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Transtorno da personalidade dependente: o que é e a quem afeta?

Transtorno da personalidade dependente: o que é e a quem afeta?

A incapacidade de ficar sozinho, uma dependência sufocante dos outros, a insegurança, nenhuma responsabilidade pessoal, o medo obsessivo de ser abandonado… Estas e outras dimensões desgastantes caracterizam uma das doenças mais comuns, mas por sua vez, menos reconhecidas e tratadas. Estamos falando do transtorno da personalidade dependente.

Para entender um pouco mais sobre esse transtorno começaremos com um exemplo simples. Jorge tem 42 anos e hoje tem uma entrevista de emprego. De manhã, quando termina de se vestir, sua esposa sugere que coloque outra gravata: a que está usando é muito escura, muito séria. Jorge não diz nada, mas não se sente bem com o comentário e fica inseguro. Logo depois, começa a se perguntar se a camisa e as calças escolhidas combinam, se os sapatos são adequados …

Atormentado pelas dúvidas e medos, diz a si mesmo que não conseguirá esse emprego. Assim, sem saber como, ele começa a intensificar a sua negatividade, afundando-se em um diálogo circular, repetitivo e obsessivo. Começa a imaginar que se não conseguir o emprego, é muito provável que a sua esposa o abandone. A sua esposa, que conhece bem a sua personalidade, diz que isso não vai acontecer, que ela está lá para apoiá-lo, que confia nele e não há nenhuma razão para temer o abandono.

Ele parece se animar, mas Eva, sua mulher, respira profundamente, sentindo mais uma vez a picada do desespero. Ela sabe que terá que apoiá-lo dando incentivo e reforços positivos durante todo o dia… talvez toda a semana. Sabe também que, provavelmente, Jorge não será capaz de sair para aquela entrevista de emprego. Entende também que o comportamento do seu marido não é normal, que às vezes fica muito difícil conviver com ele, e se sente cada vez mais esgotada. Ela acredita que essa é a sua personalidade, e que essas coisas não podem ser mudadas.

É neste ponto que está a raiz do problema: acreditar que um determinado tipo de comportamento é normal e nada pode ser feito para mudá-lo. Nós associamos essas características a um padrão de personalidade e aceitamos o seu comportamento sem entender que, na verdade, existe um transtorno, uma doença. Um tipo de comportamento que invalida a própria pessoa e o ambiente onde ela vive.

O transtorno da personalidade dependente ou a fragilidade do “eu”

Entre os 10 tipos de transtornos da personalidade coletados pelo DSM-V (Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais), o transtorno mais comum é o transtorno da personalidade dependente. Estamos diante de um quadro clínico que se caracteriza pela notável falta de autoconfiança e a necessidade constante de consolo, segurança e apoio. Normalmente dá os primeiros sinais na adolescência, no entanto, os sintomas são mais graves e podem ser observados com mais clareza após os 40 anos.

Por outro lado, como sugerimos no início, é muito comum que as pessoas com transtorno da personalidade dependente não estejam conscientes de que o que estão sofrendo é uma doença. Apenas quando chegam no limite, quando percebem que não têm nenhum controle da sua realidade e de si mesmas, pedem ajuda.

Características das pessoas com transtorno da personalidade dependente

  • Incapacidade de ficar sozinha.
  • Evitação das suas responsabilidades.
  • Extrema passividade.
  • Dificuldade em aceitar e enfrentar críticas.
  • Incapacidade de assumir o final de um relacionamento.
  • Medo obsessivo de ser abandonada.
  • São muito passivas nas relações interpessoais.
  • Falta de iniciativa: não conseguem tomar decisões sem apoio ou conselhos dos outros.

Quais são as causas do transtorno e como ele é diagnosticado? A quem pode afetar?

Até hoje se desconhece a causa desse transtorno. Sabemos, por exemplo, que ele aparece na idade adulta e que alguns pacientes experimentaram na sua infância ou adolescência um transtorno de ansiedade associado com a separação física dos seus pais. No entanto, este fato nem sempre é determinante.

Por outro lado, a incidência estimada da doença na população geral é de dois por cento (embora se saiba que muitas pessoas nem sempre conseguem ser diagnosticadas). Ele também é mais comum em mulheres do que em homens. Normalmente, este diagnóstico é feito por um clínico geral que é quase sempre o primeiro filtro, o primeiro passo. São eles que encaminham esses pacientes para os profissionais especializados.

Em primeiro lugar é feito um exame de sangue completo para descartar algum desequilíbrio hormonal. Mais tarde, serão analisados os sintomas e a história de vida do paciente.

Tratamento para o transtorno da personalidade dependente

Como sempre, em qualquer condição, cada paciente é único.Ocasionalmente, podem ocorrer mais complicações, como depressão, transtornos de ansiedade, transtorno de personalidade por evitação, etc, que intensificam ainda mais o quadro clínico.

No entanto, vale a pena ressaltar que a combinação da psicoterapia com o tratamento farmacológico é eficaz na maioria dos casos. A terapia comportamental cognitiva, por exemplo, centrada nos padrões de pensamento, nas crenças ou na incapacidade de tomar decisões, é uma das terapias com melhores resultados.

Não podemos esquecer que são tratamentos a longo prazo, terapias muitas vezes combinadas com antidepressivos ou sedativos, com avaliação médica regular para analisar as melhoras. E para terminar, não podemos nos esquecer do apoio familiar e social do paciente. O ambiente mais próximo é o terceiro pilar em qualquer tratamento, onde o próprio paciente deve combinar esforços contínuos, compromisso e um desejo claro de melhorar, de lutar pela sua qualidade de vida.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://amenteemaravilhosa.com.br/transtorno-da-personalidade-dependente/

Trastorno de Personalidade Narcisista

Trastorno de Personalidade Narcisista

O Transtorno de Personalidade Narcisista, ou simplesmente narcisismo, é classificado pelo DSM-5, o catálogo de transtornos mentais, como¹:

Um padrão difuso de grandiosidade (em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de empatia que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos, conforme indicado por cinco (ou mais) dos seguintes:
1. Tem uma sensação grandiosa da própria importância (p. ex., exagera conquistas e talentos, espera ser reconhecido como superior sem que tenha as conquistas correspondentes).
2. É preocupado com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal.
3. Acredita ser “especial” e único e que pode ser somente compreendido por, ou associado a, outras pessoas (ou instituições) especiais ou com condição elevada.
4. Demanda admiração excessiva.
5. Apresenta um sentimento de possuir direitos (i.e., expectativas irracionais de tratamento especialmente favorável ou que estejam automaticamente de acordo com as próprias expectativas).
6. É explorador em relações interpessoais (i.e., tira vantagem de outros para atingir os próprios fins).
7. Carece de empatia: reluta em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e as necessidades dos outros.
8. É frequentemente invejoso em relação aos outros ou acredita que os outros o invejam.
9. Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes.

O narcisista, então, tem como característica principal esse sentimento de ser muito importante, especial, fora de série. Entretanto, isso não permanece apenas no seu pensamento. Suas atitudes cotidianas demonstram essa concepção, pois ele exige que os outros o admirem, reconhecendo o brilhantismo, as qualidades e o talento que ele acredita ter e que o diferencia dos outros. O narcisista reage muito mal quando ele não é colocado nesse patamar de superioridade, quando ele é tratado como uma pessoa “comum” e quando suas necessidades não são atendidas. A maior parte dos narcisistas são do sexo masculino.

Na verdade, por trás de toda essa aparência de superioridade, o narcisista tem, geralmente, uma autoestima incrivelmente baixa. É justamente por essa concepção extremamente negativa de si que ele busca uma compensação exagerada e é muito sensível às críticas ou à rejeição. Para o narcisista, é muito difícil aceitar a derrota e a tendência é que ele coloque sempre a responsabilidade pelos seus problemas nos outros.

Justamente pelo narcisista se achar superior, raramente ele reconhece que tem um problema, e é menos provável ainda que ele procure alguma forma de tratamento. Quanto ele procura, geralmente seu foco são os outros, e ele usa a terapia como um local de desabafo para dizer o quanto o mundo não está dando a ele tudo aquilo que ele merece.

Como qualquer transtorno de personalidade, o tratamento do narcisismo é difícil. O nível de consciência que a pessoa tem sobre o problema, a auto-observação e o questionamento de seus próprios padrões de pensamento e comportamento são fatores que podem favorecer uma melhor administração do quadro.

Conarcisismo

Se por um lado os narcisistas procuram pouco a terapia, por outro, as pessoas com quem eles convivem são as que mais tendem buscar ajuda. Isso porque o narcisista, na sua exigência por admiração, estabelece relações em que o outro é sempre o errado, o inadequado e o incapaz. Não é raro que as pessoas não percebem o jogo bem armado do narcisista e passem a acreditar nisso. Portanto, quando elas procuram ajuda, na forma de terapia, elas chegam realmente acreditando que elas têm algum problema sério e que precisam melhorar ou se “consertar” para atender às necessidades do narcisista. Esse padrão de funcionamento é chamado informalmente de co-narcisismo.

O conarcisismo² se refere a alimentar, inadvertidamente, o narcisismo do outro, do mesmo jeito que um codependente alimenta o vício de um dependente químico. Geralmente a pessoa conarcisista teve pais narcisistas, que ao não a validarem o suficiente, gerando no filho ou filha uma impressão de que se é naturalmente insensível, egoísta, incapaz de amar ou defeituoso. Não é raro que a pessoa conarcisista reproduza esse padrão nos seus relacionamentos, escolhendo parceiros narcisistas, que confirmam as crenças que eles têm sobre si mesmos e se comportando na relação exatamente da maneira que o narcisista espera.

Entre os traços apresentados pelos conarcisistas estão:

  • baixa autoestima
  • se esforça para agradar os outros
  • aceita excessivamente as opiniões dos outros
  • não tem clareza das próprias visões de mundo
  • frequentemente ansiosos e deprimidos
  • têm dificuldade em dizer o que sentem ou pensam sobre um assunto
  • duvidam da validade de suas opiniões (especialmente quando estão em conflito com as de outros)
  • assumem a responsabilidade pelos problemas nas relações

Como se pode ver, as caraterísticas do conarcisista atendem perfeitamente ao que o narcisista espera. Por isso, essas relações tendem a se manter, mesmo carregadas de conflitos. Geralmente o narcisista exige admiração e perfeição num nível que só um conarcisista tentaria prover. Ainda assim, não é suficiente para o narcisista, que coloca a responsabilidade das suas frustrações no conarcisista, que as assume e geralmente pede desculpas por não ter conseguido atendê-las. Obviamente, isso vai minando cada vez mais a autoestima do conarcisista, que tende a se deprimir facilmente. As exigências constantes do narcisista colocam o conarcisista num estado  de ansiedade permanente, com receio de críticas e ataques. Ainda assim, o conarcisista não consegue sair da relação, pois acredita que o problema está em si mesmo e tem um grande medo de perder o narcisista.

Uma relação como essa, que leva a pessoa conarcisista a níveis extremos de baixa autoestima e alimenta a sensação de superioridade do narcisista, é muito intensa. No lado do conarcisista, o trabalho terapêutico busca, em primeiro lugar, fazer com que a pessoa perceba a característica doentia da relação. Ao longo do processo, ela precisa fortalecer as suas opiniões, suas visões de mundo e o respeito que ela tem consigo mesma, de preferência de forma autônoma. Através desse fortalecimento e da consciência em relação aos seus padrões, é possível que ela consiga abandonar esse tipo de relação e ter uma vida emocional mais saudável.

Referências

1. American Psychiatric Association (2014). DSM-5. Porto Alegre: Artmed.
2. Rappoport, A. (2005). Co-Narcissism: How we accommodate to narcissistic parents. http://www.alanrappoport.com/pdf/Co-Narcissism%20Article.pdf

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://nucleointerface.com.br/saude-mental/transtorno-de-personalidade-narcisista-e-conarcisismo

Transtorno de Personalidade Borderline: o que é e como controlar

Transtorno de Personalidade Borderline: o que é e como controlar

Estima-se que 6% da população mundial sofra do transtorno de personalidade borderline (TPB), uma doença caracterizada pela intensa instabilidade emocional. Se por um lado não há estatísticas sobre sua prevalência no Brasil, por outro aproximadamente 10% dos pacientes diagnosticados no nosso país cometem suicídio, segundo estimativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

A fim de evitar consequências tão graves, é importante conhecer o problema. Para saber quais são os sintomas, as causas e o tratamento, SAÚDE conversou com o psiquiatra da Clínica Nutrindo Ideais, Higor Caldato, do Rio de Janeiro.

Quais são os sintomas do transtorno de personalidade borderline?

Além da oscilação de emoções, o TPB é marcado por impulsividade, irritação diante de respostas negativas, dificuldade no controle da raiva e idealização extrema.

“Geralmente, os pacientes fazem um esforço desesperado para evitar o abandono, que pode ou não ser real. Eles sentem dificuldade em se relacionar por não saberem lidar com essas emoções”, afirma Caldato, associado da ABP.

A impulsividade, aliás, afeta diversas áreas da vida. “Eles passam a gastar muito dinheiro, usam drogas ou álcool ou desenvolvem compulsão alimentar como uma forma de aliviar o sofrimento”, exemplifica.

Em casos mais graves, a integridade física é colocada em risco. Pode-se chegar ao ponto automutilação e até suicídio.

Quais são as causas?

O fator genético é o principal motivo. “Quem tem parentes de primeiro grau com o distúrbio é cinco vezes mais propenso a desenvolvê-lo”, informa Caldato.

Entretanto, o contexto em que esse indivíduo vive também faz a diferença. A falta de suporte social pode desencadear o transtorno de personalidade borderline.

“É comum que a depressão ou ansiedade estejam associadas. Cerca de 10% dos pacientes que procuram o consultório por essas razões são diagnosticados com o borderline”, acrescenta o psiquiatra.

Veja também

Quais as pessoas mais afetadas?

O problema atinge mais as mulheres e a população jovem.

Como é o diagnóstico e o tratamento?

O quadro sempre deve ser fechado pelo psiquiatra. “A suspeita mais comum do transtorno de personalidade borderline é a presença de compulsão alimentar, depressão ou ansiedade”, explica Caldato.

Já no tratamento, o acompanhamento de um psicólogo é primordial. “Por meio da psicoterapia, cria-se maturidade emocional. Trabalhamos para que o paciente consiga lidar com os sentimentos e as frustrações”, aponta o especialista.

Aliado a isso, remédios entram frequentemente em cena. O médico os prescreve para controlar a raiva e a agressividade, além de conter doenças associadas – como a já mencionada depressão.

O que fazer durante uma crise?

Nesse momento, a raiva e a impulsividade se sobressaem. Aí, é necessário ter apoio dos amigos e familiares.

Eles precisam acolher, ser compreensivos e incentivar a procura de ajuda profissional quanto antes. Dessa maneira, o paciente aprenderá a lidar com as crises e evitar que novas aconteçam.

“Numa emergência, a pessoa se sente desamparada. Ao conversar sobre o que está sentindo, a ansiedade é controlada”, afirma o psiquiatra.

A diferença entre o borderline e o transtorno bipolar

Não, essas doenças não são a mesma coisa. “A bipolaridade não é um transtorno de personalidade, e sim de humor”, esclarece o Caldato.

O paciente bipolar passa por episódios de 20 a 30 dias em depressão significativa. Após um tempo, ele melhora e tem um período de euforia. Esses comportamentos vão se intercalando, podendo cada um durar meses.

Já no caso do sujeito borderline, a oscilação de personalidade às vezes ocorre várias vezes durante o mesmo dia.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://saude.abril.com.br/mente-saudavel/transtorno-de-personalidade-borderline-o-que-e-e-como-controlar/

Apenas Timidez? Ou Fobia Social? – Ter conhecimento para entender

Apenas Timidez? Ou Fobia Social? – Ter conhecimento para entender

A Timidez deriva do medo da exposição perante as outras pessoas e de falar em público. Este medo pode variar de intensidade, originando pessoas simplesmente mais reservadas, ou no outro extremo, originando pessoas que chegam ao estado fóbico – Fobia Social.

A Fobia Social caracteriza-se por um medo acentuado e persistente de situações sociais ou de desempenho (avaliação). Exemplos: manter uma conversa, encontrar pessoas que não são familiares, ser observado a comer ou a beber e situações de desempenho diante de outros, tal como apresentar um trabalho. O confronto ou a antecipação de uma dessas situações provoca uma resposta imediata de ansiedade. Esta resposta pode assumir a forma de um Ataque de Pânico, existindo um reconhecimento pela pessoa de que o seu medo é excessivo ou irracional. Nas situações sociais ou de desempenho temidas, as pessoas com fobia social têm preocupações relativas ao seu embaraço e temem que os outros as avaliem de forma negativa, bem como medo em demonstrar sintomas de ansiedade. Existe uma grande tendência da pessoa evitar os sintomas que lhe causam sofrimento e assim, evitar essas situações, criando um condicionamento na rotina diária, no funcionamento ocupacional ou na sua vida social. Os casos de fobia social podem originar o aparecimento de estados depressivos ainda mais limitantes, tal como a depressão, afastando a pessoa do contacto social.

Assim, podemos dizer que o “Núcleo” da Ansiedade Social é o medo de ser incompetente, de falhar ou de se comportar de forma ridícula (Insegurança acerca das suas capacidades) e o desejo intenso de transmitir aos outros uma impressão favorável de si mesmo, havendo uma grande preocupação de uma possível avaliação negativa.

Desta forma, quando sofremos de ansiedade social, as situações sociais tornam-se ameaçadoras, originando uma hipersensibilidade à possibilidade de sermos avaliados, e assim é desenvolvida uma hipervigilância cognitiva à rejeição, que se traduz numa alteração no processamento de informação, mais especificamente, enviesamento nos processos de atenção, avaliação e interpretações das situações sociais. A interpretação das situações sociais como ameaçadoras está relacionada com uma vivência de vulnerabilidade à avaliação pelos outros, que por sua vez resulta da existência de auto-esquemas de ineficácia e incompetência para lidar com situações sociais. A existência de regras rígidas acerca do comportamento social e o engrandecimento das consequências do fracasso são aspectos que também se encontram presentes.

O medo de não causar uma impressão positiva ou de ser avaliado negativamente pelos outros em situações sociais é um dos aspectos centrais. Uma hipersensibilidade às críticas (ou possíveis críticas) dos outros contribui para que nos sintamos permanentemente observados e avaliados. Assim, está presente uma vigilância e avaliação sobre nós próprios e sobre os nossos comportamentos e acções, como também uma comparação com os outros, na tentativa de nos protegermos dessas avaliações negativas.

Quando somos confrontados com uma possível situação desencadeadora de ansiedade, desenvolvemos uma série de expectativas negativas acerca das possibilidades de ficarmos ansiosos, e da percepção dessa ansiedade pelos outros, que nos leva a avaliar a situação como ameaçadora e a conduzir até a uma atenção auto-focada.

A atenção auto-focada faz-nos aumentar a consciência de nós próprios, ampliando a percepção de ansiedade e desconforto (intensificando os sintomas somáticos e cognitivos), fazendo assim diminuir a atenção disponível para os estímulos exteriores relacionados com a situação. Para além disso, cria um efeito de interferência no processamento dos estímulos: interpretamos sinais de forma enviesada, como também construímos uma imagem de nós mesmos que assume automaticamente ser a impressão que os outros têm de nós. Esta imagem é construída a partir de uma perspectiva de observador, como se nos observássemos de um ponto de vista exterior a nós.

Pelo apresentado neste texto, é fácil perceber a importância de enfrentarmos este problema o mais cedo possível. Desse modo, podemos reduzir o desgaste emocional associado à ansiedade social e prevenir os outros problemas que dela derivam. Uma abordagem terapêutica adequada permitir-nos-à ter uma vida mais tranquila e satisfatória, e isso passará naturalmente por nos confrontarmos com as situações, e pensar, sentir e agir nesses momentos, de forma diferente da habitual, para quebrar o nosso ciclo vicioso de ansiedade social.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

Fontes:

– American Psychiatric Association (APA) (2013). DSM – V: Diagnostic and Satistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Washington: New School Library.

– Gouveia, J. P. (2000) Ansiedade Social: da timidez à fobia social. Coimbra: Quarteto Editora.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: http://www.psicologia.pt/artigos/ver_carreira.php?apenas-timidez-ou-fobia-social-ter-conhecimento-para-entender&id=308

Transtornos mentais podem alterar comportamento sexual

Transtornos mentais podem alterar comportamento sexual

Vivemos em um mundo em que o sexo é bastante enfatizado, e a prática da sexualidade para alguns indivíduos é tão vital para a saúde quanto comer, dormir e fazer exercícios.

Alguns componentes envolvidos na sexualidade normal também estão implicados na causa e tratamento dos transtornos mentais, o que torna os indivíduos em acompanhamento psiquiátrico mais propensos a terem dificuldades ou alterações no comportamento sexual.

Até 80% dos pacientes com transtornos mentais têm dificuldades sexuais em consequência da própria doença ou dos medicamentos utilizados para tratá-las, o que pode levar a problemas no relacionamento com o parceiro e uso de substâncias sem prescrição médica. Estas consequências podem provocar um desfecho ainda mais arriscado, que é o abandono do tratamento psiquiátrico.

Sintomas como redução da auto-estima, dificuldades de relacionamento, redução do interesse, cansaço, entre outros, costumam estar presentes em diversos transtornos mentais e podem causar redução da frequência e da qualidade das relações sexuais. Os antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos utilizados no tratamento estão associados a aumento de risco de sonolência, diminuição do desejo sexual, disfunção erétil e redução do orgasmo.

Entretanto, a interrupção do tratamento medicamentoso sem orientação médica, na maioria dos casos, pode levar a piora dos sintomas, prejuízo social, redução do rendimento e da qualidade de vida.A entrevista focada no contexto sócio-sexual e a avaliação médica, portanto, são essenciais para esclarecer a importância da sexualidade na vida do indivíduo e as mudanças que ocorreram após o seu adoecimento.

O acompanhamento médico e psicológico permitem ampliar o entendimento da sexualidade e identificar outras formas de satisfação sexual, analisando as necessidades de cada indivíduo sem prejudicar o tratamento de base. A avaliação ginecológica/urológica, junto ao atendimento em saúde mental, é importante para excluir causas clínicas passíveis de intervenções específicas. Em alguns casos pode ser considerado o ajuste dos remédios que o paciente está usando ou a introdução de novas medicações que ajudem a atenuar os sintomas.

A saúde sexual envolve não somente a ausência de doença, mas também a capacidade de se envolver em relações sexuais consensuais, seguras, respeitosas e prazerosas. Tocar no assunto é o primeiro passo para o alívio do desconforto. Quebrar a barreira da vergonha e discutir o tema com os profissionais envolvidos no tratamento permitem a individualização da terapêutica e a melhora da qualidade de vida.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://www.holiste.com.br/transtornos-mentais-comportamento-sexual/

TOC não é brincadeira – entenda como funciona o transtorno

TOC não é brincadeira – entenda como funciona o transtorno

Pensamentos que não saem da mente acompanhados de rituais complexos e rígidos comprometem a qualidade de vida de quem tem transtorno obsessivo compulsivo

Jenifer checa a escova de dentes diversas vezes no banheiro para ter certeza de que não engoliu o objeto. Caio passou três horas em idas e voltas pela mesma ponte da Marginal Tietê, em São Paulo, sem conseguir chegar ao seu destino. Gleyce teve um ataque de choro ao ver uma panela suja na pia de sua casa. Esses são exemplos reais de pessoas com transtorno obsessivo compulsivo (TOC), uma condição psiquiátrica que atinge ao redor de 8 milhões de brasileiros.

Os três fazem parte de um grupo de discussão sobre o tema no Facebook, que conta com mais de 12 mil participantes. Eles aceitaram, junto com outras 37 pessoas, falar sobre o impacto da doença em suas vidas para esta reportagem – você confere os depoimentos ao longo dela.

 

“O TOC me desconcentra, bagunça minhas relações e faz com que eu fique viciada em tópicos específicos. Me sinto um disco quebrado, com um fantasma que não me deixa viver o presente.”

Claudia, 28 anos

O ponto que une todos os relatos é a frustração com o preconceito que existe sobre o TOC. Muitos ainda se incomodam com o senso comum, que encara o assunto como piada ou uma coisa fácil de ser superada. Não é, não.

Trata-se de um quadro de difícil manejo, marcado por pensamentos inconvenientes que invadem a cabeça sem aviso prévio. Eles são seguidos por um rito ou um comportamento repetido, que serve de escape para acalmar a mente. “É o caso do sujeito com um pavor irracional de bactérias que deixa de tocar em maçanetas e lava as mãos compulsivamente para não se contaminar”, exemplifica o médico Antônio Geraldo da Silva, da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Apesar de afetar tanta gente, pouco se sabe sobre as origens do problema. “Acreditamos que ele seja o resultado da interação de uma falha genética com fatores ambientais”, conta o psiquiatra Leonardo Fontenelle, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Situações como traumas no partoabuso nos primeiros anos de vida e até infecções estão associadas à gênese do transtorno.

infância e a adolescência, aliás, são os períodos-chave para o aparecimento dos sintomas iniciais em mais da metade das vezes. Outras fases e momentos, como o nascimento de um filho, também contribuem: pais e mães predispostos podem desenvolver uma preocupação doentia com o bebê que acabou de vir ao mundo.

O TOC no Brasil

Uma boa notícia é que o Brasil está na vanguarda científica e obteve avanços memoráveis no que se sabe sobre o transtorno. Em 2003, experts de diversas universidades se reuniram para formar um time voltado exclusivamente a pesquisar o TOC. Eles entrevistaram 1 001 portadores espalhados pelos quatro cantos do país.

A partir das informações, montaram o maior banco de dados sobre o tema do mundo. “Esse esforço coletivo já gerou mais de 50 artigos científicos e permite fazer conclusões certeiras que vão beneficiar diretamente essa comunidade”, comemora o médico Euripedes Constantino Miguel, professor titular de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e fundador do consórcio.

Um dos principais achados foi a relação do TOC com uma série de distúrbios psiquiátricos: 68% dos respondentes sofriam ao mesmo tempo com depressão, 63% conviviam com quadros de ansiedade generalizada e 35% foram diagnosticados com fobia social. Ou seja: por aqui, ter mais de uma encrenca mental é regra, e não exceção, o que modifica o tratamento receitado.

“Os levantamentos ainda mostraram que um terço dos pacientes já teve desejos de se suicidar e 10% haviam efetivamente tentado se matar, o que reflete a gravidade desses pensamentos e comportamentos”, acrescenta o psiquiatra Ygor Arzeno Ferrão, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

É TOC ou não?

Mas como diferenciar uma pessoa com TOC daquela que apenas gosta das coisas devidamente organizadas? “Se os rituais começam a tomar tempo, interferem na qualidade de vida, atrapalham a capacidade de estudar e trabalhar ou geram angústia e solidão, é preciso buscar ajuda”, responde a psiquiatra Albina Rodrigues Torres, da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista. A preocupação se inicia quando eles ocupam mais de uma hora por dia e fazem o indivíduo se atrasar ou até desistir de seus compromissos.

E é aí que deparamos com outro dilema: a demora entre o início do transtorno e o seu diagnóstico. “A média é de dez a 14 anos para procurar o médico, o que faz do TOC a doença do segredo”, lamenta a psiquiatra Roseli Gedanke Shavitt, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Os gargalos são a falta de conhecimento dos próprios profissionais de saúde sobre a enfermidade e, mais uma vez, o estigma de ser tachado de “louco” numa sociedade que não encara as condições psiquiátricas com muito respeito. “O paciente compreende que suas atitudes são absurdas e os ritos desnecessários, mas não consegue deixar de segui-los”, esmiúça Roseli.

 

“Tenho considerado a ideia de largar o emprego e a vida social. Assim, me dedicarei completamente às minhas manias.”

Joana, 26 anos

O tratamento

A partir do diagnóstico, feito no consultório por meio de uma conversa e uma avaliação, o médico começa a traçar a rota de recuperação. “A primeira coisa a se fazer é a psicoeducação para explicar direitinho o que é o TOC, suas características e seus riscos”, diz a psiquiatra Maria Conceição do Rosário, da Universidade Federal de São Paulo.

Na sequência, vêm a terapia cognitivo-comportamental e os remédios da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina, normalmente prescritos no combate à depressão. A união dessas duas estratégias em um tratamento de longa duração é a que costuma trazer os melhores resultados – cerca de 60% mantêm um bom controle com o esquema.

Para ter sucesso, é necessário abrir o olho para as doenças que seguem de mãos dadas ao transtorno, como a fobia social e a bipolaridade. “Algumas delas pioram se forem utilizados determinados medicamentos, o que demanda adaptações nas doses e na escolha do fármaco”, avisa o psiquiatra Pedro Antônio do Prado Lima, do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Não dá pra se esquecer da família nesse processo. Muitas vezes, os parentes participam dos rituais, pois sabem que desobedecer as regras do indivíduo desemboca em atritos. O correto seria não ceder a exigências e manias. “Ele até pode ficar ansioso ou agressivo, mas isso vai durar pouco. Se compactuar com as compulsões, todos se tornam reféns do TOC para sempre”, recomenda Ferrão. O esforço de negar as vontades e agir com firmeza deve ser orientado pelo profissional de saúde. Ao longo das terapias, o paciente é incentivado a questionar seus pensamentos e modificar os comportamentos.

A ciência não está satisfeita e se debruça sobre uma lista grande de novas possibilidades terapêuticas. O mindfulness, técnica de atenção plena que se inspira em alguns conceitos da meditação, mostrou ótimo desempenho em pesquisas e surge como um potencial complemento aos comprimidos.

“Existem perspectivas sobre a neuromodulação, que estimula ou inibe regiões do cérebro com eletricidade ou ondas magnéticas”, vislumbra a psiquiatra Juliana Belo Diniz, do Hospital das Clínicas paulistano. Alguns apostam até na implantação de marca-passos e eletrodos na massa cinzenta para os casos que não reagem às alternativas disponíveis.

Porém, de nada vai adiantar essa batelada de tecnologias se as pessoas prejudicadas não puderem falar abertamente sobre o assunto e procurarem ajuda especializada. Leda Sampaio, de 37 anos, não conseguia mais ficar sozinha com seus filhos após sofrer um trauma nove anos atrás. Depois de cinco anos de altos e baixos, buscou apoio e, hoje, se sente bem melhor. “Há uma vida toda nos esperando depois do TOC”, declara. Sábio conselho de quem viu, viveu e está vencendo suas próprias obsessões.

 

“Infelizmente, o TOC é visto como bobagem ou frescura. Até dentro de casa temos que ouvir piadinhas…”

Giselle, 41 anos

Manifestações diferentes do TOC

  1. Tudo precisa ficar estritamente organizado, alinhado, ordenado… Algo que fuja do padrão gera calafrios e irritação. Eis um dos principais subtipos do transtorno.
  2. Há aqueles que criam um medo gigante de contaminação. Isso os impede de tocar em portas e corrimões. Existe uma dificuldade de visitar lugares como hospitais e cemitérios.
  3. Um terceiro grupo não sai de casa sem olhar várias vezes a fechadura, o gás ou as torneiras. Eles cumprem uma maratona de ritos e cultos que demoram desde minutos até algumas horas.

 

E os acumuladores?

Por décadas, quem não jogava nada no lixo era classificado de obsessivo compulsivo. Mas o critério mudou, e hoje essa enfermidade é reconhecida como um problema independente. No TOC, esse sintoma até aparece, mas é um fator secundário a outros comportamentos.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://saude.abril.com.br/mente-saudavel/toc-nao-e-brincadeira-entenda-como-funciona-o-transtorno/

Esquizofrênico é agressivo e violento?

Esquizofrênico é agressivo e violento?

Toda vez que um crime chocante atinge a nossa sociedade é comum a presença de pessoas questionando a relação entre doença mental e violência. Isso pode ser muito prejudicial devido ao sofrimento e preconceito que portadores e familiares de pacientes com transtornos mentais já enfrentam naturalmente no cotidiano.

O recente assassinato do conceituado cineasta Eduardo Coutinho pelo seu filho Daniel chamou os holofotes para a possibilidade do diagnóstico de esquizofrenia e que deverá ser confirmado.

A esquizofrenia é uma doença mental que atinge cerca de 1% da população mundial e estima-se que no Brasil atinja 2,5 milhões de pessoas- não há diferenças na frequência da doença entre homens e mulheres. Costuma ter início na adolescência (em alguns casos na infância) e o início dificilmente ocorre após os 30 anos de idade. A hereditariedade pode ser um fator de risco maior, assim como o parto traumático (ou com sofrimento fetal) e o uso de drogas. Há vários trabalhos científicos sérios que demonstram uma chance aumentada de esquizofrenia em até dez vezes entre usuários de maconha que possuem genes predisponentes ao transtorno.

Geralmente, a esquizofrenia começa a partir de alterações comportamentais na adolescência. É comum o jovem se isolar socialmente, ficar desconfiado e com medos infundados a respeito da realidade que o cerca. Concomitantemente, pode haver prejuízos na funcionalidade do jovem nos diversos níveis de atuação.

Os sintomas positivos conhecidos como delirios e alucinações (percepções táteis, visuais ou auditivas na ausência dos respectivos estímulos) são os mais preocupantes para todos. Durante os conhecidos “surtos psicóticos” as pessoas têm alterações perceptíveis de juízo e crítica a respeito da realidade que as cercam. O discurso geralmente é desconexo e confuso, além de difícil entendimento do significado de um determinado pensamento ou idéia. Alguns pacientes podem apresentar a catatonia (imobilidade motora, atividade motora excessiva ou até mutismo) ou mesmo o embotamento afetivo onde o paciente não tem a minima expressão emocional.

Tanto mutações genéticas herdadas quanto mutações genéticas não herdadas podem causar a esquizofrenia ao interferirem no desenvolvimento cerebral, especificamente na plasticidade sináptica (capacidade que o cérebro tem em se remodelar e estabelecer novas conexões). Tais mutações podem interferir na força das ligações entre os neurônios (células nervosas). Há determinados tipos de mutações que podem estar presentes tanto na predisposição à esquizofrenia quanto ao autismo e essa é uma área de muito interesse na neurociência atual onde recentemente foi publicado um artigo na conceituada Revista Nature.

Como em toda doença crônica, o grande problema é a baixa aderência ao tratamento. É comum os pacientes abandonarem o tratamento, fumarem excessivamente (o que pode diminuir o efeito do medicamento antipsicótico) ou usarem concomitantemente drogas como álcool, maconha e cocaína que pioram o curso da doença levando a surtos psicóticos frequentes.

Pacientes esquizofrênicos em tratamentos regulares podem ter uma vida bem ajustada do ponto de vista psicossocial e familiar. Hoje dispomos de antipsicóticos eficazes e com bom perfil de efeitos colaterais distribuídos pelo SUS como medicações de alto custo. Há diferentes tipos e graus de esquizofrenia e cada caso deve ser analisado individualmente- sendo importantes o diagnóstico e o tratamento precoces. Na fase aguda da doença, onde o surto psicótico ocorre, a internação pode ser necessária em algumas situações e daí o drama da falta de leitos psiquiátricos no SUS atormenta familiares e pacientes carentes. Durante a fase de manutenção, o tratamento ambulatorial é o indicado.

Portanto, o paciente esquizofrênico em tratamento correto não é mais ou menos violento que qualquer pessoa da sociedade e tal informação precisa ser do conhecimento de todos. Essas pessoas já estão marcadas por muita estigmatização e isso precisa ser combatido dentro da sociedade.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://emais.estadao.com.br/blogs/joel-renno/esquizofrenico-e-agressivo-e-violento/

Saúde mental não deve ser tabu, avaliam pesquisadores

Saúde mental não deve ser tabu, avaliam pesquisadores

Falar sobre saúde mental, depressão, ansiedade e suicídio exige cuidados, mas os temas não podem ser deixados de lado sobretudo em um cenário de crescimento dos casos de autolesão em todo o mundo. De acordo com pesquisadores, a dificuldade existe porque há estigmas e pouca compreensão da sociedade dando margem, com frequência, a visões que carregam preconceito. Muitas vezes, o tabu interdita a circulação da informação, o que é importante para evitar novas ocorrências de suicídio.

“Faltam redes humanas de apoio, as pessoas vivem mudanças na configuração dos relacionamentos e tudo isso pode criar uma sensação de que você vive aquele sofrimento sozinho. Por isso, uma das apostas que fazemos em nosso atendimento preventivo é na expressão. Até para que se possa falar também das coisas ruins. Nas redes sociais, em geral, as pessoas falam das coisas maravilhosas. E é importante falar mais amplamente sobre os sentimentos”, diz a psicóloga Laura Quadros, chefe do Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Para Laura, o aumento das ocorrências que envolve diretamente a população mais jovem coloca o suicídio como uma emergência médica. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa é uma tendência em todo o mundo. Estimativas do órgão apontam que, depois da violência, o suicídio é o fator que mais mata jovens entre 15 e 29 anos. Anualmente, mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida, número que representa 1,4% de todas as mortes do mundo.

Em sintonia com a tendência internacional, o país registrou, entre 2011 e 2016, um aumento dos casos notificados de lesão autoprovocada nos sexos feminino e masculino de 209,5% e 194,7%, respectivamente. Além disso, um levantamento feito pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em todas as regiões do Brasil mostrou que 80% dos estudantes da graduação admitem ter enfrentado algum problema emocional, como ansiedade, desânimo, insônia, tristeza permanente, sensação de desatenção, desespero, falta de esperança e sentimento de desamparo e solidão.

Especialistas avaliam que adolescentes e jovens são mais suscetíveis a problemas emocionais e transtornos mentais, porque há muita expectativa e insegurança em relação ao futuro. Para Laura Quadros, o mundo atual cobra uma urgência pelo sucesso, e as tensões e pressões são mais exacerbadas. “Em um mundo mais lento, talvez conseguíssemos entender que esperar é um das possibilidades. Mas não é o que ocorre hoje”, avalia.

Cuidados

Há um consenso entre psicólogos e psiquiatras sobre a importância de que as abordagens de prevenção tenham como objetivo o estímulo a um ambiente favorável para que o jovem possa falar sobre seus sofrimentos com pessoas próximas e com profissionais capacitados. É o que tem feito a Uerj com a criação de diversos canais para receber demandas, sendo o principal deles o Núcleo de Atendimento ao Estudante. O Serviço de Psicologia Aplicada, coordenado por Laura, também é parte das medidas.

“Não é uma unidade de saúde assistencial. A missão principal é formar estudantes na prática de psicologia. Mas abrimos os espaços para atendimento. E essa procura tem aumentado bastante, tanto pela comunidade interna como pela comunidade externa”, explica.

No mês passado, foi aberto um período para triagem, momento em que o Serviço de Psicologia Aplicada escuta novas pessoas com o intuito de absorver em seu atendimento. Em apenas duas semanas, cerca 200 pessoas se apresentaram, relatando algum tipo de sofrimento. O volume da demanda impressionou e o período de triagem precisou ser encerrado. Atualmente, aproximadamente 300 pacientes já são atendidas pelo serviço.

O crescimento da procura, segundo a psicóloga, também reflete a crise econômica da saúde pública do Rio de Janeiro. “Esse é um ano muito crítico. Temos a tendência mundial e houve fechamento de vários ambulatórios na cidade, estufando nossos registros. E nós não temos estrutura para absorver toda a demanda. Tentamos atuar dentro das nossas possibilidades. Inclusive em sintonia com a tradição da Uerj, instituição que foi pioneira em políticas de ações afirmativas no país, que vem sempre junto de estratégias de acolhimento ao estudante”.

As medidas adotadas pela universidade visaram dar resposta aos casos que vinham ocorrendo, incluindo tentativas de suicídio que não se concretizaram.

A Uerj não é uma exceção. Nos últimos anos, diferentes instituições públicas de ensino espalhadas pelo país precisaram lidar com ocorrências de suicídio dentro de seus espaços. Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de São Paulo (USP) registraram casos. As instituições não costumam divulgar levantamentos específicos sobre os casos, mas vêm se firmando como lugar de referência em estudos e em acompanhamento.

Imprensa

A relação entre os meios de comunicação e o suicídio é um foco de estudo que tem mobilizado pesquisadores de diferentes áreas. O jornalista Arthur Dapieve publicou em 2007 o livro Morreu na Contramão: o Suicídio Como Notícia, que se desdobrou da sua pesquisa de mestrado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio). Ele buscou entender porque raramente se noticiava suicídio e investigou o noticiário brasileiro publicado em 2004.

Foram encontradas reportagens que lembravam os 50 anos do suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas e algumas notícias relacionados a atos de terroristas. Ao mesmo tempo, o jornalista notou poucos registros de casos ocorridos no Rio de Janeiro ou mesmo no país. “O volume de notícias contrastava com as estatísticas. E era nítida uma diferença no tratamento em relação a outros crimes. Os jornais não demonstram medo em noticiar o homicídio ou o estupro, por exemplo. Mas o que eu observei é que a questão não é intrínseca à imprensa. A nossa sociedade tem um tabu em relação ao assunto. E a mídia, muitas vezes, reflete o que a sociedade pensa”, avalia Dapieve.

O jornalista destaca uma preocupação específica da imprensa, relacionado ao “Efeito Werther”, que se refere a um pico de tentativas suicídios após um caso ser amplamente divulgado. A expressão tem como referência o livro Os sofrimentos do Jovem Werther, escrito pelo autor alemão Goethe no final do século 18.

“É uma história de amor não correspondida onde o protagonista se suicida. Isso teria deflagrado uma onde de suicídios na Europa. Esse medo é ainda presente na imprensa em 2004, ano do foco da minha pesquisa. Acho que não mudou muito de lá para cá, mas vejo que tem havido mais noticiário e inclusive reportagens no sentido de tentar entender as razões, prevenir. E isso é positivo”.

A importância da existência de um noticiário sobre o assunto é consenso entre psicólogos e psiquiatras. Essa é também a posição da Organização Mundial da Saúde (OMS) que avalia que a imprensa tem papel fundamental e ativo na prevenção ao suicídio.

TEXTO RETIRADO DO SITE: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-08/saude-mental-nao-deve-ser-tabu-avaliam-pesquisadores

Saúde mental: é necessário aumentar recursos em todo o mundo para atingir metas globais

Saúde mental: é necessário aumentar recursos em todo o mundo para atingir metas globais

Atlas de Saúde Mental 2017 (Mental Health Atlas 2017) da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que, embora alguns países tenham feito progressos na formulação e no planejamento de políticas de saúde mental, ainda há uma escassez em todo o mundo de profissionais de saúde treinados nessa área e falta investimento em instalações de saúde mental baseadas na comunidade.

“Esta última edição nos fornece mais evidências de que o aumento de recursos para a saúde mental não está acontecendo com rapidez suficiente. Nós sabemos o que funciona. A falta de investimento em saúde mental como uma questão de urgência terá custos de saúde, sociais e econômicos em uma escala que raramente vimos antes”, disse Shekhar Saxena, diretor do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS.

O Atlas fornece informações sobre políticas existentes, planos e leis para a saúde mental e seu alinhamento com os instrumentos estabelecidos pelos direitos humanos; recursos humanos e financeiros disponíveis; tipos de instalações que prestam cuidados; e os programas para prevenção e promoção da saúde mental.

O documento é baseado em dados fornecidos por 177 Estados Membros da Organização, representando 97% da população mundial, e mede até que ponto os países estão fortalecendo a liderança e a governança para a saúde mental; a prestação de cuidados de saúde mental e social integral; a implementação de estratégias para promover a saúde mental e prevenir problemas, além de fortalecer evidências e pesquisas – conforme descrito no Plano de Ação Integral de Saúde Mental da OMS 2013-2020.

Em países de baixa renda, a taxa de trabalhadores de saúde mental é baixa: dois profissionais por cada 100 mil habitantes, em comparação com mais de 70 profissionais em países de alta renda. Isso está em contraste com as necessidades existentes, uma vez que a estimativa é que uma em cada 10 pessoas precisa de cuidados de saúde mental em algum momento da vida.

Menos da metade dos 139 países que instituíram políticas e planos para a saúde mental estão alinhados com as convenções de direitos humanos que enfatizam a importância da transição da instituição psiquiátrica para serviços baseados na comunidade, bem como a participação de pessoas com transtornos mentais nas decisões concernentes a elas. E com demasiada frequência, quando são elaborados planos de saúde mental, eles não são apoiados por recursos humanos e financeiros adequados.

Transição para cuidar da comunidade precisa ser acelerada

Apesar da transição em um número de países de alta renda para enfermarias psiquiátricas em hospitais gerais e a provisão de locais de cuidados residenciais baseados na comunidade, ainda restam poucas instalações para cuidados de saúde mental baseados na comunidade em todo o mundo.

A taxa global de leitos em hospitais psiquiátricos foi estimada em seis vezes mais (11,3 por cada 100 mil habitantes) do que a taxa de leitos nas enfermarias psiquiátricas de hospitais gerais.

Ampliação substancial dos recursos financeiros necessários

Os gastos governamentais são inferiores a US$ 1 per capita em países de baixa e média-baixa, enquanto os países de alta renda gastam mais de US$ 80 com saúde mental. A maioria dos custos é destinada a hospitais psiquiátricos, que atendem uma pequena proporção das pessoas que precisam de cuidados.

Além disso, mais de dois terços dos países relatam que os cuidados e o tratamento de pessoas com transtornos mentais graves não estão incluídos nos planos nacionais de seguros de saúde ou de reembolso.

“Ninguém deveria estar perdendo cuidados de saúde mental por causa de seu custo”, afirmou Saxena. “É por isso que o esforço da OMS para a cobertura universal de saúde é tão importante: garantir que todos, em qualquer lugar, tenham acesso aos cuidados dos quais necessitam, incluindo em relação à saúde mental”. Poucos países têm estratégias de prevenção do suicídio A OMS estima que aproximadamente 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Apesar de um ligeiro aumento no número de países que relataram ter uma estratégia nacional de prevenção ao suicídio desde o Atlas de Saúde Mental 2014, apenas um terço dos países de média-alta e alta renda relataram ter tais estratégias implementadas, com apenas 10% de países com baixa e média-baixa renda contando com uma estratégia.

Investimento em saúde mental: bom para a saúde, bom para a economia

Cada US$ 1 investido na ampliação do tratamento para transtornos mentais comuns, como depressão e ansiedade, resulta em um retorno de US$ 4 em melhores condições de saúde e capacidade de trabalho.

A falta de ação é dispendiosa. De acordo com uma análise recente, que calculou custos de tratamento e resultados de saúde em 36 países de baixa, média e alta renda para os 15 anos (entre 2016 e 2030), baixos níveis de reconhecimento e acesso a cuidados para depressão e outro transtorno mental comum, a ansiedade, resultam em uma perda econômica global de um trilhão de dólares todos os anos.

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5694:saude-mental-e-necessario-aumentar-recursos-em-todo-o-mundo-para-atingir-metas-globais&Itemid=839

Promoção da saúde mental no local de trabalho – Parte II

Promoção da saúde mental no local de trabalho – Parte II

O que pode ser feito? Abordagens práticas

Há uma série de fatores (profissionais, sociais, familiares, pessoais, etc.) que podem ser desfavoráveis para a saúde mental. O ambiente de trabalho e a forma como o trabalho é organizado e gerido podem ter efeitos na saúde mental dos trabalhadores. O trabalho pode ser benéfico para a saúde mental, proporcionando um sentimento de inclusão social, estatuto e identidade, e estruturando a ocupação do tempo. Porém, em contrapartida, verificou-se que muitos riscos psicossociais do trabalho aumentam o risco de ansiedade, depressão e esgotamento.

Há diversas abordagens que são sistematicamente adotadas quando se tomam medidas para melhorar a promoção da saúde mental no trabalho:

„ «círculos de saúde» para detetar e debater problemas e para encontrar soluções com base na participação dos trabalhadores;

„ definição de políticas em matéria de saúde mental e questões relacionadas, como a violência e o assédio no trabalho, ou integração das questões da saúde mental na política geral de segurança e saúde no trabalho da empresa;

„ organização da formação destinada aos gestores sobre como reconhecer os sintomas de Estresse nos trabalhadores e como encontrar boas soluções para reduzir esse estresse;

„ realização de um inquérito aos trabalhadores, com questionários anônimos, para descobrir o que os preocupa no trabalho;

„ avaliação das medidas e programas implementados com base nas reações dos trabalhadores;

„ portais web para informar todos os trabalhadores sobre todas as medidas e programas que estão a ser implementados no local de trabalho para melhorar o seu bem-estar mental;

„ cursos/formação destinados aos trabalhadores sobre os modos como podem enfrentar situações que lhes provocam estresse;

„ aconselhamento gratuito para todos os trabalhadores sobre diversos aspetos da sua vida privada ou profissional, de preferência disponibilizado durante o período de trabalho.

 

Abordagens inovadoras da promoção da saúde mental

Em 2009, a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA) (AESST) reuniu uma coleção de estudos de casos sobre saúde mental. O relatório que a presente ficha de estudo sintetiza é baseado nessa recolha de exemplos de boas práticas. O relatório fornece informações sobre a forma de integrar a promoção da saúde mental numa abordagem global tendente a melhorar e a promover
a segurança e saúde e o bem-estar dos trabalhadores no trabalho. Alguns dos estudos de casos são particularmente interessantes devido às abordagens inovadoras e criativas que adotam.

Como quem conta uma história

A Hedensted Kommune, na Dinamarca, desenvolveu e implementou com êxito uma série de políticas de saúde com a participação ativa dos trabalhadores. A Hedensted Kommune optou pela narrativa de histórias para incentivar os trabalhadores a participar no programa. No âmbito desta abordagem, os trabalhadores eram convidados para um «dia de inspiração» e incentivados a partilhar episódios da sua vida profissional que considerassem importantes para a sua saúde, especialmente no trabalho. As políticas foram definidas a partir destes contributos. Assim, as políticas partem dos episódios narrados e de recomendações de caráter geral, não comportando regras estritas. Muito pelo contrário, os métodos para ajudar os trabalhadores são definidos tendo em conta a fase da vida e a situação em que se encontra cada trabalhador.

Ajustar as funções à pessoa

A Creativ Company, na Dinamarca, foi fundada em 2000, com o objetivo de criar um local de trabalho completamente diferente. A principal ideia da Creativ Company é a de que as funções podem ser definidas em função das competências das pessoas em vez de se procurar adaptar as pessoas a um perfil de funções predefinido.

Programas especiais destinados a fomentar um comportamento saudável fora do local de trabalho

A Mars, na Polonia, oferece um programa com diversas componentes que inclui uma avaliação exaustiva do estado de saúde e do estilo de vida de cada trabalhador, propõe diversas etapas para aprender a viver de forma mais saudável e acompanhar os progressos, e, por último, incentiva os trabalhadores a divulgar os ensinamentos adquiridos e a informar as pessoas que fazem parte das suas comunidades.

Aconselhamento profissional e apoio para lidar com fatores não relacionados com o trabalho

A Unidade DRU-S da ATM, em Itália, procura promover o bem-estar oferecendo uma rede destinada às famílias que faculta aconselhamento, sugestões e serviços relacionados com as necessidades parentais e familiares aos trabalhadores. Alguns outros exemplos de abordagens práticas, observados noutros estudos de casos recolhidos, são programas de preparação para a maternidade e para a paternidade e workshops sobre como lidar com um divórcio, com uma morte na família e com o casamento

Eventos sociais para promover estilos de vida saudáveis

A Magiar Telecom, na Hungria, organiza noites de cinema em que são apresentados documentários como método para informar os trabalhadores acerca de tópicos relacionados com a saúde, como situações da vida que provocam estresse, deficiências, violência doméstica, etc. Depois dos filmes, tem lugar um diálogo interativo com peritos, em que são ativamente debatidos os problemas e os
tópicos levantados no filme.

Entrevistas individuais relacionadas com a saúde

A «R», em Espanha, realiza entrevistas individuais com os trabalhadores, num esforço para compreender e analisar a situação profissional de todos os seus empregados. O objetivo consiste em fazer do autoconhecimento o ponto de partida do desenvolvimento pessoal e em dar às pessoas uma ideia do significado do seu trabalho.

Apoio financeiro aos trabalhadores que atravessam uma crise

A IFA, na Suíça, criou uma conta social que apoia os trabalhadores que enfrentam emergências financeiras (como despesas de saúde, despesas com dentista, despesas com o funeral de um membro da
família, etc.). Os trabalhadores da IFA que enfrentam emergências financeiras podem igualmente beneficiar de um empréstimo especial. Podem referir-se como exemplo o financiamento de um parto
numa clínica privada, a concessão de empréstimos aos trabalhadores e habitação da empresa para trabalhadores migrantes ou para trabalhadores que enfrentam problemas de habitação.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://osha.europa.eu/pt/tools-and-publications/publications/factsheets/102