um escritor que apresenta transtorno obsessivo compulsivo. Personagem solitário, precoceituoso e misantropo, vê-se em uma nova situação de vida, quando é obrigado a cuidar do cachorro do vizinho homossexual, que fica hospitalizado. Na trama, Melvin, que diariamente vai ao mesmo restaurante, senta-se na mesma mesa, levando seus próprios talheres descartaveis, acaba interessando-se pela garçonete Carol Connelly (Helen Hunt). O filme possui passagens engraçadas sobre o temperamento do protagonista e apresentam a doença de forma peculiar.

 

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Personalidade Antissocial:

Laranja mecânica:

Filme produzido e dirigido por Stanley Kubrick, adaptado do romance homônimo de Anthony Burgess, de 1962. O filme se passa em uma Londres futurista em que Alex (Malcolm McDowell), o protagonista, é um antissocial (antigamente descrito como sociopata). Alex lidera uma gangue de arruaceiros, com  a qual comete crimes terríveis. Alex acaba sendo pego pela polícia e é submetido a um tipo de tratamento controverso através de condicionamento psicológico. Filme psicologicamente denso e pesado.

 

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Demência:

Para sempre Alice:

Filme trata do desenvolvimento da demência de Alzheimer precoce. A protagonista Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguistica, que começa a esquecer palavras e perder-se nas ruas da cidade onde sempre morou. Alice vê-se consternada ao perceber que não consegue mais produzir memórias recentes e precisa formular métodos para que consiga superar tais déficits. Filme muito emocionante.

 

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TEXTO RETIRADO DO SITE: https://psiquiatrafloripa.com.br/filmes-sobre-transtornos-psiquiatricos/

Acabe com sete mitos sobre o uso de antidepressivos

Acabe com sete mitos sobre o uso de antidepressivos

Os sintomas da depressão ainda fazem desta doença um dos problemas mais difíceis de ser diagnosticado – o desafio começa no próprio paciente que, ao se defrontar com a sensação de tristeza, pessimismo e baixa autoestima, nem sempre consegue identificar quando tudo isso sinaliza um estado passageiro, causado por frustrações de rotina, ou um transtorno de humor que merece – e exige! – tratamento.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão, dos níveis mais leves aos mais severos, atinge cerca de 121 milhões de pessoas no mundo, hoje em dia. Parte desse grupo é tratada com medicamentos genericamente conhecidos por antidepressivos. “Eles estimulam a produção de neurotransmissores que estão em falta e inibem a produção daqueles em excesso, gerando um equilíbrio que permite o bom funcionamento cerebral”, afirma o psiquiatra e psicoterapeuta Fernando Portela Câmara, da Associação Brasileira de Psiquiatria.

A disposição para lidar com dificuldades, a melhora do humor e o aumento da tolerância em situações de conflito (alguns dos efeitos possíveis do consumo desse tipo de remédio), no entanto, acabam fazendo com que muita gente faça o consumo sem necessidade. “A prescrição médica é indispensável no caso dos antidepressivos, que têm uma enxurrada de efeitos colaterais capazes de prejudicar a saúde física e mental do paciente se o uso não for realizado com os cuidados adequados”, diz o especialista. Entre os principais riscos, estão o erro na dose e na frequência de ingestão, a combinação com outros medicamentos (quando uma das fórmulas pode perder a eficiência ), além da associação com bebidas alcoólicas.

Por outro lado, muitos pacientes torcem o nariz quando saem do consultório do psiquiatra com uma receita médica. “O medo de ficar viciado em antidepressivos ou perder a vitalidade sexual sempre aparece nas consultas”, afirma o professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Marcelo Fleck, editor da Revista Brasileira de Psiquiatria. Com a ajuda dele e de outros especialistas, tire suas dúvidas sobre esse tipo de medicamento.

Danificam o cérebro

Segundo o professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Marcelo Fleck, editor da Revista Brasileira de Psiquiatria, não há qualquer evidência de que o uso de antidepressivos danifique o cérebro. Na verdade, estudos apontam exatamente para a ideia oposta. “Pessoas que ficaram expostas a sintomas depressivos por muito tempo costumam apresentar alterações cerebrais, como a diminuição da ramificação dos neurônios, o que atrapalha a troca de informações nervosas”, explica. Assim, como os antidepressivos tendem a combater os sintomas da depressão, eles são aliados do bom funcionamento do cérebro. “Para colher esses benefícios, entretanto, é fundamental seguir a prescrição médica”, afirma.

Causam dependência

Antidepressivos não têm potencial para provocar dependência no usuário. “Ao contrário dos chamados ansiolíticos, drogas tranquilizantes que exigem receituário na cor azul, os antidepressivos são medicamentos psicoativos, que não possuem tarja preta e são prescritos em receituário branco especial”, afirma o psiquiatra Fernando Portela Câmara. Mesmo assim, esses medicamentos não devem ser abandonados de maneira abrupta. “Apenas a retirada gradual possibilita a reorganização do organismo sem as substâncias fornecidas pelo antidepressivo”, explica.

Alteram a personalidade

Para Fernando Câmara, antidepressivos não alteram a personalidade de quem faz uso deles, mas permitem que o paciente tenha mais ânimo para tomar decisões. “Quem convive com os sintomas da depressão costuma ser reprimido e tende a se isolar da sociedade. O uso desses medicamentos ajuda você a sentir prazer novamente”, afirma. A confusão, nesse caso, aparece quando os sintomas da doença são interpretados como características pessoais – o que, realmente, é difícil de delimitar. Como definir se alguém é reprimido ou apenas tímido? Fazer essa distinção é apenas um dos desafios dos psiquiatras, o problema é que eles só podem ajudar quando o próprio paciente desconfia que precisa de ajuda e procura um médico.

Benefícios são decorrentes do efeito placebo

“Se o paciente foi devidamente diagnosticado, basta um antidepressivo para reverter a situação”, afirma o professor de psiquiatria Marcelo Fleck. Mas os efeitos do medicamento, de fato, são difíceis de medir no caso de uma depressão leve, quando uma terapia ou até o início de uma atividade física também trazem resultados. O efeito terapêutico do antidepressivo aparece mais claramente em depressões graves, de acordo com o especialista.

Curam a depressão

Assim como o diabetes e outras doenças crônicas, a depressão não tem cura, mas pode ser controlada. “Isso significa que o tratamento regular reduz ou zera os sintomas, que podem ou não reaparecer com o tempo”, afirma o psiquiatra Fernando Câmara. Por esse motivo, o acompanhamento médico é fundamental, dispensando os remédios ou fazendo ajustes na dose. Uma visita mensal ao psiquiatra, pelo menos, é indicada para avaliação do caso.

Tem o mesmo efeito para todas as pessoas

“A mesma dose de um antidepressivo pode ter efeitos diversos em diferentes pessoas, como ocorre com qualquer medicamento”, afirma o professor de psiquiatria Marcelo. Por isso, a prescrição desse medicamento, mesmo que para problemas similares, deve ser individualizada. Afinal, o médico precisa levar em conta ainda a idade do indivíduo, os outros medicamentos que ele toma, se mora com algum familiar, entre outros pontos.

São a única forma de tratamento

De acordo com Marcelo Fleck, a ingestão de antidepressivos não é a única maneira de tratar a depressão. “Uma dieta equilibrada e a prática regular de exercícios, por exemplo, podem funcionar como coadjuvantes no tratamento, pois são medidas diretamente ligadas ao bem-estar físico e mental”, explica. O especialista aconselha ainda a adotar tais hábitos como forma de se prevenir contra o transtorno. “Principalmente quem apresenta predisposição genética para desenvolver a depressão deve ficar atento a um estilo de vida saudável para reduzir suas chances de ter o mesmo problema que seus familiares”, alerta.