Saúde Mental – Página: 5 – Widoctor

Promoção da saúde mental no local de trabalho – Parte II

Promoção da saúde mental no local de trabalho – Parte II

O que pode ser feito? Abordagens práticas

Há uma série de fatores (profissionais, sociais, familiares, pessoais, etc.) que podem ser desfavoráveis para a saúde mental. O ambiente de trabalho e a forma como o trabalho é organizado e gerido podem ter efeitos na saúde mental dos trabalhadores. O trabalho pode ser benéfico para a saúde mental, proporcionando um sentimento de inclusão social, estatuto e identidade, e estruturando a ocupação do tempo. Porém, em contrapartida, verificou-se que muitos riscos psicossociais do trabalho aumentam o risco de ansiedade, depressão e esgotamento.

Há diversas abordagens que são sistematicamente adotadas quando se tomam medidas para melhorar a promoção da saúde mental no trabalho:

„ «círculos de saúde» para detetar e debater problemas e para encontrar soluções com base na participação dos trabalhadores;

„ definição de políticas em matéria de saúde mental e questões relacionadas, como a violência e o assédio no trabalho, ou integração das questões da saúde mental na política geral de segurança e saúde no trabalho da empresa;

„ organização da formação destinada aos gestores sobre como reconhecer os sintomas de Estresse nos trabalhadores e como encontrar boas soluções para reduzir esse estresse;

„ realização de um inquérito aos trabalhadores, com questionários anônimos, para descobrir o que os preocupa no trabalho;

„ avaliação das medidas e programas implementados com base nas reações dos trabalhadores;

„ portais web para informar todos os trabalhadores sobre todas as medidas e programas que estão a ser implementados no local de trabalho para melhorar o seu bem-estar mental;

„ cursos/formação destinados aos trabalhadores sobre os modos como podem enfrentar situações que lhes provocam estresse;

„ aconselhamento gratuito para todos os trabalhadores sobre diversos aspetos da sua vida privada ou profissional, de preferência disponibilizado durante o período de trabalho.

 

Abordagens inovadoras da promoção da saúde mental

Em 2009, a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA) (AESST) reuniu uma coleção de estudos de casos sobre saúde mental. O relatório que a presente ficha de estudo sintetiza é baseado nessa recolha de exemplos de boas práticas. O relatório fornece informações sobre a forma de integrar a promoção da saúde mental numa abordagem global tendente a melhorar e a promover
a segurança e saúde e o bem-estar dos trabalhadores no trabalho. Alguns dos estudos de casos são particularmente interessantes devido às abordagens inovadoras e criativas que adotam.

Como quem conta uma história

A Hedensted Kommune, na Dinamarca, desenvolveu e implementou com êxito uma série de políticas de saúde com a participação ativa dos trabalhadores. A Hedensted Kommune optou pela narrativa de histórias para incentivar os trabalhadores a participar no programa. No âmbito desta abordagem, os trabalhadores eram convidados para um «dia de inspiração» e incentivados a partilhar episódios da sua vida profissional que considerassem importantes para a sua saúde, especialmente no trabalho. As políticas foram definidas a partir destes contributos. Assim, as políticas partem dos episódios narrados e de recomendações de caráter geral, não comportando regras estritas. Muito pelo contrário, os métodos para ajudar os trabalhadores são definidos tendo em conta a fase da vida e a situação em que se encontra cada trabalhador.

Ajustar as funções à pessoa

A Creativ Company, na Dinamarca, foi fundada em 2000, com o objetivo de criar um local de trabalho completamente diferente. A principal ideia da Creativ Company é a de que as funções podem ser definidas em função das competências das pessoas em vez de se procurar adaptar as pessoas a um perfil de funções predefinido.

Programas especiais destinados a fomentar um comportamento saudável fora do local de trabalho

A Mars, na Polonia, oferece um programa com diversas componentes que inclui uma avaliação exaustiva do estado de saúde e do estilo de vida de cada trabalhador, propõe diversas etapas para aprender a viver de forma mais saudável e acompanhar os progressos, e, por último, incentiva os trabalhadores a divulgar os ensinamentos adquiridos e a informar as pessoas que fazem parte das suas comunidades.

Aconselhamento profissional e apoio para lidar com fatores não relacionados com o trabalho

A Unidade DRU-S da ATM, em Itália, procura promover o bem-estar oferecendo uma rede destinada às famílias que faculta aconselhamento, sugestões e serviços relacionados com as necessidades parentais e familiares aos trabalhadores. Alguns outros exemplos de abordagens práticas, observados noutros estudos de casos recolhidos, são programas de preparação para a maternidade e para a paternidade e workshops sobre como lidar com um divórcio, com uma morte na família e com o casamento

Eventos sociais para promover estilos de vida saudáveis

A Magiar Telecom, na Hungria, organiza noites de cinema em que são apresentados documentários como método para informar os trabalhadores acerca de tópicos relacionados com a saúde, como situações da vida que provocam estresse, deficiências, violência doméstica, etc. Depois dos filmes, tem lugar um diálogo interativo com peritos, em que são ativamente debatidos os problemas e os
tópicos levantados no filme.

Entrevistas individuais relacionadas com a saúde

A «R», em Espanha, realiza entrevistas individuais com os trabalhadores, num esforço para compreender e analisar a situação profissional de todos os seus empregados. O objetivo consiste em fazer do autoconhecimento o ponto de partida do desenvolvimento pessoal e em dar às pessoas uma ideia do significado do seu trabalho.

Apoio financeiro aos trabalhadores que atravessam uma crise

A IFA, na Suíça, criou uma conta social que apoia os trabalhadores que enfrentam emergências financeiras (como despesas de saúde, despesas com dentista, despesas com o funeral de um membro da
família, etc.). Os trabalhadores da IFA que enfrentam emergências financeiras podem igualmente beneficiar de um empréstimo especial. Podem referir-se como exemplo o financiamento de um parto
numa clínica privada, a concessão de empréstimos aos trabalhadores e habitação da empresa para trabalhadores migrantes ou para trabalhadores que enfrentam problemas de habitação.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://osha.europa.eu/pt/tools-and-publications/publications/factsheets/102

Promoção da saúde mental no local de trabalho – Parte I

Promoção da saúde mental no local de trabalho – Parte I

O que é a promoção da saúde mental no local de trabalho?

A promoção da saúde mental inclui todas as ações que contribuem para uma boa saúde mental. Impõe-se perguntar: O que é a saúde mental? Segundo a Organização Mundial de Saúde, saúde mental é o «estado de bem-estar» no qual o indivíduo:
„ realiza as suas capacidades;
„ pode fazer face ao estresse normal da sua vida;
„ pode trabalhar de forma produtiva e frutífera; e
„ pode contribuir para a comunidade em que se insere(1).

A promoção da saúde mental tem como principal objetivo aquilo que mantém e melhora o nosso bem-estar mental. Importa sublinhar que, para ser tão eficaz quanto possível, a promoção da saúde mental deve incluir uma combinação da gestão dos riscos e promoção da saúde.

Os fatores que, no trabalho, garantem uma boa saúde mental são os seguintes:
„ apoio social;
„ sentimento de inclusão e de realização de um trabalho com significado;
„ encontrar sentido no trabalho realizado;
„ ter condições para tomar decisões no trabalho;
„ ter condições para organizar o trabalho de acordo com o seu próprio ritmo.

Porquê investir na promoção da saúde mental?

Em vários Estado-Membros da União Europeia, o absentismo, o desemprego e a incapacidade prolongada devidos ao estresse relacionado com o trabalho e a problemas de saúde mental têm vindo a agravar-se. Aliás, estima-se que, dentro em breve, a depressão será a principal causa de ausência por doença na Europa. Para além do absentismo, as consequências de uma má saúde mental estão ligadas a inúmeros outros efeitos negativos para as empresas, como níveis de desempenho e produtividade reduzidos, pouca motivação e elevada rotatividade dos trabalhadores.

Os empregadores europeus são legalmente obrigados a gerir todos os tipos de riscos para a segurança e saúde dos trabalhadores, incluindo os riscos para a sua saúde mental. Importa, contudo, sublinhar que uma boa promoção da saúde mental deve comportar ambos os aspetos (gestão dos riscos e promoção da saúde). O investimento na saúde mental e no bem-estar dos trabalhadores tem inúmeros benefícios para as empresas (como, por exemplo, um melhor desempenho e uma maior produtividade dos trabalhadores). Pode igualmente melhorar a imagem das empresas. Existem na Europa inúmeros prêmios relacionados com o local de trabalho que são atribuídos a empresas com um desempenho excecional em matéria de segurança e saúde no trabalho e que podem melhorar a reputação e o perfil das empresas, tanto a nível nacional como internacional.

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://osha.europa.eu/pt/tools-and-publications/publications/factsheets/102

Alimentos podem ajudar na saúde mental

Alimentos podem ajudar na saúde mental

A ingestão de alimentos corretos pode melhorar a saúde mental, afirma um estudo realizado na Grã-Bretanha.

A pesquisa contou com a participação de 200 pessoas e mostrou que, em 88% dos casos, uma mudança na dieta ameniza sintomas de doenças mentais.

Vinte e seis por cento apresentaram mudanças significativas na alteração de humor; 26% nos ataques de pânico e ansiedade e 24% em depressão.

Os pesquisadores do Projeto de Alimentos e Humor – de uma organização britânica chamada Mind (Mente) – classificam os alimentos como “promotores do estresse” e “promotores do humor” que, respectivamente, levariam a uma piora e a uma melhora do sistema de funcionamento da mente.

Sensações

Apesar de provocarem uma boa sensação assim que são ingeridos, açúcar (num índice de 80%), cafeína (79%), álcool (55%) e chocolate (53%) são os principais promotores do estresse.

Os promotores do humor incluem água (80%), verduras (78%), frutas (72%) e peixes oleosos (52%).

Comer com regularidade e fazer um café da manhã reforçado também são formas de fortalecer a saúde mental.

Pelo menos um terço das pessoas avaliadas descreveram que melhorias em seu humor estavam associadas à ingestão de certos tipos de alimentos.

“Quando se descobre o tipo de alimento que desencadeia o processo, ele todo fica mais fácil”, disse um dos entrevistados.

Amanda Geary, uma das que reuniram as opiniões dos pesquisados, disse que as mudanças no estilo de vida – para que as pessoas se alimentem melhor para ter melhor humor – são simples.

Richard Brook, executivo-chefe da Mind, afirma que mais pesquisas científicas sobre o tema serão bem-vindas.

“Cada pessoa deve consultar médicos e observar que tipo de alimento lhe convém”, acredita.

Wendy Doyle, da Associação Britânica de Nutrição, ressalta a importância de verduras e peixes oleosos, como o salmão, fazerem parte da dieta.

“Eles têm bons nutrientes e ajudam o organismo a ter um bom fluido de líquidos, para não desidratar”, explica a cientista.

A prática de exercícios físicos também auxilia o processo.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/020918_comidamtc.shtml

Os benefícios das atividades físicas para a saúde mental

Os benefícios das atividades físicas para a saúde mental

Você já deve conhecer alguns dos inúmeros benefícios da atividade física para saúde, como o fortalecimento muscular, o aumento da capacidade cardiopulmonar e o bom funcionamento e desempenho dos órgãos, por exemplo. A psicóloga Maitê Hammoud escreveu este artigo para ampliar sua visão sobre os benefícios desse tipo de atividade para o nosso organismo.

No entanto, você sabia que as atividades físicas proporcionam também inúmeros benefícios para a saúde mental? Sabia que esses benefícios refletem diretamente na autoestima e ainda na qualidade de vida da pessoa, significando melhor disposição, concentração e desempenho profissional?

Para que você conheça um pouco mais sobre os benefícios das atividades físicas para a saúde mental, destacamos 7 pontos. Veja:

1) Diminuição do risco de doenças

A prática regular de atividades físicas proporciona a redução dos níveis dos hormônios estressantes, como a adrenalina, a noradrenalina e o cortisol. Isso significa o aumento da autoestima, a diminuição da insatisfação, da depressão e da ansiedade.

Além disso, libera a endorfina (conhecido como o hormônio da felicidade), que promove a sensação de bem-estar, euforia e alívio. Libera também a dopamina, uma espécie de tranquilizante e analgésico natural.

Tais alterações proporcionam uma sensação relaxante de longo prazo, a qual contribui significativamente para um estado de equilíbrio psicossocial e emocional mais estável para enfrentar situações estressantes do cotidiano.

2) Memória mais ativa

O aumento da capacidade aeróbica tem relação direta com a melhoria das funções cognitivas, contribuindo para a integridade do cérebro e do sistema cardiovascular, o que otimiza o tempo de reação e a amplitude da memória.

Estudos mostram que idosos que praticam atividades físicas, como caminhar 3 vezes por semana durante 1 hora, têm uma melhora significativa na atenção, na memória, na agilidade motora e no humor.

À medida que envelhecemos, crescem os riscos de contrair doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer. Porém, ao praticar exercícios físicos, principalmente entre os 25 e 45 anos, conseguimos aumentar as substâncias químicas do cérebro que previnem a degeneração dos neurônios do hipocampo.

3) Dormir melhor

O exercício físico pode proporcionar a liberação de hormônios que influenciam no ciclo sono-vigília, o que significa dormir melhor. Isso faz com que a pessoa passe a ter mais disposição para o dia a dia, o que favorece também a estabilidade do humor.

4) Melhoria da autoestima

Se exercitar regularmente contribui com o alcance de metas, como a perda de peso e a tonificação dos músculos, o que favorece a construção e a otimização da autoestima. Além disso, uma melhor percepção de si mesmo, aliada à autoestima elevada, consequentemente ajuda na saúde emocional. Com isso, os relacionamentos também podem melhorar muito. Por conta da autoconfiança, você poderá se sentir mais à vontade para se aproximar das pessoas.

5) Envolvimento social

Exercícios físicos oferecem a oportunidade de envolvimento social, principalmente na fase adulta e terceira idade. Com a vida profissional e afetiva mais estáveis, conhecer novas pessoas, fazer novas amizades e manter vínculos prazerosos no cotidiano se tornam cada vez mais difíceis.

Desse modo, a prática esportiva auxilia no envolvimento social, seja através de novos vínculos na academia, seja por meio de grupo de pessoas com interesses em comum. Ainda pode servir para resgatar amizades para uma partida de futebol, uma corrida, ou também uma caminhada no bairro, por exemplo.

 

6) Desenvolvimento de habilidades emocionais

Assim como na vida cotidiana, no esporte também somos testados quanto aos nossos limites e capacidade de superação. Desenvolvemos a dedicação e a disciplina, e aprendemos a lidar com as derrotas e as vitórias. Saber trabalhar bem com os êxitos e com os fracassos é uma grande conquista.

7) Recuperação de dependentes químicos

Como dito antes, diante de estímulos prazerosos (como sexo, drogas ou alimentos), o cérebro libera como resposta a dopamina. Infelizmente, algumas pessoas se tornam dependentes de algumas substâncias que produzem a liberação de dopamina em grandes quantidades, como as drogas.

Sendo assim, os exercícios físicos podem ajudar na recuperação de dependentes. Isso porque, além da liberação da substância, também ajudam na ressocialização e criação de novos vínculos de amizade.

Sabemos o quanto é difícil ficar longe do estresse, das angústias, tristezas e ansiedades do dia a dia. Porém, os exercícios físicos podem se tornar um grande aliado para isso.

Ainda não existem pesquisas conclusivas e que demonstrem qual é a melhor atividade física. Por isso, é importante escolher a que seja mais prazerosa.Vale lembrar que a prática de 30 minutos, 3 vezes por semana, já oferece resultados a curto prazo.

Lembre-se ainda que não é necessário realizar um esporte específico ou fazer grandes investimentos. O mais importante é dar o primeiro passo e se exercitar. Na ausência de recursos financeiros, opte por caminhadas, academias ao ar livre, corridas, entre outros. Independente do peso, idade ou sexo, o fundamental é buscar ações que ajudem a aumentar a percepção positiva e a autovalorização, as quais trazem inúmeros benefícios para as saúdes física e mental.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://br.mundopsicologos.com/artigos/os-beneficios-das-atividades-fisicas-para-a-saude-mental

A importância da empatia no atendimento médico

A importância da empatia no atendimento médico

Somente quem já passou por um atendimento apressado e impessoal em um consultório médico sabe como é desagradável lidar com profissionais que não demonstram empatia por seus pacientes. Para o médico, isso se reflete em uma imagem negativa a respeito do profissional, do atendimento e até do consultório, ou seja, não contribui em nada para manutenção e captação de clientes.

Fala-se muito sobre o uso da empatia para melhorar os resultados em um atendimento e, consequentemente, melhorar a percepção do cliente sobre seu trabalho e sua empresa. Mas será que isso funciona na prática?

Para a psicologia, a empatia é o poder de entrar na personalidade do outro e experimentar imaginativamente suas experiências. No contexto da medicina, essa habilidade, que não deve ser confundida com a simpatia, pode ser o grande diferencial para um atendimento bem-sucedido.

Otimização da comunicação eficaz

Quando o médico demonstra empatia por seu paciente, deixa-o mais seguro durante o atendimento e, consequentemente, bem mais confortável para confiar informações e sentimentos sobre o problema que possui e os sintomas apresentados.

Dessa forma, o médico conseguirá recolher informações mais precisas e em maior quantidade durante a anamnese.  Isso poupa tempo e esforços em exames físicos ou complementares, otimizando o atendimento como um todo.

Os pacientes confiam mais no médico

Um dos maiores benefícios da empatia na relação entre médico e paciente – e sem sombra de dúvidas, o ponto mais relevante para os profissionais da saúde mais pragmáticos – é que a habilidade de ser empático tem impactos positivos também nos aspectos fisiológicos.

Entre algumas vantagens identificadas por um estudo publicado nos Estados Unidos em 2011, estão o melhor funcionamento do sistema imunológico, altas mais rápidas após a realização de cirurgias e até mesmo a redução do período em que os sintomas se manifestam em doenças como a gripe. Outro estudo americano de 2011, do Jefferson Medical College, mostra que os pacientes diabéticos de médicos empáticos estavam mais dispostos a controlar os níveis de açúcar no sangue e colesterol do que aqueles atendidos por profissionais que não trabalham com essa abordagem.

Construir um diálogo empático ajuda bastante os pacientes a seguirem os tratamentos e melhorarem mais rápido por realmente confiarem no profissional à sua disposição.

Verificação de efeitos terapêuticos

Ainda que muitos médicos sejam extremamente objetivos e pragmáticos ao conduzir suas tarefas, eles também devem se lembrar de que os pacientes, na maioria das vezes, reagem de uma forma mais emotiva aos problemas de saúde.

Dessa forma, um profissional empático faz com que o paciente se abra sobre suas principais angústias e aflições, trazendo um efeito terapêutico positivo para as pessoas, além de torná-las mais colaborativas e satisfeitas com todo o processo de atendimento.

Pensamento empreendedor: manutenção de clientes

Quando o médico também é empreendedor, fazendo a gestão de uma clínica ou consultório, a empatia é ainda mais importante, pois ela é uma das chaves para o desenvolvimento de relacionamentos mais duradouros entre as partes. Afinal, que paciente terá interesse em agendar uma nova consulta após constatar que os médicos do local não demonstram qualquer tipo de sensibilidade por seus problemas?

Já sabemos que fatores como a competitividade entre profissionais, pacientes desconfiados e até mesmo a transformação da medicina em negócio fazem com que muitos médicos estejam mais propensos a serem impessoais com seus pacientes, seja para acelerar a rotina durante os atendimentos ou para evitar qualquer tipo de envolvimento pessoal. No entanto, todos os benefícios trazidos pela empatia para a saúde e satisfação dos pacientes não podem ser ignorados pelos médicos que querem ver seu trabalho dando resultados.

Prezar pela comunicação empática no atendimento dos pacientes é fundamental para os médicos empreendedores que querem construir seu nome e sua empresa de forma sólida, ética e bem-sucedida.

 

TEXTO RETIRADO DO SITE: https://saudebusiness.com/noticias/importancia-empatia-atendimento-medico/

Depressão no ambiente hospitalar

Depressão no ambiente hospitalar

Falar sobre depressão é sempre necessário e impostergável. Neste ano de 2017 deve ser um tema ainda mais explorado, pois foi eleito o ano de combate à depressão pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com o lema “vamos conversar?”; tendo como objetivos eliminar os estigmas, disseminar informações e incentivar as pessoas a buscarem ajuda e tratamento.

Considerando a importância do tema depressão, cabe ressaltar que a estatística mundial, segundo a OMS, estimada em que mais de 300 milhões de pessoas sofrendo de depressão (dados de 2015), sendo que só no Brasil são 11 milhões (dados de 2013). E que até 2020 será a segunda causa mais incapacitante em países desenvolvidos e a primeira em países em desenvolvimento.

Então faço um recorte para falar da depressão no ambiente hospitalar, que abrange a todos que ali estão, desde o paciente até o profissional de saúde, passando inclusive por aqueles que prestam serviços administrativos.

Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde e a Organização Mundial de Saúde (OPAS/OMS), “a depressão é um transtorno mental comum, caracterizado por tristeza persistente e uma perda de interesse por atividades que as pessoas normalmente gostam, acompanhadas por uma incapacidade de realizar atividades diárias por 14 dias ou mais. Além disso, as pessoas com depressão normalmente apresentam vários dos seguintes sintomas: perda de energia; alterações no apetite; dormir mais ou menos do que se está acostumado; ansiedade; concentração reduzida; indecisão; inquietação; sentimentos de inutilidade, culpa ou desesperança; e pensamentos de autolesão ou suicídio.”

Lembrando que atividades da vida diária (AVD) são aquelas atividades básicas que normalmente a pessoa executa sozinha, como banhar-se, alimentar-se e vestir-se, dentre outras.

Assim, a depressão não só afeta a própria pessoa, “mas os que estão à sua volta: sua família, seus amigos e colegas. Afeta comunidades e sociedades e tem um alto custo social e econômico. Devido ao estigma associado à depressão, poucos querem falar sobre ela” (Dra. Clarissa F. Etienne, diretora da OPAS/OMS, in “O ano de 2017 será da luta contra a depressão. Informe-se e ajude alguém”, http://brasileiros.com.br/MqKNL,  acesso: 13/08/2017).

Referindo-se ao profissional de saúde, Oliveira e Cunha (p. 80) nos colocam que “(…) na área da saúde o profissional deve estar em boas condições físicas e emocionais para que possa desempenhar um serviço de qualidade”. Pensamos, então, que é imprescindível,  pois estará lidando com pessoas doentes, vulneráveis e mais sensíveis às intempéries, bem como com suas famílias, que demandam atenção e que podem estar inseguras quanto ao seu futuro, o que pode gerar medo, ansiedade e depressão. Se não estiverem bem poderão se prejudicar, bem como prejudicar aqueles que estão sob seus cuidados.

E o que acontece muitas vezes é que os “profissionais da área de saúde, incluindo médicos, tem diminuído a capacidade de produção, realizando atividades com menor precisão, aumentando o absenteísmo, adoecido com maior frequência, trabalhando tensos e cansados. Estão ansiosos e depressivos, com atenção dispersa, desmotivados e com baixa realização pessoal devido ao alto grau de estresse em suas atividades”. (Oliveira e Cunha apud Santos, p. 81-82).

Mas o que é estresse? Segundo Lentine, Sonda e Biazin é “resposta fisiológica, psicológica e comportamental de uma pessoa, visando adaptação a mudanças ou situações novas, geradas por pressões externas ou internas” (p. 103). E ainda “é um estado produzido por uma mudança no ambiente que é percebido como desafiador, ameaçador ou perigoso para o balanço ou equilíbrio dinâmico da pessoa” (p. 105).

O stress ao qual estão submetidos, tanto profissionais de saúde quanto pacientes, pode levá-los à depressão, esta por sua vez levá-los à desatenção que pode gerar danos. No caso de profissionais de saúde estes danos podem causar prejuízos irreparáveis, levando-os a negligenciar a escuta do paciente através da anamnese, das queixas, a prescrever inadequadamente, avaliar erroneamente os resultados de exame, chegando à iatrogenia. No caso de pacientes podem sofrer danos por se medicarem inadequadamente, esquecendo o horário, confundindo os medicamentos, deixando de fazerem os exames pedidos, dentre outros. A desatenção em grau elevado pode, inclusive, provocar a morte do paciente, seja por negligência médica, da enfermagem ou do próprio paciente.

O trabalho em equipe se faz emergente quando falamos em depressão, pois “é cada vez mais necessário que haja ente os profissionais um trabalho de cooperação, para que a saúde seja vista de maneira total e não unicamente como um problema biológico ou psicológico”. (Escobar y Medina, p. 261). Pois a depressão mal diagnosticada será “mal” tratada, o que poderá repercutir na incapacitação prolongada do sujeito ou até mesmo culminar na sua morte.

Um dos maiores problemas que encontramos é ser a depressão pouco diagnosticada por psiquiatras, porque os pacientes não chegam até eles, permanecendo em consulta com clínicos ou outras especialidades médicas. “Os motivos para o subdiagnóstico advêm de fatores relacionados aos pacientes e aos médicos. Os pacientes podem ter preconceito em relação ao diagnóstico de depressão e descrença em relação ao tratamento. Os fatores relacionados aos médicos incluem falta de treinamento, falta de tempo, descrença em relação à efetividade do tratamento, reconhecimento apenas dos sintomas físicos da depressão e identificação dos sintomas de depressão como uma reação ‘compreensível’” (FLECK, et al).

Sempre considerando que as causas da depressão são multifatoriais, biopsicossociais, podemos levantar algumas mais comuns:

  • Doença do paciente, sendo que quanto mais grave a patologia, mais suscetível estará o paciente de desencadear um quadro depressivo. No profissional, a dificuldade em lidar com as limitações da sua profissão.

  • Conflito entre a equipe ou entre profissional e paciente.

  • Stress quando o paciente não se consegue o reajuste necessário à adaptação exigida pela patologia e no caso de profissionais de saúde quando não conseguem lidar adequadamente com pressões e tensões.

  • Incapacidade para ajudar os pacientes e seus familiares em suas demandas e o paciente na incapacidade para o enfrentamento da doença, incapacidade para lidar com sofrimento.

  • Autonomia. No caso de pacientes falta de autonomia para decidir, para continuar sua vida como antes. No caso de profissionais, falta de autonomia para assumir os riscos inerentes à sua conduta.

  • Formação deficitária dos profissionais de saúde, que desconsidera o paciente enquanto um todo, fragmentando-o ao objeto de seu estudo. Por exemplo, para os psicólogos a mente, para os médicos o biológico. Como se o paciente não fosse um ser único e indivisível.

  • Despreparo para lidar com a morte, tanto de pacientes e familiares, quanto dos profissionais de saúde. Pois a morte ainda continua sendo um tabu em nossa sociedade.

  • Frustrações quando não se alcança os resultados desejados, como a cura e a melhora, que repercutem tanto em pacientes quanto nos profissionais de saúde.

  • Vergonha por sentirem-se deprimidos, tanto profissionais quanto pacientes, o que os leva a não procurar tratamento.

  • Sofrimento do paciente e do profissional de saúde como reflexo de diversas causas.

  • Dificuldade em acolher o sofrimento do outro, seja como paciente, familiar ou profissional de saúde.

  • Sensação de fracasso, principalmente no atendimento de pacientes crônicos e/ou terminais, quando todos os esforços não são capazes de ajudá-los a melhorar. Os pacientes em relação a não conseguirem alcançar os resultados desejados e pelos quais tanto se empenharam. Isso acontece com frequência quando vem a recidiva do câncer.

  • Dores físicas e emocionais.

  • E ainda imaturidade, baixa remuneração e excesso de trabalho para os profissionais, dentre outras.

E como as pessoas falam de seus sintomas? Como os descrevem? Seguem alguns exemplos que podem ser descritos por pacientes, familiares e/ou profissionais de saúde, que nos servem de alerta para um possível caso de depressão.

  • Dificuldade para lidar com problemas.

  • Sensação de cabeça “vazia”.

  • Sensação de cansaço físico e emocional.

  • Prostração ligada ao cansaço físico e emocional.

  • Ansiedade frente a doença e o tratamento.

  • Labilidade de humor.

  • Estresse físico e emocional.

  • Memória ruim. Lembrando que de modo geral quando as pessoas se queixam da memória, estão se queixando da atenção, pois para que haja algum problema de memória é preciso que haja alguma alteração funcional.

  • Sensação de vazio, de impotência e de fracasso.

  • Desmotivação, perda de interesse por qualquer atividade que antes lhe dava prazer.

  • Perda de tônus, fraqueza muscular.

  • Sentimento de intensa tristeza.

Temos também que considerar que muitas pessoas, apesar dos sintomas e das queixas, não reconhecem que estão deprimidas e se recusam a buscar tratamento. Assim, é importante investigar junto a elas como lidam com suas queixas, o porquê delas existirem e o que os sintomas querem nos dizer através do corpo.

Mas antes de qualquer intervenção é preciso lembrar que a depressão vem carregada de preconceitos por se tratar de doença mental, entendida muitas vezes como “frescura” de quem reclama. Carrega o estigma de ser considerada pela pessoa deprimida como uma vergonhosa doença mental e é encarada como um fracasso pessoal. É considera tabu em nossa sociedade, o que leva as pessoas a não procurarem o adequado tratamento. Estes preconceitos devem ser valorados antes de qualquer intervenção, para que não caiamos na leitura mais simplória de tratar-se de um problema que pode ser tratado apenas com medicamentos.

Campos nos traz uma leitura diferenciada para a depressão, como sintoma do sofrimento psíquico, onde em psicoterapia o sujeito pode resgatar sua interioridade e acessar-se através da fala. Assim, deve ser tratada como um sofrimento único e individual, peculiar de cada um.

Proponho que pensemos a depressão a partir de 3 classificações para que possamos conduzir nossos atendimentos.

  • Depressão endógena: aquela provocada por fatores constitucionais, que não depende de fatores externos para ser desencadeada. Podemos pensar também na depressão que inicialmente advém de uma doença, como encefalopatia, e que mesmo depois de tratada a patologia, continua a existir devido às lesões provocadas pela doença; também podemos pensar naquela provocada por uso de medicamento, pois não se trata de uma resposta emocional, mas sim de uma resposta orgânica.

  • Depressão reativa: é aquela depressão que vem como resposta emocional a fatores externos, e se dá, 2º Elisabeth Kübler-Ross, como reação a perdas passadas.

  • Depressão preparatória: é um termo cunhado por E. Kübler-Ross a partir de seus estudos junto a pacientes terminais. Refere-se à depressão que se dá em decorrência de perdas futuras. É comum em pacientes terminais quando percebem que seu fim está próximo.

Campos nos traz que os benefícios da medicação serão sentidos como melhora em 60 a 65% dos pacientes e que destes, 50% terão recaídas. O que nos mostra um índice insatisfatório com o tratamento medicamentoso. Ele se refere neste contexto como “farmacoterapia da depressão”.

A medicação ajuda a tirar o paciente da letargia e em um primeiro momento é interessante por nos possibilitar trabalhá-lo em terapia. Porque quando o paciente está em quadro muito grave de depressão, podendo mesmo ser confundido com quadro demencial, ele não consegue nem raciocinar e nem ter atenção, bem como nada o interessa, nem mesmo seu tratamento. Todo cuidado é pouco neste momento, pois tirando o paciente do quadro de letargia pode-se ajudá-lo a passar ao ato e este intentar o suicídio. Foi o que ocorreu há anos atrás quando lançaram o “Prozacâ” (fluoxetina) e houve uma intensa divulgação pela mídia como a “pílula da felicidade”.

Hoje temos uma tendência à medicalização da dor, do sofrimento e da depressão, como uma solução mágica e rápida. Onde a medicalização é destinada aos sintomas descritivos, como colocados pelo DSM-5, desconsiderando os fatores psicossociais de quem adoece. No entanto, não adianta combater sintomas sem eliminar as causas.

Campos nos chama a atenção para os remédios ganhando “o estigma de recurso terapêutico plenamente efetivo”, com promessa de felicidade. Nos traz em seu texto que “o conceito de medicalização foi cunhado e trabalhado em sua nova dimensão conceitual e histórica mais ampla por Foucault (1998, 2008), para afirmar o lugar de centralidade que passa a ocupar o saber médico a partir da modernidade na configuração de dinâmica social e política” (p. 31)

Assim, podemos dizer que a medicalização do sofrimento tenta combater sintomas sem tratar as causas, que “problemas não médicos passam a ser definidos e tratados como tais, ou seja, em que as diversas dimensões sociais, históricas, políticas e culturais, próprias da condição humana, passam a ser reduzidas estritamente a uma dimensão biológica e médica, com notáveis efeitos ideológicos”. (CAMPOS, p. 31). E mais adiante Campos completa dizendo que o medicamento é “uma promessa de alívio da dor sem entrar na subjetividade” (p. 32).

Então temos a sedução da medicação que está na promessa de resolução de conflitos psíquicos, sem que o sujeito tenha que entrar na dimensão psíquica de seu sofrimento. Desta maneira, torna-se mais fácil e cômodo, mesmo que com o baixo alcance de resultados, transferir a responsabilidade pela felicidade para algo externo (medicamento) ao invés de responsabilizar-se por si mesmo em um processo psicoterapêutico, lidando com seu sofrimento psíquico.

As pessoas nos chegam, de modo geral, queixando-se de verem o mundo em preto e branco, sem cor e sem alegria. Relatando que se perderam em um mundo cruel e sem atrativos, onde seu sofrimento supera qualquer vontade de fazer alguma coisa. E isso me remete a Campos (p. 32) quando ele diz que “é um indivíduo a quem dói desejar”. Já não há o que desejar e “seu refúgio está no corpo: no corpo que dorme, que se recusa a levantar, que não quer viver. Seu desejo é ver isso passar, mas nessa passagem há uma resistência muito grande de entrada nas fantasias que ordenam esse sofrimento”.

Como uma maneira de se alcançar essa subjetividade e de resgatar-se enquanto sujeito, Campos apud Machado e Ferreira nos trazem que “qualquer reflexão sobre si fica excluída ou se torna obsoleta, uma vez que remete ao sofrimento psíquico e à interioridade do sujeito. Esquece-se, por exemplo, que a psicanálise, acessando o inconsciente e tomando a depressão como um sintoma do sofrimento psíquico em suas diferentes roupagens na atualidade, é capaz de resgatar essa interioridade e acessar a verdade do sujeito através da fala” (p. 32).

E qual não é o lema da OMS neste 2017 quando o elege para o ano do combate à depressão? “Vamos conversar”. Com este lema busca-se incentivar as pessoas a falarem da sua tristeza, da sua depressão. “O primeiro passo para receber tratamento é falar. Se você conhece alguém com depressão, escute o que ela tem a dizer. Se você sofre de depressão, dê o primeiro passo hoje. Fale com alguém”. (CLARISSA F. ETIENNE, diretora da OPAS/OMS).

E se é você a pessoa que ouve quem está deprimido, seja acolhedor e compreensivo, não julgue, não critique, não desvalorize as queixas e ofereça ajuda.

E indo mais além do incentivo a falar, devemos também estar preparados, não só os profissionais de saúde, mas toda a população, para perceber os sintomas da depressão em terceiros, aqueles que não se dão conta de que estão deprimidos, para só, então, motivá-los a falar do que os incomoda.

Na minha prática tenho pacientes que chegam ao consultório dizendo que estão bem e que vieram porque alguém os mandou vir. Neste momento aproveito que já estão ali e já faço a minha intervenção iniciando uma pequena anamnese de maneira a motivá-los a falar. Vejo-os como quem percebe a vida como uma fotografia impressa e já velha que vai se esmaecendo com o tempo até se apagar. É preciso interceder, é preciso ajudá-los de alguma maneira a se resgatarem neste tempo, de maneira a encontrarem o que antes lhes dava prazer. E isso é possível através da terapia, da sua fala que é escutada em si mesmo, passível de compreensão, de uma releitura, de uma elaboração.

Temos então como alternativas de tratamentos para reduzir os sintomas da depressão o uso de medicamentos, que ajudarão a pessoa em um primeiro momento, mas não resolverão sua depressão, temos também a psicoterapia, e a psicoterapia associada ao medicamento. E para tratar a depressão temos a psicoterapia e a psicoterapia associada ao medicamento. Sempre considerando que a depressão grave pode levar o sujeito ao suicídio. “Estima-se que cerca de 90% dos indivíduos que puseram fim às suas vidas cometendo suicídio tinham alguma perturbação mental e que, na altura, 60% deles estavam deprimidos. (…) O risco elevado de suicídio também tem sido associado com a esquizofrenia, abuso de substâncias, perturbações da personalidade, perturbações da ansiedade, incluindo perturbação de stress pós-traumático, e co-morbidade destes diagnósticos” (OMS, p. 5, Prevenção do Suicídio).

Não são raros os pacientes que me chegam ao consultório já estando medicados há meses e sem resultado satisfatório, queixando-se de problemas somáticos intimamente ligados ao emocional.

Segundo a psiquiatra Alexandrina Maleiro, na I Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos, devemos estar alertas para “algumas hipóteses em relação ao comportamento dos médicos que cometem suicídio:

  • Especial vulnerabilidade. “Manifestam especial vulnerabilidade ou experiências de eventos circunstanciais diferentes (recente perda profissional ou pessoal, problemas financeiros ou de licença) em relação aos outros médicos”.

  • Jornada de trabalho excessiva. “Tendem a trabalhar mais horas que os outros colegas”.

  • Abuso de álcool e/ou outras drogas.

  • Insatisfação com a profissão. “Estão mais insatisfeitos com suas carreiras médicas que outros médicos”.

  • Intenção de suicidar-se. “Dão sinais de aviso da intenção de suicidar-se a outros”.

  • Transtorno mental e emocional. “Têm transtorno mental e emocional com mais frequência”.

  • Problemas familiares. “Tiveram dificuldades na infância e seus problemas familiares são comuns”.

  • Automedicação. “Automedicam-se mais frequentemente que os outros colegas”.

E quanto aqueles pacientes internados? Diante da minha prática em hospitais pude perceber que algumas situações demandam especial atenção dos profissionais de saúde, pois em muitos casos pode culminar em um processo depressivo. Temos, então, como alguns exemplos:

  • Diagnóstico de doença grave. O que deixa o paciente “sem chão” e sem esperança de melhora ou cura. Pode sentir-se desesperado frente ao diagnóstico.

  • Diagnóstico de doença crônica com limitação das suas atividades.

  • Impossibilidade de continuidade de tratamento por terem se esgotado todas as possibilidades terapêuticas.

  • Internação em setores de grande ocorrência de óbitos, onde os pacientes têm os mesmos diagnósticos, criando a “fantasia” de que ele poderá ser o próximo a morrer.

  • Internação prolongada, afastando o paciente dos seus entes queridos e das suas atividades. O que pode gerar sentimentos de inutilidade e também de “peso” para as pessoas queridas e/ou que cuidam dele.

  • Perda financeira em decorrência do custo do tratamento da doença e/ou do afastamento do paciente das suas atividades.

  • Encaminhamento do paciente para os cuidados paliativos. O paciente se sente como se estivesse diante de morte iminente, percepção carregada de estereótipos do passado em relação ao que sejam os cuidados paliativos.

  • Recebimento de resultado de exames/biópsia com resultados positivos para doenças graves e ainda pior se forem doenças associados a estigmas preconceituosos. Como, por exemplo, HIV positivo.

  • Necessidade de procedimento cirúrgico para amputação de membro.

  • Pós-operatório doloroso e complicado.

  • Dor física, dor crônica, que acabam por prejudicar o paciente, por mantê-lo em alerta na sua dor, direcionando sua atenção para somente seu sofrimento.

  • Depressão pré-existente intensificada a partir do adoecimento e/ou acidente.

  • Incapacitação e perda de autonomia em decorrência da doença e/ou acidente.

  • Ansiedade frente à morte, a sua e/ou de outros pacientes internados, seja esta iminente ou não.

  • Comunicação deficiente entre paciente e profissionais de saúde, gerando transtornos e fantasias que poderiam ser evitados.

  • Sentimento de culpa pelo aparecimento da doença e/ou da desorganização familiar provocada pela internação.

  • Ociosidade no hospital quando se tratando de pacientes conscientes e não incapacitados.

  • Sentimentos de solidão e desamparo.

Para finalizarmos, o sujeito deve, então, ser pensado como um todo e não somente nos critérios descritivos do DSM-5, considerando-se sua subjetividade e a etiologia dos seus sintomas. “O problema em jogo nas caracterizações diagnósticas atuais é, justamente, ter aberto mão do lugar da subjetividade no diagnóstico como garantia de objetividade e universalidade. Essa posição abre mão de hipóteses etiológicas e coloca no lugar critérios sintomatológicos”. (CAMPOS).

Podemos, então, concluir que precisamos acolher que tem depressão. E acolher implica em respeitar, escutar o que a pessoa tem a dizer, considerando sua subjetividade, ou seja, considerando aquilo que é dela: seus sentimentos, seus valores, suas vivências, enfim, sua individualidade.  Assim, escutar e diagnosticar, diagnosticar para tratar e se for o caso, encaminhar para tratar-se.

Ninguém está imune à depressão e todo alerta deve ser considerado, tanto por parte dos profissionais de saúde quanto por parte dos pacientes/familiares, para que possa ser devidamente tratada, não prejudicando, assim, a qualidade de vida e a alegria de viver.

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TEXTO RETIRADO DO SITE: http://www.psicologia.pt/artigos/ver_opiniao.php?depressao-no-ambiente-hospitalar-do-paciente-ao-profissional-de-saude&codigo=AOP0449

Humildade no Ato Médico

Humildade no Ato Médico

 

O dicionário da língua portuguesa define humildade como sendo a “qualidade de quem age com simplicidade, característica de pessoas que sabem assumir as suas responsabilidades, sem arrogância, prepotência ou soberba”. Dessa forma, a humildade é um sentimento extremamente relevante para o médico, que o faz reconhecer suas próprias limitações, com modéstia e ausência de orgulho. Mas a questão é: qual motivo faz com que essa característica seja extremamente importante para se ter uma carreira médica bem sucedida? Podemos elencar, na verdade, três vertentes principais que podem ser abordadas quando se fala de tal traço: impactos para os pacientes, para a equipe de trabalho e para a carreira.

O mais importante aforismo de Hipócrates postula “primeiro, não causar dano”. Para isso, o médico deve ter em mente que possui restrições na atuação, humildade ao lidar com os pacientes. Sua prepotência pode causar inúmeros danos à saúde daqueles que se submeteram a seus cuidados. O bom médico deve estar sempre disposto a mudar de acordo com o que for melhor para o paciente, seja quando se trata de técnicas cirúrgicas, seja para delineamento de condutas terapêuticas e atualização do conhecimento cientifico que, principalmente na área da saúde, tende a acontecer de maneira cada vez mais veloz. Além disso, o sentimento em questão traz o médico a uma realidade de horizontalidade, onde o paciente está exatamente em seu nível, não inferiorizado pela situação de vulnerabilidade por suas debilidades físicas enquanto o médico, em posição superior, detém o conhecimento para lidar com a doença. Essa situação tende a produzir um atendimento mais humano, atento, enxergando o paciente sob várias perspectivas que não somente a de um “organismo doente que necessita de reparo”.

A humildade também é extremamente necessária quando se trata da convivência do médico com os outros profissionais. Segundo o filósofo chinês Confúcio, “a humildade é a única base sólida para todas as virtudes”. Quando se trata de relacionamento médico com sua equipe, virtudes estão fortemente relacionadas à boa convivência e, portanto, com produtividade e eficiência, o que se prova verdade num mundo progressivamente mais conectado em que a multidisciplinaridade é grandemente difundida e praticada. Nesse sentido, nenhum médico é detentor da verdade absoluta e do conhecimento pleno, sendo profícuos a discussão de casos com os colegas, a troca de opiniões e o pedido de ajuda quando o benefício do paciente o requer. Colocar a vaidade profissional acima da atenção ao paciente causa deformação no bom agir médico. É preciso estar disposto a retificar a opinião, uma atitude que não supõe nenhum demérito, mas sim a procura humilde, com consciência de missão, do bem estar do paciente.

Quando se busca uma carreira bem sucedida, a humildade vem, novamente, ocupando lugar de grande importância para a construção de um profissional de excelência. Pelas palavras de Mario Sergio Cortella, “a humildade é a habilidade de reconhecer que ainda há o que aprender, que não se atingiu o ponto máximo de crescimento”. Nesse caso, o médico que deseja fazer crescer e prosperar a carreira não pode portar a impressão de que já obteve todo o conhecimento e que já realizou todas as ações possíveis para alcançar seus objetivos, mas ter a sensibilidade de perceber que há sempre algo inédito para buscar, inovações que o diferenciarão de outros profissionais e o tornarão acima das expectativas do mercado.

De Hipócrates e Confúcio a Mario Sergio Cortella, a visão de que a humildade é extremamente eficaz na construção de um profissional/cidadão brilhante é convergente. Assim, o médico, que desfruta de grande status social pelo simples fato de ser médico, deve cuidar para que a arrogância, a prepotência e a soberba não ofusquem sua missão ao cuidar dos pacientes, ao lidar com os parceiros de equipe e ao planejar e construir sua carreira.

Referências:

https://www.gentedeopiniao.com.br/colunista/viriato-moura/exercicio-da-medicina-humildade-e-preciso

https://www.prospectivedoctor.com/humility-role-medicine/

https://www.dicio.com.br/humildade/

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0738081X12002659

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2917943/

Insônia em profissionais de saúde

Insônia em profissionais de saúde

A insônia pode se manifestar de três formas: ou como uma dificuldade de se adormecer (insônia inicial), ou como uma dificuldade se permanecer dormindo (insônia intermediária), ou através de um despertar precoce, impedindo a pessoa de voltar a dormir (insônia terminal). Em determinados momentos da vida, muitos adultos vivenciam períodos curtos de insônia, não necessitando, na maior parte das vezes, de intervenção médica. Esses episódios geralmente estão associados a situações de maior estresse ou a eventos traumáticos.

Quando este transtorno se torna crônico, dificultando o funcionamento diário do indivíduo, torna-se necessário uma avaliação pelo médico. Tal avaliação é necessária, pois a insônia pode ser tanto um transtorno primário, quanto estar associado a outras condições médicas. Doenças clínicas (ex: hipertireoidismo), transtornos psiquiátricos (ex: depressão) e uso de medicamentos (ex: anti-hipertensivos) são alguns exemplos que podem causar alterações de sono secundárias.

Um estudo recente realizado na Coréia evidenciou que profissionais de saúde possuem uma prevalência duas vezes maior de transtornos do sono do que outras profissões. Este e outros estudos sustentam a hipótese de que as alterações de sono são mais comuns nessa população. Um dos fatores principais atribuídos a isto é a necessidade da realização de plantões e turnos noturnos.

Sintomas decorrentes da privação de sono, como fatigabilidade, irritabilidade e desatenção são mais prevalentes nesses profissionais que trabalham em plantões diurnos e noturnos. Tal fato ocasiona redução da eficiência laboral e aumento do risco de acidentes de trabalho. Soma-se a isto outras complicações mais tardias, como aumento de pressão arterial, doenças cardiovasculares e outros transtornos psiquiátricos.

Devido a isto, é de extrema importância que algumas atividades preventivas sejam realizadas para melhorar a qualidade de vida dos funcionários que trabalham em horários noturnos. Existem atualmente guidelines com este intuito, abordando desde questões estruturais do local de trabalho (ex: iluminação, som), até atividades de adaptação e organização dos turnos noturnos. Junto a isto é necessário que hajam screenings periódicos para transtornos mentais, além de workshops e sessões informativas com o intuito de reconhecer e manejar determinados sintomas que possam advir de situações de estresse crônico.

 

Referências:

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MAYO CLINICAL STAFF. Insomnia. Disponível em: < https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/insomnia/symptoms-causes/syc-20355167>. Acesso em 14 de outubro de 2018

Uso de álcool em profissionais de saúde

Uso de álcool em profissionais de saúde

Em 1791, Benjamin Rush, considerado o pai da psiquiatria norte-americana cunhou uma frase que ajudou a fundamentar o conceito de dependência química: “beber começa como um ato de vontade, caminha para um hábito e finalmente afunda na necessidade”. Já nesta época, o autor propunha medidas comunitárias para controle do uso do álcool, uma vez que já considerava o seu uso um problema de saúde pública. Atualmente a dependência de álcool é um dos transtornos mentais mais prevalentes na sociedade, tendo este um caráter crônico, associado a recaídas e responsável por inúmeros prejuízos clínicos, sociais, trabalhistas, familiares e econômicos.

No Brasil, dados coletados pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), mostraram que a prevalência de uso de álcool em 2005 foi de 74,6%, enquanto que a de dependência de álcool foi de 12,3%. Mesmo assim, a dependência de álcool é subdiagnosticada. O diagnóstico, assim como o tratamento, quando realizados, são muitas vezes tardios, piorando prognóstico e propiciando a falsa idéia de que pacientes dependentes raras vezes se recuperam.

O uso nocivo e a dependência de álcool trazem diversos comprometimentos ao sujeito. Este padrão disfuncional acarreta em diversos problemas de caráter interpessoais, psicológicos, e até por vezes legais. Intoxicações agudas  estão muitas vezes associadas a comportamentos sexuais de risco, agressividade, labilidade de humor, diminuição de julgamento crítico, aumento de comportamentos suicidas, além de poderem, em casos mais graves, ocasionar depressões respiratórias, coma e, mais raramente, morte. Já em pacientes dependentes de álcool, são comuns sintomas como alucinose alcoólica, delirium tremens, períodos de abstinências graves, além de outros quadros clínicos de longo prazo, como cirrose hepática, pancreatite, cardiomiopatia e demência alcoólica.

A prevalência de transtornos relacionados ao uso de álcool entre os profissionais de saúde é extremamente variável, ainda não sendo possível afirmar se esta é mais elevada ou não nestas categorias profissionais. Um estudo alemão de 2009, por exemplo, evidenciou que um terço dos estudantes médicos e profissionais de saúde apresentavam comportamento problemático associado ao uso de álcool. Já outro estudo de 2004 apontou menor uso de bebidas alcoólicas nessa população quando comparado a população geral.

Além das diferentes prevalências, aparentemente existem diferenças no padrão de uso da substância entre os profissionais. Dentistas, por exemplo, aparentemente consomem mais álcool do que outros profissionais de saúde, no entanto, o impacto do uso é maior em enfermeiros. Outro dado observado foi a associação entre o aumento do uso e a idade do profissional, estando os mais velhos mais susceptíveis a usos danosos de álcool.

Os dados referentes a dependência de álcool em profissionais de saúde ainda são, portanto, controversos e escassos, sendo necessário um aumento de estudos nesta área. Estes profissionais desempenham um papel educativo importante em saúde, servindo muitas vezes como modelos para um estilo de vida saudável. Já foi observado, por exemplo, que médicos com estilo de vida pouco saudáveis podem oferecer a seus pacientes conselhos menos eficazes sobre estes assuntos do que colegas mais preocupados com a saúde. Isto mostra a importância de se estudar temas como dependência de álcool e outras substâncias nessa população.

 

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Autoestima e o Médico

Autoestima e o Médico

O processo de Globalização e IV Revolução Tecno-científica Informacional1 originada na segunda metade do século passado e em plena execução na segunda década do século XXI trouxe consigo um panorama de conflitos entre as saúdes mental e física de toda a população – refletindo nos médicos e na sua profissão. O foco na transmissão de dados e de notícias geralmente voltados para interesses econômicos das potências mundiais fez com que a programação neuropsíquica associativa do homem sofresse estímulos mais velozes do que estava acostumada a suportar. Assim, mesmo com todos os avanços nas pesquisas a respeito do cérebro e suas questões anátomo fisiológicas e da saúde mental nota-se um atraso na neuro plasticidade do ser humano em relação ao novo meio ambiente o qual está inserido. Nesse contexto, as estatísticas de prevalência da baixa autoestima e consequentemente da depressão e do suicídio aumentam diariamente enquanto de modo proporcional verifica-se uma queda na produtividade e na qualidade do serviço médico ofertado pelos profissionais.

Não é novidade que a autoestima é de vital importância para todo indivíduo – em especial, para o médico. Tratando-se do agente transformador da saúde, o equilíbrio da mente e do corpo é essencial para a boa prática de medicina. De acordo com o professor da Universidade de São Paulo Leandro Karnal indivíduos otimistas e com maior autoconfiança agem enfrentando os seus desafios e consequentemente podem alcançar maior produtividade e resultados positivos no exercício diário da profissão. Atualmente nas grandes empresas muitos workshops e seminários têm sido adotados como maneira de estimular a renovação dos conhecimentos e de técnicas de autodesenvolvimento no intuito de explorar essas questões. No meio médico, em contrapartida, não há razão evidente que justificasse o fato dessa inciativa de promover qualificação contínua dos profissionais continuar a ser executada de maneira tão lenta e discreta. Assim, a promoção da saúde global do indivíduo – leia-se harmonia entre a mente e o corpo – caracteriza-se em elevada autoestima, é de extremo valor para um alto desempenho dos médicos dentro de sua rotina e poderia ser mais bem exploradas por educação continuada.

A autoestima, também, é importante para uma melhor preparação prévia do médico para os desafios diários. Com o conhecimento antecipado de seus objetivos de maneira clara e consciente, o médico – e qualquer outro profissional – conquista a possibilidade de buscar um treinamento adequado e de recolher informações relevantes para o preparo de sua carreira e de suas habilidades cognitivas e técnicas. Seja no ingresso em um novo emprego seja na escolha da especialidade ou na abertura de seu consultório esse plano de metas promove maiores chances de alcançar sucesso nos novos projetos. Considerando a autoestima semelhante a uma alavanca, parafraseando o autor “Schaw Achor” no livro “O jeito Harvard de ser feliz”, a manutenção da autoestima em altos níveis permite elevar comportamentos que levam ao sucesso e sentimentos positivos e, ainda, pode representar uma fuga à depressão2 pelo rebaixamento dos sintomas das falhas diante dos obstáculos diários. É um mecanismo “fisiológico” de defesa do ser humano quando bem administrada e a atenção aos seus cuidados deveria ser considerada prioridade.

Já o psiquiatra, escritor e palestrante brasileiro Augusto Cury3 afirma que a ansiedade é o “mal do século”. Constatou que a velocidade de informações e de cobranças oferecidas ao homem nunca foi tão intensa e que isso representava uma necessidade de modificar as características psicossociais do ser humano. É plenamente difundido que tal ansiedade extrema se associa de maneira inversamente proporcional à autoestima. Identificam-se nesses casos de baixa autoestima diversas situações comuns, como a frustação diante de grandes expectativas criadas pela própria mente do indivíduo em relação a algo ou a alguém ou como a vivência no passado ou no futuro com impedimento que o presente esteja sendo vivido de maneira adequada com a devida programação por metas com objetivo de alcançar os sonhos pessoais vislumbrados no futuro. Nesse contexto, surge a depressão – doença com estimativa de prevalência de 4,4% da população mundial segundo a OMS4. No Brasil, de acordo com a organização, ocupa o segundo lugar na lista com o valor ultrapassando a referência mundial e chegando aos 5,8%. A evolução desse quadro clínico em tamanha parcela da população traduz os números apresentados no ano de 2015, quando 788 mil pessoas morreram por suicídio. Isso representou quase 1,5% de todas as mortes no mundo, figurando entre as 20 maiores causas de morte no ano do estudo. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda maior causa de morte.

No artigo extraído do MedScape5 “Why So Many Doctors Lack Self-confidence, and How to Get It Back” encontram-se referências à baixa autoestima de estudante de medicina e de médicos nos EUA ao longo de suas graduações, de suas residências, de seus fellowships e nas suas rotinas de trabalho. Alguns indicam prejuízos na saúde mental por sentirem pressão em demasia ofertada pelos pacientes e pelos chefes nos hospitais – geralmente cobranças envolvendo um alto grau de resultado. Outros apresentam questões relacionadas à dificuldade de manusear a vida pessoal pela alta carga de honorários na prática diária e pela falta de disposição física para desfrutar dos pequenos momentos livres com os entes queridos. No Brasil a situação não é muito diferente. Os médicos sofrem com as questões relatadas pelos norte-americanos sem, contudo, contar com uma boa infraestrutura para exercer uma boa medicina. Isso sem levar em consideração a redução acentuada do reconhecimento do profissional por parte da população com o passar do tempo.

Há ainda a questão da aparência física dos médicos que não dispõem de tempo para se exercitar e cuidar da própria saúde. Além da redução da autoestima, a falta de cuidados com a saúde física gera grande indisposição para enfrentar rotinas desgastantes. Isso se associa com redução da produtividade, com o maior risco de depressão e suicídio e a uma queda da expectativa de vida. De acordo com pesquisa publicada no British Medical Journal6 a baixa autoestima reduz a vida dos indivíduos por uma série de motivos, dentre os quais aumento de doenças cardiovasculares, psiquiátricas e imunológicas. Nas palavras do Dr. Lair Ribeiro – médico, professor, palestrante e escritor brasileiro – “Ou você arruma um tempo para cuidar da sua saúde ou você terá de arrumar um tempo para cuidar de sua doença”. Nota-se, nesse sentido, um ciclo vicioso de relação direta entre a baixa autoestima e a má administração do tempo por parte do médico – imerso na rotina desgastante de trabalho – adotando hábitos que afetam a saúde física impactando consequentemente sua saúde global.

Mudanças na educação e na condução dos desenvolvimentos físico e psíquico das próximas gerações tornam-se necessárias no novo ambiente a qual o ser humano está inserido. Nas escolas de base e nas universidades – principalmente nos cursos de medicina – têm sido defendido em diversos seminários e debates relacionados à educação o modelo de ensino “Problem Bases Learning” (PBL). O modelo consiste em oferecer maior autonomia de busca pelo conhecimento aos alunos por meio da problematização e coordenação de um professor tutor. Surgido na década de 607 vem sendo implantado ao redor de todo o mundo – a partir disso no Brasil foi criada a lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB (Lei No. 9.394 de 1996). Desse modo, com a propagação desse método de ensino reformulado é esperado que os estudantes e futuros profissionais saíssem para o mercado de trabalho e para a vida mais bem preparados para resolução de problemas e eventuais obstáculos no dia a dia. Note que, com aprendizado relacionado à resolução de problemas, o sentimento de êxito promove o crescimento exponencial da autoestima. Representa, portanto, uma possibilidade de transformar positivamente por meio da autoestima elevada o exercício da profissão médica nas décadas seguintes.

Paralelamente ao PBL, uma reformulação do olhar da população para o papel dos psicólogos seria uma estratégia interessante para frear os avanços tanto da prevalência da baixa autoestima quanto dos seus sintomas. A maneira pela qual a maioria das pessoas lida com as frustrações é inadequada e tal fato deveria ser acompanhado por profissional capacitado – realidade bem distante da encontrada na sociedade brasileira. Nesse sentido, a criação do hábito de visitar os psicólogos – em especial o profissional médico que lida diariamente com desafios e situações impactantes para o emocional de qualquer ser humano – seria uma estratégia de grande valia para elevar a autoestima e reduziria os sintomas derivados de sua flutuação.

Não menos importante tratando-se de estratégias para aumentar a autoestima dos médicos seriam investidas para aprender a administrar melhor o tempo e cuidar da própria saúde. Sabe-se que pela desorganização ou até pela carga horária de afazeres diários extensos os profissionais acabam deixando pouco ou nenhum momento do dia para dedicar a si mesmo. Surgem, diante disso, todos os problemas familiares, sociais e aqueles relacionados ao aumento exacerbado de peso. Nesse contexto, seria interessante a criação de uma rotina saudável com prática regular de exercícios físicos ao menos três vezes na semana e com diversos momentos dedicados à família; a realização de planejamento diário no início da jornada de trabalho com prioridades destacadas e tempo para efetuar cada obrigação e o planejamento para ver os entes queridos para reestabelecimento da saúde global e, assim, da autoestima.

Outras indicações para combater a baixa autoestima verificada nos médicos americanos – sugerida pelo artigo5 – foram a interrupção dos abusos encontrados no sistema de saúde, tanto pela alta carga horária quanto pelos abusos de chefes, de colegas e dos demais líderes; a tolerância zero para práticas ofensivas de “bullying”; o oferecimento de um suporte de saúde mental para os profissionais no ambiente de trabalho para que possam receber os cuidados que oferecem aos seus pacientes; o estímulo a construção de relacionamentos sólidos com família, com cônjuges e com colegas e, por fim, a promoção de uma cultura de comunicação e respeito.

Tendo em vista que a relação entre o atual panorama do exercício da profissão médica e a autoestima possui atualmente um prognóstico ruim, alterações relevantes deveriam ser colocadas em vigência imediatamente para melhora da situação. No primeiro plano, os cuidados com a saúde mental dos médicos por profissional capacitado associado a um melhor preparo educacional dos indivíduos que serão inseridos no mercado no futuro seria essencial. Além disso, um interesse pela organização pessoal do médico no intuito de deixar de ser dominado pelo tempo seria fundamental para o seu sucesso pessoal, físico, mental e profissional. Posteriormente, deveria ser explicitamente publicado pelos Conselhos de Medicina por meio de campanhas a prevalência do respeito e do companheirismo nos ambientes de trabalho. Os Conselhos, ainda, deveriam oferecer controle rígido dos comportamentos inadequados. Por fim, a construção de uma família e de um ciclo social adequado para a personalidade de cada médico seria indispensável como apoio diante de uma rotina de trabalho tão desgastante. A união desses fatores impactaria a qualidade de vida dos médicos elevando sua autoestima e, consequentemente, provocaria grande aumento de sua produtividade e da qualidade de seu atendimento.

Referência Bibliográfica:
1 – https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/revolucao-tecnicocientificoinformacional.htm
2 – ACHOR, Shaw. O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Saraiva, 1ª Edição: 2012.
3 – CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século. São Paulo: Saraiva, 2013.
4 – https://g1.globo.com/bemestar/noticia/depressao-cresce-no-mundo-segundooms-brasil-tem-maior-prevalencia-da-america-latina.ghtml
5 – https://www.medscape.com/viewarticle/849481_5
6 – https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/story/2003/09/printable/030912_autoestimaebc.shtml
7 – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422011000700029